Primeiro Edifício em Estrutura Metálica do Brasil
Garagem América: Um exemplo de Pioneirismo e Arrojo Tecnológico - Página 2

Feito o projeto, iniciados os desenhos, iniciada a fabricação das estruturas e iniciada a cravação das estacas na periferia do terreno, faltava ainda um elemento. A CSN não tinha condição de montagem, pois estava altamente comprometida com o final das obras de ampliação.

Foram procuradas então, as três únicas empresas existentes em São Paulo, que, clientes da CSN, se dedicavam à fabricação de estruturas metálicas. Eram elas a Fichet, a Pierre Saby e a União dos Construtores Metálicos (subsidiária da Andratell S.A., desde 1966).

Foi feito uma concorrência, e saiu vencedora a União dos Construtores Metálicos. Naquela ocasião eu era o Engenheiro da empresa, e tive a oportunidade de coordenar e executar toda a montagem do edifício, razão pela qual, 45 anos depois, estou falando desta obra.

Feito esse retrospecto histórico, voltemos à técnica e focalizemos os principais tópicos do pioneirismo e arrojo tecnológico, que confirmam as qualidades da estrutura metálica, mesmo nas condições em que foi realizada a obra.

A solução encontrada foi cravar-se estacas ao longo da periferia e construir-se o prédio de cima para baixo!

Inicialmente, no trecho retangular, foram cravadas as estacas com liga de cobre, formadas por 2 perfis 1 12" soldados pelas abas, atingindo cerca de 18 rn de comprimento e afastadas de 1,50 m. 0 topo das estacas corresponderia ao 60 teto, próximo ao nível da Rua Riachuelo, devendo ser escavados os andares até o térreo, na cota da Avenida 23 de Maio.

No topo das estacas, depois de perfeitamente niveladas, foram aplicadas placas retangulares soldadas, e apoiadas vigas de distribuição de cargas, em perfis de caixão de alma cheia, com comprimento de 4,5 m, abrangendo, cada uma, 3 estacas consecutivas.

As referidas vigas, de composição totalmente rebitadas, formadas por chapas e cantoneiras, trabalhavam como vigas baldrame, que receberiam as colunas metálicas que nela se apoiariam, transmitindo as cargas concentradas de cerca de 240 toneladas, provenientes dos andares acima do 6º piso (vide fotos 1, 2, 3 e 4).Terminada a laje, foi escavado todo o trecho entre o 60 e 5º tetos, com espaço para colocação das vigas do 5º teto, pelo mesmo sistema anterior, fixando-se as vigas nas faces das estacas.
Nas almas das estacas foram soldadas uma série de ferros redondos em forma de ganchos, e imitando espinhas de peixe, com inclinação alternadamente invertida a fim de solidarizar as estacas com uma cortina de concreto de 20 cm de espessura, que se ia executando à medida do prosseguimento do processo, isto é, à medida que se escavava e se colocava nova série de vigas, cada vez em nível mais baixo.

A cortina de concreto teve função dupla. Trabalhava como muro de arrimo, para receber os empuxos de terra, à medida que se ia avançando a escavação, fazendo as vigas e lajes metálicas trabalharem em conjunto como estroncas, com esforços de flexão para cargas verticais e compressão para cargas horizontais, provenientes dos empuxos.

A segunda função da cortina for de receber e distribuir as cargas verticais concentradas provenientes das colunas dos andares acima do 7º teto.

Essas cargas distribuídas pelas vigas baldrames, a cada conjunto de 3 estacas eram distribuídas uniformemente à cortina por meio dos referidos ganchos de solidarização (espinhas).

Assim, as cargas verticais foram distribuídas linear e uniformemente por intermédio da cortina até o andar térreo.

É evidente que as condições de trabalho nesse, período foram totalmente excepcionais, pois o trabalho se dava em condições totalmente irregulares, com andamento intermitente da montagem, em vista das interrupções a cada período de escavação.

