Sobras industriais dos transformadores e chapas virgens de inox polido adquirem expressão estética em obras originais.
Bem mais fácil é encontrar referências às atividades dos três em cadernos culturais, uma vez que eles são artistas plásticos. Uns possuem obra mais extensa que outros - Bittencourt calcula que já tenha criado mais de 12 mil peças - e, como é natural, já alcançaram maior projeção em suas carreiras.
Mais além do talento que os une, há uma razão concreta para que eles sejam objeto de reportagem da revista: Dirce, Bittencourt e Castro utilizam com muita freqüência o aço inoxidável como material básico para exprimir a sua arte.
Dessa forma, mesmo que em termos absolutos o consumo do material nessas atividades não seja tão expressivo - como reconhece Arturo Chao Maceiras, diretor executivo do Núcleo Inox - trata-se de um universo que apresenta uma das formas menos convencionais da aplicação do material e isso justifica o fato de o inox nas artes plásticas ser a matéria de capa da atual edição.
De uma forma geral, os artistas estão interessados nas funcionalidades plásticas e estéticas do inox - o desempenho técnico do material, que atrai usuários em aplicações mais pragmáticas, para eles fica em segundo plano. Mas, em algumas situações, é dessa aplicação mais conceitual que se abrem portas para usos em maior escala.
O trabalho de Rubens Castro, que há cerca de dois anos imprime suas obras sobre chapas de inox, por exemplo, tem seu valor não só como arte mas também como inovação tecnológica - o reconhecimento é sua presença na edição 2006 do Yearbook of Stainless Steel Aplications, editado pelo International Stainlees Steel Forum (ISSF).
Ao contrário de Castro, que trabalha com chapas virgens de aço inox polido, Lúcio Bittencourt dedicou mais da metade de seus trinta anos de carreira a criar objetos, esculturas e monumentos a partir da sucata do aço inox - das mais de doze mil peças que criou, ele calcula que mais de 5 mil tenham sido montadas só com despojos do inox.
A mais recente delas é um monumento de 10 metros de altura em homenagem a São José, montado na entrada de Ribeirão Pires, na grande São Paulo.
A maior - com 25 metros de altura, localizada em Araçariguama, SP - chama-se Desbravador da Esperança.
Nascido em Mogi das Cruzes, SP, Bittencourt conta que, desde criança, criava objetos a partir de sucata, linha que mantém ao longo de toda a carreira. Depois de ter experimentado outros metais, passou a utilizar preferencialmente o aço inoxidável em suas criações.
"Quando comecei a fazer esculturas com o inox as pessoas em geral o achava um material frio", recorda. No entanto, com seu trabalho, Bittencourt conseguiu derrubar o preconceito. "Atualmente, 90% de minhas esculturas são elaboradas com o inox", informa.
As peças criadas por Bittencourt são facilmente compreendidas. Talvez, seja por isso que ele tenha tão vasta produção e suas obras estejam presentes em instituições e coleções particulares em vários países. Para o jornalista e crítico de arte Oscar D"Ambrósio, o trabalho produzido pelo artista tem o poder de levar à reflexão a partir de imagens de um amplo apelo emocional.
"Isso não deixa de ser curioso, pois o trabalho com sucata e aço poderia num primeiro momento ser considerado frio e impessoal", avalia." Nas primeiras experiências com o aço inoxidável Bittencourt empregou-o em conjunto com outros metais. Ele recorda que, nessa época, em Mogi das Cruzes, praticamente não havia profissionais que soubessem soldar o aço inoxidável. Ainda hoje, segundo ele, é difícil encontrar especialistas no material. "Claro que se você procurar numa grande indústria, eles estão lá, mas essa não é uma condição que sempre se apresente a um artista", salienta. Por isso, foi experimentando que ele descobriu, por exemplo, que ao soldar inox com ferro, a peça oxidava.
"Descobri isso na paulada, no dia-a-dia", relata. Hoje, ele afirma, várias pessoas o procuram para saber quais os procedimentos que ele adota para limpar o inox - é sempre bom lembrar que Bittencourt usa em suas obras apenas sucata e muitas vezes precisa tratá-la antes de utilizá-la.
OBS: O monumento em homenagem a São José, obra de Lúcio Bittencourt, está em Ribeirão Pires. A peça de 10 metros de altura utiliza canos e chapas.
Assim como Bittencourt, a escultora Dirce Betty utiliza predominantemente em suas composições as sobras industriais do inox. A escultora, que iniciou sua carreira como restauradora no início da década de 1970, começou a desenvolver trabalhos em metal por volta de 1985. Curiosamente, seu primeiro trabalho desse tipo foi desenvolvido com o aço inoxidável.
