
Portal Metálica - Em que nível podemos colocar o Brasil, quanto à utilização do aço como elemento construtivo?
Marcos Monteiro - É inegável que temos no Brasil a cultura do concreto armado. O que se vê no mercado é que a estrutura metálica possui alguns nichos específicos: coberturas, obras industriais, mezaninos, reforços estruturais, nos quais ela é a solução. Nas obras correntes, ainda não se encara a estrutura metálica como uma das opções estruturais. Em geral, o que se vê em estruturas metálicas são obras que têm como partido do projeto arquitetônico a utilização do aço.
PM - Neste cenário atual, de crise mundial em todos os setores, quais as perspectivas, a seu ver, para a Construção Metálica?
M.M - Não creio que a construção metálica tenha um comportamento diferente com relação ao restante do setor de construção civil. Apesar de muito se falar que as crises são momentos de oportunidades, a tendência é que as pessoas atuem de forma conservadora nessas situações, mantendo os processos construtivos que já utilizam, com custos e produtividade consolidados.
PM - Como podemos incentivar os novos profissionais, lançados anualmente no mercado de trabalho, a utilizarem o aço em suas concepções arquitetônicas?
M.M - Parece que os arquitetos reconhecem o aço como um material de excelente efeito estético. Por isso, ele acaba sendo usado apenas quando se deseja um diferencial para o projeto. Acredito que um próximo passo é mostrar que o material pode ser empregado em obras correntes, mesmo que seja revestido e não apareça no resultado final. Devem ser esclarecidas as dúvidas de ligações com vedações, revestimento das peças, proteção ao fogo, que causam insegurança na hora de se propor a utilização do material. Outro fator que contribui muito para que se passe a analisar o aço como alternativa estrutural é a nova norma NBR 8800. Ela aproxima os conceitos de projeto do concreto armado, fazendo com que os projetistas se sintam mais à vontade para analisar essa opção. Por fim, em obras correntes, sempre restará a questão do custo. A análise de alternativas se baseia no menor custo final da solução. E a experiência mostra que cada projeto possui características próprias que conduzirão a soluções estruturais diferentes.
PM - Como incentivar a iniciativa pública a utilizar mais aço em obras de infra-estrutura?
M.M - A iniciativa pública é alimentada por projetos elaborados por empresas privadas. Então, a alternativa é proposta pela iniciativa privada, que terá que justificar a adoção daquele sistema estrutural. É importante que os corpos técnicos dos órgãos públicos que, em geral, são compostos por pessoas muito competentes, sejam alimentados com informações sobre os sistemas disponíveis e que os questionamentos sejam esclarecidos, para que não haja impeditivos no momento de se avaliar a alternativa proposta pelos projetistas.
PM - De 0 a 10, em sua opinião, qual o nível brasileiro das obras utilizando Aço, sejam elas públicas ou privadas?
M.M - O Brasil é um país de grandes contrastes. Como em outras situações, temos obras em estruturas de aço que são ícones da arquitetura, projeto e execução elaborados de acordo com os mais elevados padrões de qualidade. Em contrapartida, encontramos soluções de projeto equivocadas e procedimentos executivos que não obedecem às recomendações técnicas com resultados finais lastimáveis. Assim, falar um uma única nota, seria injusto com os ótimos projetistas e executores que temos. Mas, no geral, ainda temos muito a fazer.
PM - Quais as principais propostas da entidade para a atual gestão?
M.M - A ABECE tem procurado mostrar aos projetistas especialistas em estruturas metálicas que é uma entidade de todos os projetistas estruturais, e não apenas de concreto armado. Temos um coordenador responsável pelas ações voltadas para a estrutura metálica que é o engenheiro Flávio D’Alambert. Além disso, o CBCA é um dos grandes parceiros da entidade. Anualmente, são propostas atividades conjuntas, que visam o desenvolvimento do projetista estrutural e a divulgação das soluções em estruturas metálicas. Algumas delas para este ano são: cursos sobre a NBR 8800, curso de formação de projetistas em estruturas metálicas, divulgação do sistema nos informativos da ABECE, realização de encontros mensais sobre o tema, elaboração de ferramentas de dimensionamento de estruturas metálicas, entre outras. Outro objetivo importante é aumentar o número de associados especializados em estruturas metálicas.
