Entrevista com André Zinn: Presidente do INDA

O Portal Metálica entrevista André Zinn, Presidente do INDA:
O Portal Metálica, presente no 16° Congresso dos Distribuidores de Aço, teve a oportunidade de presenciar o sucesso do evento, que contou com a participação maciça de executivos do setor siderúrgico. O tema deste ano - Soluções para o aumento de Consumo - destacou o momento delicado em que vive a siderurgia no mundo e, especialmente, no Brasil, assim como a necessidade de discutir formas de aumentar a demanda de aço no mercado interno, e a participação dos distribuidores na cadeia da siderurgia nacional. Complementando a divulgação dos conceitos e trabalhos realizados durante o Congresso, o Portal entrevistou o Sr André Zinn, Presidente do Inda, que nos falou sobre as atividades do Instituto e os esforços na divulgação e no incentivo a criatividade no uso do aço.

Portal Metálica - O que o Sr. achou do sucesso do 16° Congresso do Inda, e a que atribui o comparecimento maciço dos representantes do setor que lotaram o auditório?

André Zinn - Primeiramente fiquei muito contente com o comparecimento dos associados e convidados. Considero que o Congresso teve grande repercussão por causa do alto nível dos palestrantes, pessoas do mais alto gabarito. Carlos Gastaldoni do Ministério da Indústria e Comércio, Rinaldo Soares, Presidente da Usiminas, o Sr Jorge Gerdau, o Sr. Pedro Malan e o jornalista Heródoto Barbeiro são, sem exceção, personagens relevantes do cenário econômico e jornalístico brasileiro.

Por outro lado, o formato do Congresso foi muito atrativo. A noite de abertura foi ideal para fazer contatos, interagir e conversar, fomentando o encontro que permite trocar idéias e conceitos: tecnologia não se passa apenas em cadernos técnicos, se passa também através da conversa. E o segundo dia pela manhã, deu oportunidade para as pessoas conhecerem as opiniões de grande conteúdo e profundidade que os palestrantes tinham para oferecer. Este formato deu tempo para participar e também para trabalhar, especialmente para as pessoas que vinham de fora, que tiveram a oportunidade de aproveitar para fazer visitas a clientes e contatos de negócios.

PM - Considera que os distribuidores de aço formam uma classe unida?

AZ - Não, os distribuidores de aço não falam em uníssono porque existem muitas diferenças entre eles.

São diferentes em relação aos produtos que cada um vende: existem distribuidores de aços longos e de aços planos, com fornecedores diferentes. São também diferentes em relação às sociedades que formam - que podem ser coligadas ou não às usinas - assim como em sua estrutura empresarial se dividem em centros de logística e centros de serviços, o que dá uma natureza de comportamento diferenciado.

O que é comum a todos os distribuidores de aço são os problemas. Nossos problemas são os mesmos para todos.

PM - O que está sendo pensado para resolver esses problemas em comum?

AZ - Antes de tudo, conhecermos melhor uns aos outros. Quanto maior o contato entre empresas, maior será a possibilidade - através do reconhecimento dos problemas comuns - de achar as soluções.

O INDA tem vários grupos de estudo que estão se desenvolvendo cada vez mais, entre outros, grupos de estudo dos problemas de crédito, de logística, de mercado, de recursos humanos, e de assuntos de natureza jurídica. No momento está sendo criando um novo grupo para estudo dos problemas de manutenção industrial.

Estes grupos de estudo permitem entrar em contato com os problemas de cada área, compartilhando as soluções possíveis. E todos os distribuidores podem participar das reuniões de discussão, pois a entrada é franca e sem restrições.

PM - O que poderia ser feito para incentivar a união das empresas ligadas ao setor da construção com estruturas metálicas?

AZ - É interesse do INDA assim como de outras instituições ligadas ao setor e das empresas envolvidas, que o aço seja mais usado na construção civil. São interesses comerciais sem dúvida nenhuma, mas são também interesses legítimos, porque o aço é um produto maravilhoso e é evidente que existem vantagens claras no seu uso na construção, principalmente no conceito de construção industrializada.

O que precisamos é divulgar! Mostrar as soluções, os benefícios e as vantagens, porque só através da conscientização e da percepção das qualidades deste material é que seu uso vai se tornar constante.

