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Entrevista com João Filgueiras Lima, Lelé

id3301_leleComo foi seu trabalho para o Minha Casa, Minha Vida?


Fiz uma análise do programa para o caso de Salvador, onde a topografia dificulta muito a implantação de um prédio convencional, conforme este sendo feito. Além do mais, é uma violência terrível retirar uma população sem poder aquisitivo que vive, melhor dizendo, sobrevive, graças ao comércio informal, do local onde mora, mesmo que seja uma favela feia, e coloca-lá a 40 km de distância, onde se consegue um terreno piano para fazer um prédio. É uma violência, porque ela já tem as crianças nas escolas, há toda uma fórmula de vida. Habitação não unicamente o espaço que você habita, são as coisas todas que criam a sua vivencia local, o trabalho que você tem, a escola de seu filho.

A proposta não é tirar as pessoas do local, é refazer, com o apoio de uma fábrica. Estamos propondo uma urbanização com creche, escola, posto de saúde, próximo ao local onde as famílias vivem. Assim não haverá quebra na rotina da vida dessas pessoas, elas continuarão com o trabalho do lado.

De que forma a fábrica trabalharia?

As casas tem de ser bem-feitas, industrializadas. Montaríamos uma miniusina em cada local, para atender a uma demanda de 300 unidades e uma população de 2 a 2,5 mil pessoas. A minifábrica, que pode ser desmontável e transportada para outro local, tem capacidade para fazer 40 apartamentos em 45 dias. As unidades devem ser flexíveis, para que possam crescer de acordo com o programa de necessidade de cada um, No programa atual de Minha Casa, Minha Vida se constrói uma unidade típica de 30 m², 40 m², e todos os membros da família tem de caber ali, sem levar em conta suas necessidades.

Qual é o sistema construtivo?

Um sistema misto de aço com argamassa armada. Todo o sistema é uma espécie de palafita, distribuindo as habitações pelos patamares.

As encostas de Salvador tem uma boa estabilidade, desde que você não tape movimento de terra. É o que eles fazem na favela: enfiam estacas de concreto, as vezes até de madeira, e constroem as casas como se fossem palafitas. Nas encostas eles não fazem movimento de terra, porque são muito íngremes. Em uma encosta com a declividade de Salvador, se cortar ou aterrar, destrói-se a estrutura do terreno.

São construções com ate quatro pavimentos, como as que eles constroem hoje, e ate com uma pequena oficina no quarto nível, pois essa população vive do que produz em casa. A proposta contempla a forma de vida que eles adotam hoje, dando-lhes conforto. O bondinho sobre trilhos, por exemplo, leva os moradores morro acima, evita que eles subam 40 metros feito cabritos.

Quanto tempo levaria para ser construído?

Montei um módulo mínimo de fabrica que permite fazer 40 unidades do tamanho médio, que corresponde a um apartamento de dois quartos, em 45 dias. Essa fábrica pode ser duplicada facilmente. Basta dispor de um terreno um pouco maior, sem acréscimo de equipamentos. Ela custa 220 mil reais, e com os mesmos 220 mil reais você só precisa aumentar o numero de fôrmas. Se você dobrar as fôrmas que custam 40 mil reais, totalizando 260 mil reais, você dobra a produção para 80 unidades. Então, na proposta de construir 300 unidades com uma minifábrica, em seis mesas você monta um tipo de superquadra como as de Brasília.

Quanto custaria?

Atualmente, o programa Minha Casa, Minha Vida é desenvolvido pelas construtoras - o preço inicial era de 46 mil reais para uma habitação de 40 m². Eles já pediram para aumentar para 52 mil reais, e agora estão pedindo para aumentar para 70 mil reais, dizendo que a infraestrutura puxa o preço para cima.

