"No século XIX, os ingleses dominaram os serviços públicos no Brasil. Quase sempre instalavam esses serviços às próprias expensas. Adquiriam a concessão da exploração por um tempo determinado, suficiente para ressarcir as despesas com o investimento, os custos de manutenção, os honorários e os lucros. É possível, portanto, que eles procurassem maximizar o investimento inicial, visando uma concessão mais longa de exploração dos serviços. É provável também que alguns itens desse investimento inicial não tivessem de ser necessariamente importados, mesmo considerando que muitos produtos industriais para construção civil aqui chegavam com melhor qualidade e melhor preço do que os similares brasileiros.
"Um serviço, instalado no Brasil e monopolizado por firmas inglesas, foram as ferrovias, monopólio esse somente rompido no fim do século XIX, pelo concurso dos belgas, mesmo assim para pequenos ramais.
"A partir da metade do século, foram construídas várias estradas de ferro no país, para servir essencialmente aos propósitos da exportação de produtos agrícolas. As linhas construídas não eram locadas com os objetivos de facilitar os transportes de pessoas e mercadorias, servir a rede urbana existente e promover o seu desenvolvimento. Visavam, primordialmente, o escoamento da produção local para os portos de exportação. De qualquer forma, desempenharam importante papel no desenvolvimento local. Foi o caso das estradas de ferro que transportaram café, açúcar e algodão para os portos de Santos, Rio de Janeiro, Recife, etc.
"A arquitetura ferroviária - que tantas esperanças despertara na Europa entre os poucos críticos de arte de vanguarda, também se manifestou aqui, repetindo, sem grandes variações e com raras exceções, os modelos europeus.
"As poucas exceções se constituíram nas estações em ferro corrugado na Cantagalo Railway, no Estado do Rio de Janeiro.(...) Outra estação que foge à regra geral é a de Bananal em São Paulo.
"Bananal, pequena cidade (...) próxima à fronteira com o Estado do Rio de Janeiro, notabilizou-se no século passado pela produção do café. Apesar da sua importância para a economia do Estado, a cidade ficou à margem da linha ferroviária Rio-São Paulo. Os fazendeiros de café decidiram, então, mandar construir uma estrada de ferro ligando a cidade a Barra Mansa, local onde passava a estrada Rio-São Paulo, e daí aos portos por onde escoariam a sua produção.
"Constituiu-se portanto, em 1880, a Companhia Estrada de Ferro Bananal, que contratou as obras com José Leite Figueiredo. A abolição da escravatura não só interrompeu as obras como também liquidou a empresa.(...) Coube aos engenheiros José Caetano Horta Barbosa e Machado da Costa concluir as obras iniciadas em 1880. Assim, em outubro de 1888, chegou a Bananal a estação ferroviária que ali seria montada.
"De fato, esta é uma estação singular no Brasil e, talvez, no mundo. Ainda não foi possível localizar outra edificação com essa mesma função e com a mesma forma.
"Em 1918 esse ramal ferroviário passou a pertencer à União. Mais tarde foi desativado. Hoje, não existem sequer os trilhos. A 'elegantíssima' estação deu lugar a um depósito de uma empresa pública. Isto enquanto não é restaurada, propósito que vem sendo anunciado já há algum tempo, mas que não se efetiva.
"(...) A mais sensacional das estações é, contudo, a da Luz, no centro da cidade de São Paulo. Com algumas modificações, feitas após um incêndio, a estação é, fundamentalmente, a mesma que se terminou de construir em 1901 e que, imponentemente, marcava a paisagem da capital paulista.
"(...) Dentre os edifícios pré-fabricados em ferro, importados pelo Brasil, nenhum tipo foi tão útil e tão disseminado quanto os mercados públicos.
"O Mercado de São José, no Recife, sem dúvida, é o mais antigo mercado de ferro existente no Brasil e, provavelmente, o pioneiro. A sua montagem final foi concluída em 1875 e está situado no bairro de São José. (...) O mercado jamais deixou de funcionar, desde o dia de sua inauguração.
"O Mercado de Peixe, em Belém, por muito tempo conhecido como o Mercado de Ferro, foi inaugurado em 1º de dezembro de 1901 (...). Não se conseguiu precisar a origem da estrutura metálica do edifício, embora se possa asseverar, dado às circunstâncias regionais, que tenha sido importada.
"O mercado continua em funcionamento e, com suas torres bizarras, é presença obrigatória nos cartões-postais da cidade de Belém.
"O Mercado Municipal do Rio de Janeiro foi o maior de todos os edifícios de ferro montados no Brasil, de origem européia.(...) Na década de 1950, o mercado municipal foi destruído para a construção de um viaduto, parte de uma das novas avenidas construídas para desafogar o tráfego de veículos automotores.
"(...) Passados trinta e três anos do estrondoso sucesso do Palácio de Cristal de Londres, o Brasil também inaugurou o seu. Certamente, a denominação que o edifício recebeu aqui se deve à similaridade do material empregado nos dois pavilhões e aos efeitos plásticos conseguidos, mantidas as devidas proporções.