Os períodos de chuva, evidentemente nessa ocasião, criaram dificuldades, que não deixaram de ser superadas. A retirada da terra das escavações sucessivas se fazia pelo lado do leque, por meio de um corredor com paredes estroncadas.

A essa altura se começava as escavações dos dois núcleos centrais, em forma de rins, que corresponderiam às curvas da futura rampa de acesso de carros.

Essa duas escavações foram executadas por meio de estroncamentos de madeira, cruzadas e fixadas em estacas metálicas, até atingir a cota inferior no nível da Avenida 23 de Maio, onde se construiu os blocos de fundação direta, superados os problemas de rebaixamento do lençol freático.

A essa altura, a montagem se iniciava acima do 6º teto. Sobre as vigas baldrames, foram colocadas as vigas do 6º teto (chamadas vigas de transição).

Nas extremidades dessas vigas, que avançavam em pequenos balanços para fora dos baldrames, foram montadas as colunas para os trechos acima do 7º teto, de forma que as faces dessas colunas ficavam alinhadas com as linhas da divisa, evitando-se toda perda de espaço, pois, nos andares abaixo do 7º teto, o alinhamento das estacas ficavam um pouco para dentro dos limites do terreno, em virtude do espaço necessário ao bate-estaca e o espaço necessário à execução da forma externa da cortina.

Cumpre notar que até esse ponto, e mesmo ainda com a montagem subseqüente das colunas e vigamentos para os 10º e 11 º tetos, ainda não haviam fundações.

Todas as cargas das lajes eram sustentadas apenas pelo atrito das estacas metálicas e da cortina que se ia executando a partir do 6º teto até o nível do térreo.

Para serviços de fundação, foi construído abaixo do último piso inferior, uma abóbada invertida, semi cilíndrica, de concreto armado, com extremidades ligadas às duas cortinas laterais. Assim, as cargas lineares provenientes das cortinas eram transmitidas pela abóbada ao solo, sob forma de reação, com distribuição uniforme com taxa de 1,8 kg/cm². Essa abóbada foi dividida em células, por septos de concreto, dando rigidez à laje curva.
0 volume entre a laje horizontal do piso térreo e a laje curva inferior da abóbada invertida se constituiu num grande reservatório de água para uso da garagem.

Terminada a concretagem da abóbada, que trabalhava como verdadeiro Radier semi cilíndrico, continuou-se a levantar a estrutura do 10º teto até o final, ou seja, o 16º andar.

Cumpre ressaltar aqui, um aspecto sui-generis do trabalho de montagem. Naquela época (apenas 45 anos atrás), não se dispunha no Brasil, com facilidade, de qualquer tipo de guindaste, seja do tipo torre, seja do tipo Guy-Deirick, ou outro que fosse aplicável ou disponível para a construção de edifícios.

garagem-america-7

Na época, o máximo que se empregava em construção era a precária torre de madeira para o elevador a guincho. Apenas a Light, em São Paulo, tinha um Guy-Deirick. A CSN e outras grandes empresas só dispunham de guindastes sobre lagartas, típico para montagens industriais.

A montagem da Garagem América, com todos os seus dezesseis andares e nas condições especiais que caracterizaram o projeto, foi totalmente montada à mão. 0 equipamento mais sofisticado, foi um mastro com lança móvel, que construímos na base da improvisação, montamos sobre um estrado com quatro rodas metálicas e acoplamos a um conjunto de dois guinchos manuais.

Usamos mastros, tirfors, alavancas e cordas. 0 equipamento mais evoluído foi o compressor de ar comprimido e os marteletes de rebitagem (toda a estrutura foi montada com rebites, aliás como rebitados foram as composições das vigas, colunas e demais elementos estruturais na fabricação). Não sei se hoje (perdoem-me o saudosismo), seríamos capazes de repetir a dose, com os mesmos equipamentos.

Quando a montagem do trecho retangular e início do leque atingia o 11º teto, ainda se trabalhava nas fundações do trecho inferior do leque. Nesse trecho, afastados de cerca de 8 m entre si, foram executados oito tubulões de concreto de 1,60 m de diâmetro, para as fundações.



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