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Casa Cor 2003: Entrevista com o Arquiteto Siegbert Zanettini

arquiteto-zanettini1Portal Metálica – Quais foram os motivos que o levaram a aceitar fazer parte da Casa Cor 2003?

Arq. Zanettini – Fui convidado a participar do evento e, apesar de não ser exatamente a minha área de atuação que é a arquitetura no sentido pleno, posso citar alguns motivos que me levaram a aceitar. O primeiro foi o local escolhido, um edifico histórico, tombado, que já foi um dos melhores hospitais da cidade de São Paulo, outro motivo seria minha relação afetiva com o local, dois dos meus filhos nasceram na maternidade, um dos prédios utilizados para a construção dos ambientes.

PM – Sua intervenção é o ponto inicial do evento, quais são as características marcantes do projeto?

Arq. Zanettini - A minha instalação foi feita na área externa, na entrada ao prédio, dividindo o espaço em três áreas. A primeira seria o portal de entrada, algo que realmente marcasse a entrada, o segundo um corredor que encaminhasse as pessoas para a bilheteria e o terceiro um átrium que marcasse a entrada da recepção. O projeto teria estes três segmentos.

No setor da portaria eu quis dar uma transparência na cobertura, em função da existência de duas grandes árvores que cobrem a área e em função da possível aglomeração de pessoas, além de tornar este espaço em um ponto de encontro, pois já estão em um ambiente da Casa Cor, porém ainda não passaram pela bilheteria. Levando em conta a presença das árvores achei que deveria abrir o teto de maneira que elas se incorporassem na composição. A idéia principal foi criar um espaço que se integrasse ao existente.

PM – Por ser um edifício antigo, o que foi feito para haver esta integração?

Arq. Zanettini – Exatamente por ser um edifício antigo não houve a intenção de reproduzir um edifício antigo e nem formas antigas, o projeto foi colocado como contraponto, uma dissonância entre o edifício antigo e uma arquitetura contemporânea. Minha idéia sempre foi trabalhar com o contraste, com o contraponto e não com a consonância, mas sempre trabalhar com respeito ao espaço interno, com a circulação clara, com a funcionalidade que deve ter o espaço. A antiga portaria estava totalmente deteriorada, inclusive em desacordo com o edifício (era um telheiro de eternit que não existia no projeto original), assim criei novos portões, uma cabine onde fica a guarita que controla o processo de entrada, um acesso para pedestres e um acesso para veículos. Para que as pessoas não tivessem problemas em dias de chuva, a cobertura se estende sobre estes acessos, protegendo os visitantes até a entrada do edifício.

A rampa existente foi mantida com uma nova leitura e foi acrescentado um grande mural de pastilhas de vidro. Para este painel elaborei um desenho artístico que caracteriza o caminho de passagem criando uma obra de arte.

Depois de circular pelo corredor o visitante chega a outro painel feito com o mesmo material do primeiro, porém este contém o logo da Casa Cor, exatamente para indicar a entrada da bilheteria. Não poderia ter feito toda a cobertura com transparência pois o visitante não poderia ficar o tempo todo exposto a luz solar. A intenção foi marcar dois pontos de luz, um na chegada e um outro na entrada no edifício que acabou ficando bastante iluminada e inevitavelmente você é conduzido a entrar no edifício.

PM – O que o levou a decidir pelo aço como o material certo para executar este projeto?

Arq. Zanettini - A intenção fundamental foi a de não montar um cenário, e sim fazer realmente arquitetura com vinculações com o contexto construído, vinculações com o espaço interno do prédio, e com uma postura conceitual, colocando uma construção que pudesse ser montada e desmontada com facilidade, para atender à transitoriedade do espaço que foi oferecido, que será usado durante certo tempo e depois de terminado o evento voltará ao seu edtado original, portanto o projeto foi baseado na idéia de oferecer a visão de uma tecnologia limpa que construísse uma obra que não deixaria resíduos.

Por isso todo o projeto foi elaborado com estruturas de aço sem vínculos com o edifício, ou seja , possui fundação, estrutura independente, e contraventada por si própria, uma estrutura totalmente metálica montada e parafusada no local, criando uma alternância entre as áreas translúcidas (treliças horizontais cobertas com policarbonato) e a central opaca com forro de gesso. Para o piso fizemos um fulget, que foi sobreposto sob uma base de concreto, sobre um plástico que agora vai ser tirado, caracterizando ainda mais a tecnologia limpa.

O ambiente foi planejado respondendo a algumas funções básicas, como a de receber bem o público, de protegê-lo e de encaminhá-lo à bilheteria. A arquitetura tem essa flexibilidade, usar um espaço existente e com características próprias e aumentar ainda mais a sua imagem, modificar respeitando-a, fazendo uma releitura mais moderna. Na minha opinião, o desenho feito é exatamente isso utilizando a tecnologia limpa, basicamente de base de produção industrializada. O edifício tem que ser extremamente ágil, dinâmico e não paralítico. Nesta obra foram utilizadas 15 toneladas de aço.

PM – Uma obra com esta dimensão costuma ter problemas operacionais? 

Arq. Zanettini - Não, porque normalmente estes tipos de obra são montados com guindaste, eu sou um dos pioneiros no Brasil da arquitetura metálica, costumo fazer uma montagem como esta em três dias, mas aqui demoramos quase um mês, pois tinha que levar peça por peça em carretilha, a direção não permitiu a entrada de nenhum equipamento.