"O edifício existe hoje, no mesmo lugar onde foi primitivamente montado: numa praça situada na confluência dos rios Piabanha e Quitandinha, na cidade de Petrópolis.(...) Restaurado recentemente, abriga exposições temporárias de arte, cumprindo objetivos propostos há um século. É todo em ferro e vidro."(32)
É no Brasil que os programas mais ambiciosos foram elaborados para o desenvolvimento das indústrias siderúrgicas. O Brasil conta com a maior população de qualquer país latino americano bem como com o maior consumo de produtos de aço. Possui, além disso, as mais altas jazidas de minério de alto teor do continente, e também generosa parcela dos escassos recursos carboníferos da América Latina. Antes da Segunda Grande Guerra, existiam várias pequenas empresas siderúrgicas, com uma produção conjunta inferior a 100.000 toneladas de aço. Achava-se localizada perto das jazidas de minério de Itabira, sendo que algumas das usinas utilizavam carvão vegetal como combustível.
Em 1940, constitui-se a CSN com o objetivo de construir-se uma grande usina moderna integrada. "O país importava praticamente todo o aço de que necessitava, tanto que as instalações industriais da própria CSN foram construídas com estruturas fornecidas por empresas estrangeiras. (...) Não é de estranhar que a falta de tradição no uso das estruturas metálicas tenha levado a CSN, em 1950, a encontrar dificuldades na comercialização dos produtos de sua linha de perfis pesados.
"A entrada em operação, nos anos sessenta, da Cosipa - Companhia Siderúrgica Paulista - e da Usiminas - Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais - favoreceu uma notável expansão da oferta de produtos laminados planos no mercado.
"Na década seguinte a indústria siderúrgica se consolidaria como indústria de base, diminuindo consideravelmente as importações de produtos siderúrgicos.
"Com a ampliação e a modernização das nossas usinas, processou-se um efeito multiplicador que permitiu alcançar elevados índices de produtividade e de qualidade. Passamos da tradicional condição de importadores para a de exportadores de aço."(33)
1. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 21-5.
2. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 27-30
3. RONAN, COLIN A., História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. R.J.: Jorge Zahar Editor, v.I, 1987, p. 53-5.
4. RONAN, COLIN A., História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. R.J.: Jorge Zahar Editor, v.I, 1987, p.61.
5. DE CAMP, SPRAGUE, A História Secreta e Curiosa das Grandes Invenções....: Lidador, p. 178.
6. Estas máquinas simples eram: a roda e o seu eixo, a alavanca, a roldana, a cunha, o parafuso sem fim (parafuso engrenando uma roda dentada). Pelas suas combinações, essas máquinas geravam todos os aparelhos de levantamento (guinchos) conhecidos nessa época.(DUCASSÉ)
7. Entre essas tentativas mencionemos as catapultas dos engenheiros de Dinis o Antigo, que defenderam Siracusa em 397 a.C. contra a frota cartaginesa: máquinas enormes derivadas do arco da flecha, por uma série de estudos empíricos,(...) cujos resultados se exprimem em fórmulas numéricas (...). Também Ctesíbolo, discípulo de Arquimedes, inventou uma bomba hidráulica e desenhou catapultas operadas por molas de bronze e uma a ar comprimido.(DUCASSÉ)
8. O parafuso, a porca e as suas principais aplicações estão tradicionalmente ligadas aos nomes de Arquitas e de Arquimedes. Mas dá-se com essa invenção o mesmo que se dá com muitas outras: o uso do parafuso, originalmente um eixo cavado com um veio em espiral, liga-se a experiências muito antigas. O parafuso hidráulico, chamado "de Arquimedes", parece antes remontar a certos aparelhos usados pelos egípcios para fazer subir a água.(DUCASSÉ)
9. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 36-46.
10. Veja-se a frase de Aristóteles: "Quando a lançadeira andar sozinha, os escravos serão inúteis". Aquilo que era, no pensamento do filósofo, uma demonstração irônica da necessidade da escravatura, transformou-se numa involuntária profecia! (DUCASSÉ)
11. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 50-1.
12. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 63.
13. RONAN, COLIN A., História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. R.J.: Jorge Zahar Editor, v.II , 1987, p. 59-76.
14. RONAN, COLIN A., História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. R.J.: Jorge Zahar Editor, v.II , 1987, p. 126-7
15. POUNDS, NORMAN J. G., Geografia do ferro e do aço. R.J.: Zahar Editores, 1966, p. 12-3
16. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 72-5
17. POUNDS, NORMAN J. G., Geografia do ferro e do aço. R.J.: Zahar Editores, 1966, p.14-5
18. DUCASSÉ, PIERRE, História das técnicas. Lisboa: Publicações Europa-América,1962, p. 77-87.
19. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p.13-4.
20. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p. 15-6.
21. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p. 16-8.
22. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p.13-23
23. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p.25.
24. PEVSNER, NIKOLAUS, Origens da arquitetura moderna e do design. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 35.
25. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p. 46.
26. PEVSNER, NIKOLAUS, Origens da arquitetura moderna e do design. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 38.
27. PEVSNER, NIKOLAUS, Origens da arquitetura moderna e do design. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 149.
28. VARGAS, MILTON, História da técnica e da tecnologia no Brasil. S.P.: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994, p.108-9.
29. HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE DE, História Geral da Civilização Brasileira. R.J.: Difel, v.I, 1977, p. 253.
30. VARGAS, MILTON, História da técnica e da tecnologia no Brasil. S.P.: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994, p.102-112
31. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p. 21-83.
32. SILVA, GERALDO GOMES DA, Arquitetura do ferro no Brasil. S.P.: Nobel, 1986, p. 115-228
33. DIAS, LUÍS ANDRADE DE MATTOS, Edificações de aço no Brasil. S.P.: Zigurate Editora, 1993, p. 9-11
Thomaz dos Mares Guia Braga