Ontem foi Barra do Riacho, anteontem Tubarão, hoje é Ubu o melhor lugar para sondar o futuro do Espírito Santo. Ubu é o nome da usina siderúrgica que a Vale projetou para um dos distritos do município de Anchieta, sede do complexo de pelotização de minério de ferro iniciado há mais de 30 anos pela Samarco, aliás Vale.
O projeto da Companhia Siderúrgica de Ubu prevê a produção de 5 milhões de toneladas de aço por ano, o que representa 1% da capacidade mundial, estimada em 500 milhões de toneladas anuais. Com aço sobrando no mundo e muitas usinas paradas ou operando com ociosidade, o projeto da CSU não faz sentido, ainda mais que a Vale prefere a mineração à siderurgia.
A Vale não tem interesse em bancar sozinha uma usina de aço porque seu objetivo maior é vender minério de ferro. Ela cria o projeto e ajuda a implantá-lo, mas prefere ser sócia minoritária, como acontece nas usinas de pelotas de ferro em Vitória e São Luiz.
Com a crise do mercado mundial, seria então o caso de colocar uma pedra em cima do assunto, diriam os pragmáticos, mas tudo indica que Ubu não morreu após a desistência da chinesa Baosteel em participar do projeto orçado em US$ 6,2 bilhões. Segundo fontes mineiras, a Vale procura outro sócio para tocar Ubu, beneficiada recentemente por uma licença ambiental de instalação. A empresa também procura parceiros para seus outros projetos siderúrgicos no Ceará, no Pará e no Rio de Janeiro, este recém-inaugurado.
Na prática, com a saída de Roger Agnelli e a posse do novo presidente Murilo Ferreira, a empresa está “trocando as penas”. Quanto tempo vai demorar esse processo? Haverá mudança de planos? A empresa adotará um novo comportamento? Estará sendo feito um ajuste aos novos tempos ditados pela crise climática? São as perguntas que se fazem à sombra do projeto de Ubu.
Com o planeta batendo pino, reduziu-se o espaço dos predadores dos recursos naturais. A quem não acredita na evolução, deve-se lembrar que há 20 anos a Cia Vale do Rio Doce teve instalações fechadas temporariamente em Vitória por não cumprir a legislação ambiental. Até hoje a empresa não é um modelo de operação limpa, mas melhorou e, se não continuar se aperfeiçoando, vai levar multas e queimar sua imagem junto às comunidades vizinhas.
A identificação profissional de engenheiros com economistas no afã de alcançar a máxima receita com o mínimo de despesas não tem mais perspectivas operacionais na mineração, na siderurgia e na metalurgia, nas quais se praticou à larga a máxima exploração dos recursos naturais a custo zero.
Os que sempre lutaram contra a incúria ecológica dos grandes grupos minerometalossiderurgicos podem acreditar que está chegando ao fim o velho conluio antiambiental entre acionistas, executivos, administradores e operadores das empresas desses setores tradicionalmente associados a devastação e poluição. Nesse contexto, se for construída, a usina de Ubu precisa ser um marco.
Lembrete de ocasião
“É muito mais importante que todos comecem a produzir alguma coisa do que apenas uns poucos produzam muito”.
E. F. Schmacher em “Small Is Beautiful” (1973), editado no Brasil como “O Negócio é Ser Pequeno”
Infomet / Século Diário
Publicação: 22/07/2011