O engenheiro ou arquiteto que nunca usou estrutura metálica vai optar por usar o método construtivo tradicional, que conhece profundamente. Este profissional só vai trabalhar com estrutura metálica na hora em que lhe for provado que esse método construtivo é bom e economicamente viável, que essa será a melhor solução para seu projeto e para seu cliente e que o fornecedor ou fabricante vai lhe fornecer um produto de qualidade.

Ou seja, tudo passa pela divulgação

PM - No seu parecer, quais as linhas de ação que as entidades de classe deveriam adotar para estimular a criatividade no uso do aço?

AZ - Uma muito clara é a comunicação, através da produção de encontros, convenções, cursos, treinamento para os profissionais.

Outra é o treinamento do corpo de vendas já que muitas vezes o setor de marketing das industrias prepara a comercialização de um determinado produto, mas o corpo de vendas não está suficientemente treinado para responder as questões técnicas, ou não domina os dados de suas aplicações.

Por último, é imperativo valorizar o aço perante o público consumidor e perante os próprios vendedores do aço.

O aço é um produto que tem grande presença no mercado, mas acaba sendo quase transparente, encontramos o aço em todos os lugares: olhamos um cartaz e vemos a publicidade, mas não vemos que sua estrutura é de aço, não notamos o aço nas escadas, nos automóveis, ou mesmo nas construções tradicionais e nem mesmo na armadura do concreto. O aço é muito "transparente", por isso as entidades e instituições devem fazer um trabalho no sentido de mostrar ao mundo o quanto o aço está presente em todos os aspectos de nossa vida.

O aço é um produto extraordinário, extremamente barato e maravilhoso em termos de flexibilidade de uso: tudo pode ser feito com aço.

PM - Existe algum projeto de colaboração e interação com outras Associações como, por exemplo, ABCEM e CBCA, ABECE e IAB?

AZ - Sim, existe a intenção de promover uma aproximação maior com as associações que tem relação com o aço, primeiro para troca de informações: o INDA tem uma base de dados enorme, tem estatísticas muito apuradas e sólidos conhecimentos que podem ser usados por essas instituições para o desenvolvimento dos seus próprios trabalhos. Nós temos muito para oferecer.

Estamos procurando essas instituições, não só as que vendem, como também as que compram aço, como Sindipeças, Abimaq e outras. È interesse do INDA ter uma relação forte e coordenada com essas instituições para trabalhar em conjunto, trocar idéias e conhecimentos.

Com a ABCEM especificamente, existe uma relação muito forte porque somos entidades irmãs. Um exemplo desta relação pôde ser apreciado na recente Construmetal, em que o INDA participou oferecendo seu apoio.

Já o CBCA é um centro de divulgação da tecnologia do aço, esse é seu principal objetivo e seu grande valor: formar idéias e fazer com que os engenheiros e arquitetos conheçam e compreendam os mecanismos da estrutura metálica.

O INDA tem uma visão menos técnica e mais comercial de mercado. É obvio que temos a vontade de colaborar de todas as formas possíveis para que haja um maior desenvolvimento a nível técnico. Mas o papel do INDA é muito voltado para dentro, focado em treinar o corpo de vendas e a área comercial de nossas empresas para que elas possam atender as dúvidas dos profissionais que as procuram.

Com respeito às Instituições de profissionais, como o ABECE e o IAB, diria que é importante para o INDA contar com uma instituição como o CBCA, preparada para resolver as questões técnicas com mais propriedade. O INDA é uma instituição formada eminentemente por empresas comerciais e industriais, com foco no mercado, que indica o CBCA como a instituição com a capacidade e o domínio da tecnologia necessário para atender o profissional que procura o aço para sua obra e tem uma dúvida técnica.

PM - O Sr. mencionou no seu discurso de abertura o conceito de Patrimônio Setorial. Poderia explicar o alcance deste conceito?

AZ - Temos que falar primeiro das "cadeias de valor". Por exemplo, na "cadeia de valor" da fabricação de um automóvel existe a participação de uma infinidade de empresas e pessoas envolvidas. Quando este automóvel é vendido, todas essas pessoas têm seu trabalho remunerado. Se o automóvel não for vendido, ninguém terá seu trabalho remunerado. É tudo ou nada.

O conceito de patrimônio setorial está ligado a este conceito.

No setor siderúrgico, o aço tanto pode ser vendido pelo distribuidor como diretamente pela usina. Independentemente de quem o vendeu, 100% dos lucros auferidos serão reinvestidos no setor. O que é um conceito similar ao das cadeias de valor, ou seja, o patrimônio pertence ao setor e todos usufruem desse patrimônio.