Desde suas primeiras experiências com o inox, tornou- se uma entusiasta do material. "Naquela época havia um depósito onde eu passava tardes e tardes escolhendo as sobras para meus trabalhos. E, de lá, já saía com algumas idéias formuladas", recorda. Dirce explica que, diferente de esculpir em outros materiais, com o aço inox desenha-se, recorta-se, solda-se e o trabalho está concluído. "É a escultura direta, do início ao fim e isso é muito interessante", avalia.
Ela considera-se uma apaixonada pelo aço inoxidável e cita como uma das qualidades do metal nas artes plásticas a capacidade de ele transmitir conceitos de contemporaneidade. Em suas criações, a escultora trabalha basicamente com duas operações: cortes e soldas. Segundo ela, a soldagem é relativamente fácil. "Prefiro soldar o aço inox ao ferro", declara com a segurança de quem cursou o Senai onde aprendeu a utilizar soldas do tipo TIG e MIG.
Nas mais de duas décadas que mantém relação com o inox, Dirce estima ter produzido cerca de duzentas peças. Para o corte, costuma recorrer a uma empresa que realiza a operação por meio de plasma, mas ela mesma procede à soldagem, processo que, por vezes, participa conceitualmente da peça. Quando necessário, o polimento é realizado fora. Para quem pretenda ingressar nesse campo, ela recomenda que faça um curso de soldagem em inox.
"O artista pode até dispensar esse aprendizado se considerar que uma caldeiraria pode realizar esse trabalho, mas o interessante é você mesmo manipular", supõe. Ela recomenda também que o interessado procure conhecer os diferentes tipos de inox. "Trabalho com o 304 em praticamente todas as minhas obras, porque o 316 tem custo mais caro e, do ponto de vista artístico, o efeito é o mesmo", conclui.
Rubens Castro não é um artista convencional. Administrador de empresas por formação, interessou-se por um assunto denominado teoria do caos ao ler uma obra de ficção. A partir de pesquisas sobre a citada teoria, deparou-se com uma especialidade da matemática chamada geometria fractal.
Foi com base nessa geometria que o cientista polonês Benoit Mandelbrot desenvolveu programas que permitem criar imagens a partir de fórmulas matemáticas. Os trabalhos elaborados por Castro - tecnicamente denominados arte digital - são desenvolvidos em computador a partir da aplicação e variação desse tipo de fórmulas.
Há dez anos, Castro pesquisa o assunto e há três deu forma física às suas primeiras criações. Ano passado realizou a primeira exposição individual chamada Ecológico, no Espaço Cultural do Banco Central do Brasil, em São Paulo. Na realidade, o trabalho de Castro é inicialmente virtual. "Porém, eu tinha que imprimi-lo de alguma forma", explica.
Experimentos não tão satisfatórios com papéis especiais, vinil transparente e vidro levaram-no a testar o inox polido na função. "O aço polido cobre eventuais falhas de impressão do plotter que o vidro evidencia", ele notou. O resultado agradou tanto que motivou o convite para realizar a exposição.
Castro conta que, quando procurou a empresa para realizar a impressão em inox, descobriu que nem o produtor do equipamento tinha certeza de que a operação seria possível. "Entrei em contato com o fabricante do plotter e eles não haviam feito qualquer tipo de teste de impressão no aço", recorda.
O resultado mostrou-se interessante para o artista, mas também para a empresa de impressão - segundo depoimento de Castro, a empresa está realizando impressão em chapas de inox para comunicação visual e fachadas.
O trabalho de Castro prevê a impressão em chapas de aço inox do tipo 304 (por recomendação do Núcleo Inox), utilizando tinta com filtro ultravioleta condição que, eventualmente, permite que a obra possa ficar exposta ao sol sem degradar.
Como uma das virtudes do inox em artes plásticas, Castro cita o aspecto de nobreza que é inerente ao material. "Isso, aliado à impressão com a qualidade que consegui, dá um resultado muito bom", opina. Das cerca de três mil obras que possui em meio digital, Castro já imprimiu quarenta em chapas de inox. Um de seus próximos trabalhos será o de arte aplicada. Ele planeja desenvolver objetos utilitários em aço inox utilizando os mesmos recursos de impressão. "Vou trabalhar com chapas planas, imprimir nelas e depois conformá-las para que virem objetos de utilidade", antecipa.
Revista Inox - Edição Maio/Agosto 2006 - Núcleo Inox