Fora isso, o espaço era passagem natural e o único acesso possível para os mais de 100 stands que estavam sendo montados, até a manhã da feira tinha operários e materiais passando. A obra em si foi simples, cumpriu o seu papel com uma pequena desvantagem ao restante da mostra, como está localizada antes da bilheteria, os visitantes passavam por ela entendendo que a mostra só começava depois de fazer a inscrição, e muita gente achou que não era um espaço do próprio evento, apenas uma cobertura para cobrir a passagem.

PM – Os murais só podem ser visualizados após a entrada do visitante no corredor central. Isso foi intencional?

Arq. Zanettini – Pelo contrário, os painéis eram para ser vistos logo que o visitante chegasse na Casa Cor, ainda dentro do carro, pois todos os espaços estariam integrados, ou seja o jardim central onde tem o mini golf, o espaço de entrada em frente a capela, o espaço a esquerda onde penetra o automóvel e o espaço intermediário eram todos coligados, e a estrutura ficava totalmente solta nesse projeto, o que ofereceria uma visão tridimensional muito mais ampla, mas houve um equívoco na localização do projeto ao lado, e equivocadamente foi permitida a instalação de um ambiente que fechou esse espaço lateral com painéis altos de treliças.

Estes painéis esconderam a igreja, criando fundos de painel para todos os outros espaços, e ainda que aberto para o meu ambiente cortou a livre visão da Casa Cor. A intervenção que o arquiteto tem que fazer é uma intervenção clara, integrada com os problemas de paisagismo, arquitetura de interiores, estrutura externa e de relação do novo com o antigo.

Normalmente a Casa Cor ignora o estilo do local, revestindo-o de formas totalmente diferentes, eu acho que isso é uma falha conceitual. Os espaços não podem ser construídos a revelia, teriam que ser uma continuidade atual de todo o pensamento de um espaço definido, senão cria-se um conflito, uma incoerência, eu acho que isso é de responsabilidade da direção da Casa Cor no sentido em que não deveria permitir-se a liberdade total dessas soluções, deveria existir condicionantes para atender claramente certas questões que mantivessem e qualificassem aquele espaço existente.

PM – Como foi a experiência de participar pela primeira vez da Casa Cor?

Arq. Zanettini - Foi uma experiência interessante, nunca havia participado. E gostaria de participar novamente, mas com alguns critérios claros. Lá existem projetos interessantes, corretamente colocados, com propostas interessantes e bem resolvidas. O homem é o principal objeto da arquitetura e as necessidades dele tem que ser respondidas de uma forma clara, a utilização cada vez mais de um movimento sustentável em arquitetura, uma relação correta com o meio ambiente, com a utilização da luz natural sendo que ela é um elemento que caracteriza o contemporâneo, se você não está atendendo isso você está fora da realidade em relação ao desenvolvimento, e a mensagem que você está passando é uma mensagem incorreta.

Se a Casa Cor for analisada como uma exposição para mostrar ao público as tendências da arquitetura de hoje em dia é valido, ainda que seja uma casca, porque nem tudo vai ser real, já que na realidade estamos falando de stands montados para um evento, mas se fosse respeitado o entorno, o ambiente físico que foi aproveitado, acredito que teria mais validade, e sem dúvida não houve nenhuma oportunidade tão grande de se fazer isso como neste momento, neste caso em particular em que se contou com um espaço tão marcante pela sua história e tradição como é o Hospital Matarazzo.

O Projeto em imagens

(clique nas imagens para ampliá-las)

 

ModeloAntiga Portaria

Montagem ds PortariaNova Portaria

Fachada LateralMural de Entrada

Corredor de AcessoEntrada

Montagem do AtriumAtrium Concluido

Vista Posterior do Atrium

 

Descritivo da Obra

A estrutura fabricada e montada pela Metálica Engenharia, sob direção do Eng. Paulo Philippe Giraudeau, consumiu 15tn de perfis laminados fornecidos pela Açominas, e ocupa uma área de 240,00m².
Por não poder utilizar guindaste para a montagem, todas as peças tiveram que ser içadas manualmente, dificultando o trabalho e aumentando o tempo de montagem de 2 para 10 dias.

Com novos portões e a guarita já caracterizando o evento, a cobertura em forma de treliça horizontal, recebeu placas de policarbonato alveolar translúcido nas áreas de acesso e atrium e telhas metálicas sobre o corredor central.

Montado sobre um quadro de perfis de aço e painéis dry wall, o mural assinado pelo arquiteto, foi executado em pastilhas de vidro transparentes de várias cores, valorizando a lateral do acesso.

(clique nas imagens para ampliá-las)

Planta e Corte da Estrutura Metálica

Detalhe do setor da Portaria

Ficha Técnica:

Projeto de Arquitetura: Arquiteto Siegbert Zanettini 

Parceiros:
Metálica Estrutura e Planejamento: fabricante e montador da estrutura
Projeto Alpha Engenharia: cálculo estrutural
ST&T Engenharia: projeto instalações elétricas
Enplatec: projeto das fundações
Lock Engenharia:: gerenciamento e responsável pela obra

Materiais:
• perfis de aço laminado Açominas • painéis artísticos Vidrotil • chapas de policarbonato Day Brasil • Instalação das chapas de policarbonato Venturini Coberturas • chapas de gesso acartonado Placo do Brasil • forro e painéis em gesso acartonado Brasfor • telhas metálicas Perfilor • pisos Fultec • luminárias Omega • serralheria Artística Trigualter • calhas e rufos Dânica • mobiliário Ottagono • tintas Suvinil • ferragens Metalferco • parafusos da estrutura metálica Friedberg

 

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