PM - Como a entidade orienta seus associados a se adequarem aos novos conceitos de empresas e produtos certificados?
M.M - Faz parte da rotina do projetista estrutural a análise de alternativas, o desenvolvimento de novos sistemas e a especificação de produtos que apresentem viabilidade técnica e econômica. Para subsidiar os projetistas, a ABECE promove diversas palestras e cursos, em conjunto com fornecedores, para apresentação de seus produtos e de suas características técnicas e diferenciais. Além disso, a entidade possui a categoria de associados colaboradores, por intermédio da qual são disponibilizadas ferramentas para que os fornecedores de insumos tenham um contato mais próximo com os projetistas estruturais.
PM - Qual o impacto dos planos governamentais nas expectativas da classe que representam?
M.M - A expectativa é a mesma dos demais setores. Sem dúvida, um programa de obras que inclui o PAC, o programa Minha casa, Minha Vida e as obras da Copa 2014 têm o poder de dar um grande impulso ao setor de construção civil. Mas, existem gargalos a serem retirados para que esses planos cheguem efetivamente ao setor de projetos e as obras virem realidade.
PM - Como a entidade contribui para a formação de novos profissionais para o setor?
M.M - A ABECE possui um viés técnico muito forte. Sendo assim, promove em suas várias delegacias regionais, cursos, palestras e outras atividades que possibilitam aos associados uma atualização profissional constante. Está em andamento um curso de especialização em conjunto com a FESP e a TQS Informática, voltado para engenheiros civis. Além disso, a estrutura de comitês técnicos que vem sendo formada tem possibilitado a discussão de vários temas importantes, aliás, já existe um comitê técnico de estruturas metálicas. Os interessados podem consultar a secretaria da ABECE para obter informações sobre as próximas atividades.
PM - Quais os principais avanços tecnológicos em seu setor?
M.M - Temos acompanhado a importância cada vez maior de dois assuntos: BIM e sustentabilidade. O BIM (Building Information Modeling) tem o objetivo de integrar não apenas os projetos, mas também gerar informações que integrem toda a cadeia produtiva (projetos, orçamento, planejamento, controle de execução, acompanhamento pós-entrega, etc.). Sustentabilidade é um conceito que surgiu de uma melhor integração com o meio ambiente e do uso racionalizado de seus recursos e que vem se ampliando. Hoje, já se entende como sustentabilidade todas as relações e impactos gerados pelo novo empreendimento (por exemplo, comunidades no entorno e poder público), além do meio ambiente.
PM - Quais as propostas da classe para “vencer” a crise mundial, mantendo-se na cadeia produtiva em um mercado cada vez mais exigente?
M.M - A entidade tem como principal objetivo a valorização profissional. É importante que os contratantes entendam que a pressão de contratação de projetos a preços baixos é uma visão de curto prazo, que não se sustenta. Preços baixos conduzem a projetos desenvolvidos inadequadamente, com falta de informações e de detalhes necessários a uma boa execução. Implica em empresas de projetos enfraquecidas que não investem na atualização de equipamentos, softwares e na capacitação de seu pessoal. Portanto, pressão por preços baixos implica em riscos maiores não só para a empresa de projetos, mas também para os contratantes.
Em sua opinião, a indústria nacional, atende à demanda do mercado interno na Construção Civil?
M.M - O setor siderúrgico é um dos mais capacitados da indústria nacional. Prova disso é a sua grande competitividade externa e o nível de exportações até o início da crise mundial. Quanto à execução das estruturas, a dúvida que surge é com relação à capacitação. Temos empresas muito capacitadas e outras nem tanto. Há de se buscar um programa de qualidade e certificação de empresas de execução de estruturas metálicas voltado também para os pequenos executores, a fim de se garantir um padrão adequado de qualidade.ABECE
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