Atualmente nos tornamos exigentes quanto à qualidade de vida e respeito aos nossos direitos. Concernente aos ambientes onde trabalhamos, divertimo-nos, compramos, estudamos, enfim, onde passamos muitas horas de nossas vidas, não há como desvincular de nossas exigências o conforto térmico e a qualidade do ar que respiramos.

Quanto ao conforto térmico, está comprovado através de estudos e na prática do dia a dia que as pessoas, sentindo-se confortáveis, produzem mais, sentem-se mais dispostas e ficam mais propensas a consumirem pois preferem permanecer num ambiente agradável. Não é à toa que empresas, escolas e shoppings centers investem em instalações de ar condicionado, sabendo que o retorno do investimento é garantido.

A qualidade do ar que respiramos nos ambientes passou a ser manchete no Brasil após a morte do ministro Sérgio Mota decorrente de complicações respiratórias, cuja causa suspeitou-se ser a má conservação de um sistema de ar condicionado com o qual o ministro convivia.

Casos

Outros fatos conhecidos e publicamente notórios ocorreram nos EUA: morte de 29 pessoas em um hotel da Filadélfia devido a um surto de pneumonia, e caso similar em outro hotel no estado de Michigan, identificando-se como causa uma bactéria – a mesma que possivelmente provocou a morte de Sérgio Mota – que pode se desenvolver em sistemas de ar condicionado quando não são observados os cuidados mínimos de manutenção e limpeza.

Por ocasião da crise energética dos anos 70, decidiu-se construir prédios estanques para evitar infiltrações e reduzir as vazões de ar exterior necessário para higienização. Como conseqüência, nos anos 80 surgiu a Síndrome dos Edifícios Doentes e de doenças relacionadas com edifícios, cujos sintomas são irritação nos olhos, dor de cabeça, problemas respiratórios, ressecamento das mucosas, irritação de pele, congestão nasal, garganta irritada, náuseas, sonolência, fadiga exagerada e até problemas de concentração no trabalho.

A partir desses episódios a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers) estabeleceu novos valores para taxas de renovação de ar passando de 5,0 para 15,0 cfm/pessoa.

Segundo essa mesma instituição, a sobrevivência de vírus e bactérias é minimizada em umidades relativas entre 40 e 70%, não haverá crescimento de fungos em umidades abaixo de 60% e mofos e fungos brancos são particularmente problemáticos em umidades acima de 60%.

Fungos, mofos e saúde

No Brasil, o então ministro José Serra determinou estudos relacionados aos cuidados com as instalações de ar condicionado que resultaram na Portaria 3523 do Ministério da Saúde e na Resolução 176 que a regulamentou. A Portaria 3523 estabelece como taxa mínima de renovação de ar 27 m3/h por pessoa, com algumas exceções citadas na Resolução l76.

Associado aos problemas de saúde acima descritos, ressalta-se o problema econômico com o gasto de energia e o ambiental, já que qualquer forma de geração de energia disponibilizada pelas concessionárias sempre está associada à danos ao meio ambiente, seja a geração a partir da energia hidráulica, térmica ou nuclear.

Observe-se, ainda, que fungos e mofos são também prejudiciais à pintura, papéis de parede, carpetes, quadros, livros, CD´s, resultando também nesse aspecto prejuízos econômicos.

Pergunta-se então: Será que para atender nossa exigência de conforto ambiental necessariamente estamos prejudicando nossa saúde, gerando gastos excessivos e agredindo o meio ambiente? A resposta será positiva sempre que associada à irresponsabilidade muitas vezes observada desde a concepção da obra até sua utilização final.

Através de diversas maneiras podemos contribuir para que tais problemas sejam eliminados ou pelo menos minimizados. Apenas para citar alguns, destacamos:

 

Na arquitetura, dentre outros fatores pode-se recorrer à:

  • Paredes mais robustas aproveitando-se a inércia térmica dos materiais de construção.
  • Áreas envidraçadas somente onde possibilitem a utilização da luz natural. É necessário acabar com a idéia de belos prédios totalmente envidraçados, porém mesmo assim necessitando de luz artificial e conseqüentemente sistemas de ar condicionado maiores.
  • Onde possível, dimensionar ambientes com profundidade máxima de 3,5 metros, para a qual a iluminação natural ainda é satisfatória. A partir dessa profundidade, torna-se necessária iluminação artificial.
  • Utilizar lâmpadas que produzam maior iluminação por kW consumido.
  • Utilizar protetores externos – brises nas fachadas mais expostas à radiação solar. Protetores internos são
  • benéficos no aspecto de impedir a radiação direta sobre o usuário, porém boa parte do calor permanece no ambiente.
  • Sempre que possível, privilegiar a ventilação natural.

Nos projetos de ar condicionado observar as normas pertinentes e adotar soluções tecnológicas que minimizam o consumo de energia, destacando-se:

  • Sistema de ar condicionado central com utilização de caixas VAV (volume variável de acordo com a variação da carga térmica) e não de VAC ( volume constante ).
  • Controles que incorporem variadores de freqüência atuando sobre motores de bombas e ventiladores. Desse modo o consumo será proporcional à carga térmica, que é variável ao longo do dia e dos meses.
  • Análise da relação tonelada de refrigeração / consumo de energia elétrica na escolha dos equipamentos, principalmente compressores das centrais de água gelada.
  • Atentar ao fator de potência da instalação, corrigindo com bancos de capacitores, se necessário.
  • Utilizar tecnologias de termo-acumulação e co-geração, onde aplicável.
  • Projetar sistemas que garantam condições de temperatura, velocidade do ar e umidade relativa que satisfaçam o conforto térmico e não permitam proliferação de fungos, mofos, vírus e bactérias.
  • Quanto à utilização dos ambientes e dos sistemas de ar condicionado:
  • Evitar desperdícios de energia mantendo iluminação artificial desligada sempre que possível, mantendo
  • portas e janelas fechadas (desde que haja a necessária renovação de ar cuja tomada deve ter filtros de ar) e
  • utilizar-se de persianas ou cortinas.
  • Manter em condições normais a operação dos sistemas de ar condicionado, o que proporciona economia de energia e higienização dos ambientes. Aliás, os proprietários de sistemas de climatização devem conhecer a legislação (Portaria 3523 e Portaria 176 – disponíveis no site www.saude.gov.br) e manter os sistemas documentados e dentro das normas para evitar ações de indenizações por parte dos empregados e usuários.
  • Observe-se que fungos e mofos são também prejudiciais à pintura, papéis de parede, carpetes, quadros,
  • livros.

Osvaldo Guilen Lopes é engenheiro mecânico pela UNESP, mestre em engenharia pela USP, sócio-fundador e conselheiro da AEASV, sócio-diretor da CLIMENGE, professor titular de Termodinâmica e de Controle Térmico de Ambientes na UNISANTA.

Fonte: Jornal e Site da AEASV