Há seis anos presidindo o conselho diretor da Associação Brasileira da Construção Metálica (Abcem), o engenheiro José Eliseu Verzoni acompanha com otimismo as mudanças por que passa o setor, em função da promissora demanda que virá com obras de estádios e de infraestrutura para os eventos esportivos que o Brasil receberá nos próximos anos. Para ele, a indústria do aço está preparada para o crescimento.
Formado em engenharia mecânica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, José Eliseu Verzoni é, desde 1981, diretor comercial da empresa Metasa. Em 2004 ele assumiu a presidência da Abcem e a partir do próximo ano será o vice-presidente de Estruturas Metálicas, na nova diretoria, eleita em outubro para o biênio 2011/2012. Verzoni defende as iniciativas da associação focadas principalmente na desoneração tributária e na isonomia em relação a outros sistemas construtivos, na educação e formação de profissionais, na promoção e na divulgação das melhores práticas e tecnologias. "O setor está investindo muito para preparar-se para as oportunidades de crescimento da demanda em função da Copa do Mundo, da Olimpíada, do pré-sal e dos programas habitacionais do governo", afirma. Nesta entrevista a Gilmara Gelinski, Verzoni conta que o aço tem sido empregado mundialmente, em larga escala, como elemento estrutural fundamental ao cumprimento de prazos e ao atendimento dos requisitos dos projetos. A maioria dos projetos de construção, modernização e adaptação das arenas está utilizando o metal, ele destaca.
Qual o balanço que o senhor faz do congresso latino-americano da construção metálica - construmetal 2010, em função do momento da construção civil no país, com a copa de 2014 e a olimpíada de 2018?
O evento superou as expectativas de presença de público, unindo de forma direta todos os membros da cadeia de fornecimento da construção. Tivemos uma participação maciça de profissionais, investidores e outros interessados na solução metálica para materializar os projetos necessários para colocar o país em condições de sediar tanto a Copa como a Olimpíada. Os grandes objetivos do Construmetal são a atualização tecnológica e o fomento da construção metálica no mercado brasileiro. Esta edição, em especial, veio no momento oportuno e permitiu um enorme avanço na promoção da indústria junto aos potenciais consumidores e a toda a cadeia decisória. Uma oportunidade excepcional, que certamente contribuirá para o desenvolvimento do país.
Que papel a construção metálica tem no atendimento a obras de arquitetura esportiva?
No que se refere aos estádios e toda a infraestrutura que compõe esse tipo de obra, o aço tem sido empregado mundialmente, em larga escala, como elemento estrutural fundamental ao cumprimento de prazos e atendimento dos requisitos dos projetos. Ele permite rapidez e oferece todas as condições para a realização de propostas arrojadas, envolvendo a estética e o apelo arquitetônico que transformam estádios em verdadeiras obras de arte. No Brasil, a utilização do aço está contemplada em praticamente todos os projetos, tanto para as novas arenas, como na modernização e adaptação das existentes.
Considerando as áreas de arquitetura esportiva, organização, infraestrutura e hospitalidade, em qual delas a construção metálica está mais apta a contribuir?
Não existem limites para o uso da construção metálica. O aço estrutural pode ser empregado em todo e qualquer projeto.
Em obras de grande porte, como as de estádios e aeroportos, ele oferece vantagens extraordinárias e ganhos de escala, principalmente pela rapidez do processo construtivo. Não resta dúvida de que nas áreas de arquitetura esportiva e infraestrutura o aço é imbatível como solução construtiva e pode contribuir para o cumprimento dos prazos e a qualidade dos projetos.
A indústria brasileira da construção civil tem capacidade para absorver a demanda que poderá surgir desses eventos?
A construção civil brasileira está preparada para atender toda e qualquer demanda relacionada com esses eventos e quaisquer outras obras da infraestrutura pública e privada. O mesmo se pode afirmar da indústria da construção em aço. Nos últimos anos, ambos os segmentos têm investido pesadamente em tecnologia, modernização e ampliação da capacidade. A única preocupação é com o lento processo de aprovação dos projetos e início efetivo das obras, que pode conduzir a um afunilamento e, assim, comprometer o cumprimento dos prazos.
Qual a capacidade de produção anual da indústria de aço para a construção civil?
O Brasil tem capacidade instalada superior a 40 milhões de toneladas de aço, muito acima do consumo interno, que em 2009 ficou abaixo de 19 milhões de toneladas. Especificamente para a construção civil, o consumo interno anual de aço gira em torno de 7 milhões de toneladas. Nesse contexto, e em termos de qualidade e variedade, a siderurgia brasileira está em condições de atender qualquer demanda atual e futura para a construção civil. A extraordinária qualidade do aço brasileiro é reconhecida em todo o mundo.
Hoje a indústria opera com qual margem de produção anual?
