
Confirmadas as projeções, a companhia Vale ligará, em novembro de 2012, as máquinas da siderúrgica Aços Laminados do Pará (Alpa) que produzirá, na primeira fase, 2,5 toneladas/ano de aço, a investimentos totais de US$ 3,3 bilhões. (A segunda fase, que dobrará a capacidade de produção, ainda não tem data prevista para implantação).
O empreendimento, reivindicação histórica da sociedade paraense (que detém a maior província mineral do planeta e briga desde os anos 70 pela verticalização da cadeia do minério de ferro), é resultado de um esforço tão gigantesco quanto o projeto, envolvendo a própria Vale, os governos estadual e federal, a prefeitura de Marabá, município de instalação da usina, e segmentos variados da sociedade civil organizada, como entidades patronais e de trabalhadores. Este esforço é o tema da terceira matéria sobre os projetos que colocam o sul e o sudeste do Pará como centro do desenvolvimento paraense pelos próximos anos.
É na Serra dos Carajás que a Vale extrai seu minério de mais alta qualidade, e ao custo mais baixo. Por isso a reivindicação da siderúrgica era imperiosa para todos os segmentos da sociedade paraense, mas esbarrava no alto investimento demandado e no fato de, no mundo globalizado, qualquer centavo influenciar na competitividade: economicamente, a siderúrgica enfrentava empecilhos que a inviabilizavam, como os custos de logística, sobretudo de transportes. A Vale dependia, entre outros fatores, da viabilização, pelo governo federal, da hidrovia Araguaia-Tocantins, para levar o aço produzido em Marabá até o porto de Vila-do-Conde, quinhentos quilômetros distante. Na primeira reunião que debateu a criação do Fórum Paraense de Competitividade, em dezembro de 2008, o diretor de relações institucionais da companhia, Eugenio Victorasso, já alertava que a não-viabilização da hidrovia era o principal gargalo infraestrutural para grande parte da economia paraense, no que foi secundado por vários empresários.
Três meses depois, o presidente Lula anunciava em Brasília a hidrovia, que incluía a construção das duas eclusas de Tucuruí, com recursos totais de mais de R$ 1 bilhão. No mesmo ato, com a presença da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, o presidente da Vale, Roger Agnelli, anunciou a construção da siderúrgica, o que, de imediato, deixou o sul e o sudeste do Estado de prontidão, com os principais municípios em lobby para sediar o empreendimento.
A Vale então prospectou a melhor área e, em conjunto com o governo do Estado (que deu garantias de desapropriação e criação de infraestrutura), decidiu-se pelo terreno de mais de mil hectares em Marabá, que oferecia vantagens como estar à beira do rio Tocantins (objeto da hidrovia), ficar perto da Estrada de Ferro Carajás, mantida pela mineradora, e não ser alvo de maiores impedimentos ambientais (veja infográfico). O esforço para viabilizar a siderúrgica apenas começava.
A área ideal é atravessada pela rodovia Transamazônica, que precisará ser desviada em quase 15 quilômetros, obra já garantida pelo Ministério dos Transportes, via Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), com previsão de conclusão no final do próximo ano. Os mais de mil hectares também precisavam ser desapropriados, o que demandou interferência do governo do Estado, via Companhia de Desenvolvimento Industrial (CDI) e da Procuradoria Geral do Estado (PGE), que imediatamente se puseram a negociar com os donos, fixando valores e elaborando a papelada. Outra dificuldade é que o governo precisava criar condições para atrair e beneficiar outras empresas, e assim decidiu investir mais de R$ 30 milhões no Distrito Industrial de Marabá, inclusive também desapropriando uma área contígua à que será ocupada pela siderúrgica, o que também demandou a publicação de um novo decreto pela governadora, desapropriando mais 1,3 mil hectares de terras.
O esforço envolveu ainda o governo federal de duas maneiras: a construção de um porto público em Marabá, a um custo de pelo menos R$ 80 milhões, para assim beneficiar todos os demais produtores da região, e melhorias e ampliação do porto de Vila-do-Conde, por onde será exportada toda a produção, não apenas do Pará, mas também de outros estados, sobretudo grãos oriundos do Centro-Oeste.
A prefeitura do município de Marabá, que, em conjunto com os governos estadual e federal, iria cooperar em outros aspectos da estrutura necessária, como a construção e recuperação de escolas, conseguiu então uma das principais reivindicações do município: a duplicação da Transamazônica no trecho que corta a cidade (cerca de oito quilômetros), o que inclui uma ponte e a rotatória que interliga os três núcleos urbanos (Marabá Pioneira, Nova Marabá e Cidade Nova), obra de R$ 84 milhões, dos quais R$ 80 milhões vêm do DNIT. A Prefeitura também iniciou a construção e recuperação de escolas (veja o total das obras previstas na reportagem de amanhã) e se prepara para receber novos empreendimentos, como a construção de vários condomínios gigantescos já anunciados e em inicio de comercialização.
Deste esforço conjunto faz parte também o treinamento de mão-de-obra e preparação de fornecedores (o governo do Estado participa do esforço por meio do Bolsa Trabalho, que ajuda a capacitar jovens, e o Programa de Desenvolvimento Fornecedor (PDF), mantido pela Federação das Indústrias do Pará (Fiepa). E a construção de um desvio, pela Vale, da Estrada de Ferro Carajás, que assim chegará até o local da siderúrgica, com o minério de ferro a ser usado como matéria-prima. O aço será produzido como coque, a ser produzido pela própria companhia, a partir de carvão mineral comprado no mercado internacional.