
Luciano Andrades é arquiteto formado pela Universidade Luterana do Brasil de Canoas (RS) em 2001. No ano seguinte fundou o Studio Paralelo em Porto Alegre (RS) desenvolvendo projetos de arquitetura em diversas escalas e programas, conquistando prêmios e distinções nacionais e internacionais.
Em 2003 é destaque na 5° Bienal de Arquitetura e Design de São Paulo. No ano seguinte, recebe menção honrosa no 6° prêmio Jovens Arquitetos pelo IAB-SP e na seletiva nacional para Bienal Iberoamericana de Arquitetura de Quito.
Neste período, algumas de suas obras foram publicadas nas principais revistas e livros de arquitetura do País, entre eles destaca-se o livro “Jovens Arquitetos do Brasil” (Segre, Roberto 2004), exposição e livro “Ainda Moderno? Arquitetura Brasileira Contemporânea” (Cavalcanti, Lauro e Lago, André Corrêa 2005).
Atualmente o Studio é formado pelos arquitetos Luciano Andrades, Rochelle Castro e Valéria Bertolini.

1. Como e quando você começou a se interessar pela arquitetura?
A arquitetura surgiu como uma opção de trabalho quando eu ainda era estudante. Concluí um curso de desenho publicitário quando surgiu uma vaga de desenhista num escritório de arquitetura. Foram três anos debruçados na prancheta acompanhando o dia a dia dessa profissão. Essa experiência contribuiu muito para eu decidir que caminho seguir e me deram segurança na escolha profissional. É claro que antes disso, quando criança, a preferência pelo lápis e papel indicava que além do futebol, a segunda opção era ser desenhista. Mas logo fui convencido, sutilmente, que meu negócio não era com os pés.2. O que mais chama a sua atenção nessa profissão?
O quanto o resultado do nosso trabalho pode influenciar na vida das pessoas. A qualidade de vida depende muito da qualidade dos espaços construídos. Uma boa arquitetura pode tornar nossas cidades mais interessantes.
3. Você acredita na importância da criação de um projeto que seja a cara de quem vai utilizá-lo? Quanto isso representa na hora de gerar um projeto?
É fundamental que o projeto esteja de acordo com as necessidades do cliente sob todos os aspectos: funcionais, técnicos, estéticos e financeiros. O papel do arquiteto é justamente interpretar esses desejos e propor soluções e alternativas para resolver todos os problemas. Já o cliente deve expressar com clareza seus desejos, sem pré-conceitos e confiar no trabalho do profissional escolhido. Nessas condições, com papéis definidos, as chances de se alcançar resultados satisfatórios são maiores.
4. Como surgiu o projeto “Refúgio São Chico”?
Quando o Robson (ver conceito) nos procurou para fazer o projeto, ele sabia claramente qual “atmosfera” desejava para sua casa. Além de um programa mínimo, tinha preferência por espaços claros, luz natural e a interação com o meio externo essas predileções indicavam o caminho que devíamos percorrer. O problema surgiu com a tecnologia que decidimos aplicar e mão-de-obra local não especializada. A tipologia dos “chalés” pré-moldados e construções em pedra grês (arenito) mesclada com alvenaria ou madeira confrontavam com nosso desejo por superfícies claras em uma estrutura leve que repousasse sobre o terreno. Além disso, o tempo de execução e o acompanhamento do processo construtivo nos levaram a investigar alternativas de construção. O steel frame (um tipo de construção seca) foi uma opção para esse problema, pois permite pelas suas características responder às necessidades do programa sem perder a qualidade estética.
5. Qual é o grande diferencial dessa tecnologia construtiva?
Dois fatores são fundamentais para diferenciar a tecnologia da construção seca da convencional: racionalização e tempo de execução. O processo construtivo “obra seca” proporciona total controle sobre os materiais, ausência de resíduos, rigor, precisão e fidelidade ao projeto. Somado a isso, a flexibilidade que o sistema proporciona reduz consideravelmente o tempo de execução da obra.
6. Quais os objetivos que serão alcançados com a escolha por esse método construtivo?
O principal é o controle sobre o processo de construção, e também o tempo de execução de uma obra. Na primeira etapa, a montagem dos painéis em steel frame e a fixação das chapas de osb serão produzidas em um galpão industrial a 100km do local final de implantação da casa. A construção no terreno se resume basicamente na montagem desses painéis, que serão transportados por caminhão. Essa forma de construir proporciona condições ideais de trabalho, pois permite o acompanhamento do processo de montagem pelos profissionais e conforto para os operários que tem a disposição uma estrutura qualificada e não dependem das condições climáticas para desenvolverem seu trabalho.
7. Além do uso inovador dessa tecnologia construtiva em harmonia com materiais tradicionais, o design ganha destaque. Qual é a importância dessa ferramenta tão divulgada hoje, no desenvolvimento desse projeto em específico?
O domínio dessa tecnologia, materiais e o know how para construir essa casa é o mesmo utilizado em qualquer lugar no mundo. O que diferencia é justamente sua arquitetura. Mesmo utilizando uma linguagem universal, o projeto buscou atender as necessidades do cliente dentro de uma realidade específica. É possível, no entanto, ao utilizar essa tecnologia, fabricar casas em série, com modelos que podem ser adaptados as necessidades do local e do cliente. Nesse caso específico, o design cumpre papel fundamental, pois além de conforto, tecnologia e custos, o desenho é sedutor e atrativo.
8. Qual o intuito geral do “Refúgio São Chico”?
Existe um desejo em promover a construção a seco aliada ao design e ao uso inusitado de alguns materiais tradicionais?
O diferencial desse projeto está na tecnologia aplicada na construção e no manejo dos materiais tradicionais aplicados num desenho contemporâneo. Na realidade os materiais que utilizamos, madeira e chapa ondulada, sempre estiveram presentes nas casas, galpões agrícolas e industriais que os imigrantes europeus construíram no Rio Grande do Sul. Até mesmo a estratégia de elevar a casa do solo, afastando-a da umidade, que os italianos resolviam com o soco (pilar de madeira), utilizamos nesse projeto. É claro que existe uma preocupação estética, pensada a partir de uma lógica estrutural rígida, delimitada pela tecnologia que adotamos. Nossa intenção é mostrar que é possível conjugar materiais tradicionais com tecnologia construtiva num desenho contemporâneo.
9. O que esse projeto representa no âmbito de inovação na arquitetura brasileira?
A construção brasileira contemporânea sempre foi muito ligada ao concreto armado. O movimento moderno brasileiro serviu para consolidar essa tecnologia que perpetua até os dias atuais. No entanto, as mudanças no cenário da construção no país, com a substituição dos investimentos do estado pela iniciativa privada, impulsionaram novas técnicas e aperfeiçoamento do processo construtivo. Nesse novo universo, a construção seca pode preencher de forma significativa uma fatia do mercado pelos benefícios já mencionados.
10. Qual é a mensagem do “Refúgio” para o universo da construção?
Além da questão construtiva, pouco difundida no Brasil, a casa buscou quebrar um paradigma de local verso “estilo” de arquitetura. É comum expressões como “casa de serra” ou “casa de praia” rotulando um padrão estilístico para cada região. No refúgio, tentamos demonstrar que mesmo com materiais tradicionais aplicados de forma diferenciada, é possível por meio de uma linguagem contemporânea, utilizar tecnologia de ponta, e assim atender as solicitações do cliente e integrar a casa ao meio natural.
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