Já o custo para a habitação de 40 m² que estamos propondo, o preço de custo, sem BDI, sem lucro, e de 28 mil reais, e sem infraestrutura. No protótipo de dois apartamentos para Cajazeiras, incluindo uma praça e playground para as crianças, se incluirmos o preço da fábrica e da infraestrutura, as unidades saem por 46 mil reais. Se adotarmos este preço, o valor das 40 unidades seria de 1.840.000 reais. Mas conseguimos diminuir este custo. Vejamos: 40 unidades a 28 mil reais cada, sai 1.120,000 reais. A fábrica custa 220 mil reais, a infraestrutura e a praça, 250 mil reais, totalizando 1.590.000 reais, Sobram 250 mil reais. Há algumas despesas não computadas, mas ainda fica abaixo de 1.840.000 reais. Ou seja: sobra dinheiro para outras construções. Fiz, inclusive, arrimos para criar áreas planas para as crianças brincarem.

A presidenta já aprovou?

Sim, desde janeiro, e está se empenhando ao máximo para a viabilização. Mas há o problema do repasse de verba da Caixa Econômica para o Instituto Habitat, já que se trata de uma instituição sem fins lucrativos. Se fôssemos uma construtora, não haveria problema, tudo poderia ser feito mediante contrato. Não interessa ao Instituto Habitat se transformar em empresa construtora, e sim fazer pesquisa. A sobrevivência de uma construtora baseada no lucro. O Instituto tem como objetivo a pesquisa arquitetônica e a construção, conforme vínhamos fazendo todos esses anos no CTRS.

As pessoas da comunidade poderiam trabalhar para fazer as suas próprias moradias, ou é necessário mão de obra qualificada?

Agente qualifica a mão de obra num instante. A qualificação é pequena, porque, a rigor, trata-se de um jogo de armar que se aprende com rapidez. Lógico que há os instrutores. O que estamos propondo é a racionalização da construção nos mínimos detalhes, nada é improvisado. Um tipo de construção que vai se multiplicando e que pode ser repassada para qualquer pessoa, e para as empresas.

Há a possibilidade de expansão da moradia?

É fundamental. Você pode ter uma moradia mínima, desde que seja também flexível. Estou propondo um espaço de 40 m², que eu gostaria inclusive de mobiliar. A flexibilidade permite uma melhor utilização do espaço, que pode se adequar ás necessidades dos moradores.

O projeto difere muito se construído na região plana ou nas encostas?

Não, é o mesmo projeto. O mesmo elemento, o mesmo componente, a mesma estrutura. Não tem modificação, a fábrica executa os dois sistemas, não importando o tipo de terreno. Mesmo nas encostas, pelo fato de ter muitos pilares metálicos, o sistema é leve, você pode fazer tudo com fundação direta. O mesmo para as construções na área plana.

O princípio básico é não criar aterros, deixar o terreno como está. Se lá em cima você tem sempre uma pequena área plana, então você faz blocos. A implantação nas encostas é feita por patamares sucessivos, interligados por escadarias drenantes e elevador em plano inclinado, integrado aos transportes urbanos. O bondinho já foi criado e testado, e liga a cumeada ao vale, chegando à plataforma de acesso às casas. Esse é o elevador que fizemos na Rede Sarah. Não tem mistério: é pendurado lá em cima, os trilhos vencem o vão.

Qual a grande dificuldade para a implantação?

A empresa que vai construir, que vai receber essa tecnologia, esse projeto, não tem autonomia para criar, de repente, o sistema de transporte. Irá construir algo, mas não tem autonomia para chamar um morador e dizer que a sua casa será substituída. Pressupõe-se que o setor público esteja organizado para isso. Precisa existir alguém que diga ao cara que ele vai ser realocado, que vai morar melhor, há a necessidade de ajustar o programa de cada casa e tem a questão da venda dos apartamentos. O esquema administrativo dificulta tudo, está desestruturado, não tem poder para fazer nada, a burocracia impera.

Se o sistema for implantado em Salvador onde já existem barracos, os moradores não teriam de sair do sítio, não é?

É o que eu estou propondo. Nestes locais você tem áreas verdes acopladas. Para a urbanização de Pernambués, por exemplo, existe uma área verde que não está sendo usada. E perto da favela. Constrói-se ali, transfere-se a população, e segue construindo. Começa por uma área onde não tem ninguém e transfere os assentamentos na favela já construída. Há muitas áreas, é facílimo. E só você pegar uma faixa pequena e começar a realocar, e ir andando, ir andando.

Reportagem: Claudia Estrela Porto
Foto: Dilvulgação Astha Produções

Fonte:

Revista AU - Julho 2011

 

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