Basicamente a questão é como aumentar o patrimônio do setor como um todo. Isso se chama capital de giro do setor.

O objetivo, o foco deste conceito é valorizar diante do mercado - e principalmente dentro de nosso próprio setor - a figura do distribuidor de aço, que é muito importante no que tange ao capital de giro e no que tange ao financiamento: quando uma empresa resolve fazer uma estrutura metálica, provavelmente quem financiará essa estrutura será o distribuidor.

Como presidente do Instituto dos Distribuidores de Aço, quero e vou valorizar nossa atividade. Esse é nosso principal objetivo.

PM - Como o setor de distribuição de perfis laminados e soldados, está enfrentando a atual conjuntura de elevação de preços e escassez do produto no mercado interno?

AZ - O Brasil é hoje um país que está num processo de grande aquecimento da economia, e esse aquecimento é provocado pelo aumento das exportações. Mundialmente está se comprando mais aço e está se pagando mais caro por ele. Mas não é só o aço que está aumentando de preço, pois outros insumos como cimento, carvão, petróleo, coque, transporte, etc. também estão sofrendo aumentos, assim não pode se dizer que o aço é o vilão da economia.

No mercado interno, o aumento dos preços tem afetado sobremaneira a construção civil como um todo, porque o comprador de produtos de construção ganha em reais e não teve aumentos proporcionais ao aumento do valor dessa matéria-prima no mundo inteiro. Mas a exportação está gerando renda e o superávit vai ser revertido na implantação de novas indústrias, de novos investimentos, inclusive de novas obras. Então o que vai acontecer é que no primeiro momento vamos fazer fábricas novas, para poder atender essa demanda, e depois vamos fazer novas moradias e nesse momento a construção civil vai reagir.

Esse é o modelo exportador: primeiro o dinheiro tem que entrar, e na medida que vai entrando, vai sendo usado na economia interna, e aqui voltamos a falar em patrimônio: o patrimônio nacional vai crescer. E o superávit já esta começando a se transformar em investimentos. O próprio setor siderúrgico está apresentando planos de investimento, fazendo com que toda a economia floresça a partir dali.

PM - Qual a perspectiva de crescimento do mercado interno nos próximos anos?

AZ - Existe uma boa perspectiva, inclusive porque o esforço de exportação tende a gerar um equilíbrio. Existe um provérbio que diz que "as árvores não crescem até o céu". Tem um momento em que os conflitos internos do crescimento impedem que um setor isolado continue florescendo exponencialmente, e nesse momento acontece um re equilíbrio, às vezes no mundo inteiro. Por exemplo, na França, no século 14, houve uma enorme falta de madeira, e então começaram a aparecer tratados de como fazer para aproveitar os tocos e restos de madeira para construir casas, porque não havia matéria prima suficiente. Na história do mundo, ciclos como estes sempre aconteceram.

O que acontece nestes casos é que a oferta de matéria prima aumenta conforme aparece o aumento do preço. Exemplo: existe uma jazida de minério de ferro que não é economicamente viável de ser explorada, no momento em que o preço aumenta, explorar essa jazida passará a ser economicamente interessante. Ou seja, a quantidade de material disponível é proporcional ao preço e à demanda; Se o preço aumenta, a oferta aumenta. Novas jazidas serão descobertas, novos navios serão fabricados para transportar o produto, etc.

O ciclo da economia é isso, é expansão, desorganização, retração, reorganização, nova expansão, etc.

Estamos vivendo hoje um desses ciclos em que as matérias-primas estão raras. No caso do aço especificamente, existe um plano para aumentar a produção, abastecer o mercado interno e ainda continuar a exportar. E esse plano está sendo divulgado em todos os jornais, são 10 bilhões de dólares em curto prazo, o que é uma quantia realmente significativa para ser investida num setor específico!

E, para finalizar, quero agradecer ao Portal Metálica pela oportunidade de divulgar minhas idéias num um espaço que gosto e visito regularmente.

André Zinn é formado pela Fundação Getúlio Vargas em Administração de Empresas. E Presidente da Juresa Industrial de Ferro Ltda. e Presidente do INDA - Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço - para o biênio 2003 / 2005.

Entrevistado por:

Mônica Bernadou - Setembro de 2004

Foto:

INDA

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