Atualmente, a indústria opera com cerca de 30% de margem sobre a capacidade instalada. No que se refere à construção metálica, há uma ampla margem de capacidade, considerando-se os investimentos realizados pelo segmento, exatamente com a finalidade de preparar-se para as potenciais oportunidades de crescimento da demanda em função da Copa, da Olimpíada, do pré-sal e dos programas habitacionais do governo.
"As estruturas metálicas são extremamente competitivas em qualquer tipo de projeto, mas existe ainda uma questão cultural a vencer"
Quanto à tecnologia e à tipologia dos produtos existentes no mercado, a indústria está preparada para atender às solicitações que virão com os eventos esportivos?
A siderurgia nacional pode produzir qualquer especificação de aço e basicamente todos os tipos de produtos utilizados na construção. Quanto à construção metálica, o parque industrial brasileiro está preparado para atender a todos os tipos de projetos.
Com relação a programas do governo, como o minha casa, minha vida, qual a participação da indústria da construção metálica?
A participação do aço no setor residencial é ainda pequena no Brasil, assim como no resto do mundo. No caso desse programa do governo, a rapidez na execução das obras, principal característica da construção metálica, é uma oportunidade excelente e o segmento está mobilizado para explorá-Ia. Existem vários projetos já implantados e outros em desenvolvimento para participar efetivamente desse programa.
Quais os apelos estéticos, tecnológicos e economicos que a construção metálica possui para ser competitiva com outros materiais?
A construção metálica é utilizada em larga escala no mundo inteiro. No Brasil, sua aplicação está muito focada no segmento industrial, onde tem predominância absoluta. Na construção de edifícios de andares múltiplos, principalmente os de uso comercial, incluindo shopping centers, hotéis e hospitais, o aço começa a ter uma participação expressiva.
O retorno mais rápido do investimento, fator importante nesses casos, é uma vantagem excepcional que ele permite.
A flexibilidade estética, a integração com fechamentos e outros acabamentos e a sustentabilidade, tanto do processo construtivo como a resultante do uso do aço na construção, são características que vêm sendo bem exploradas pelos arquitetos brasileiros. Isso está permitindo um crescimento exponencial das obras em aço no Brasil. As estruturas metálicas são extremamente competitivas em qualquer tipo de projeto, mas existe ainda uma questão cultural a vencer. Mas somos bastante otimistas em relação a isso.
Durante muitos anos, a construção metálica esteve associada no brasil a obras de galpoes industriais e, em alguns casos, a sistemas para moradia de baixa qualidade. ho.je esse quadro vem mudando. a que o senhor atribui essas mudanças?
O conhecimento é fundamental para quebrar paradigmas. E é a um conhecimento cada vez maior do uso do aço, resultante de programas intensivos de promoção e divulgação, que atribuímos o crescimento do interesse pela solução metálica. A industrialização da construção civil no Brasil, que é uma realidade, tem sido favorável ao aço, cujo processo se enquadra integralmente nesse conceito. As estruturas são montadas em fábrica, com a mais absoluta precisão, e levadas ao local da obra. Os ganhos no processo são excepcionais e isso está sendo reconhecido pelo mercado através de uma aplicação crescente da solução metálica.
Qual o balanço que o senhor faz do setor de construção metálica no primeiro semestre de 2010, em comparação com o mesmo período de 2009?
O crescimento foi superior ao mesmo período de 2009. Ainda que inferior a 2008, ano marcado pela crise econômica global, a produção de aço cresceu no Brasil e os investimentos industriais vêm sendo gradualmente retomados.
As perspectivas para o setor são, portanto, promissoras?
As perspectivas são de aumento da demanda, principalmente em função das obras de infraestrutura necessárias para preparar o país para a Copa e a Olimpíada. As previsões do Instituto Aço Brasil, o IABr, indicam um crescimento da demanda interna de aço em 2010 superior a 20%. O cenário é realmente promissor.
Quais os planos da diretoria da abcem para a gestão 2011/2012?
A nova diretoria assume no início de 2011 e o grande foco será a continuidade nas ações de desenvolvimento da construção metálica. Ações essas que têm como foco principal a desoneração tributária e a isonomia em relação a outros sistemas construtivos, a educação e formação de profissionais, a promoção e a divulgação das melhores práticas e tecnologias, visando aumentar a competitividade da nossa indústria. O Construmetal 2012 já está em preparação e as perspectivas de participação do setor nesse evento são alentadoras. Mais da metade dos espaços já está reservada e há um crescente interesse dos profissionais e setores interessados em conhecer mais sobre a construção metálica. Esse fórum é perfeito para isso. Os desafios são grandes, mas o nosso otimismo é ainda maior.
Revista Finestra
Publicação: Ed Novembro/Dezembro 2010