Realizado no Rio de Janeiro no mês de outubro, como parte dos eventos da Expo Estádio 2010, o 2° Seminário de Arquitetura de Estádios reuniu arquitetos, engenheiros, construtoras e fornecedores da indústria, interessados em discutir propostas para arenas esportivas. O evento resultou em um rico debate sobre os projetos para a Copa de 2014.
Durante dois dias, os participantes do 2° Seminário de Arquitetura de Estádios ouviram palestras de arquitetos, pesquisadores e representantes de empresas de engenharia envolvidos nas obras das arenas para a Copa de 2014 no Brasil. Ao final do encontro, promovido pela Arqpress/revista Finestro, três arquitetos que fizeram projetos para o Mundial de futebol - Sérgio Coelho (Arena Cuiabá), Marc Duwe (Arena Salvador) e Eduardo de Castro Mello (Estádio Nacional, Brasília) - participaram de um debate, com mediação de Fernando Mungioli, publisher da revista Finestro.
A discussão estimulou reflexões sobre a globalização de projetos e obras, a tecnologia para atender à nova arquitetura das arenas de múltiplo uso e a criação desses equipamentos a partir da aplicação de conceitos da construção sustentável.
Fernando Mungioli Nos últimos anos, a construção de estádios tem contado com a participação de vários países. Foi assim na África do Sul, e aqui no Brasil já existem companhias estrangeiras em parceria com brasileiras. Quais os desafios que essa presença traz para empresas nacionais em obras de tamanha complexidade, como as arenas esportivas?
Eduardo de Castro Mello Comecei minha apresentação dizendo que tinha muito prazer em trabalhar com o SBP e com o GMP [os escritórios schlaich bergermann und partner e Von Gerkan, Marg und Partner, ambos alemães] porque fui buscar essa experiência lá fora. Nosso escritório trabalha há anos com arquitetura esportiva, mas acho que para fazer uma obra desse porte [o Estádio Nacional, em Brasília], tão importante do ponto de vista de visibilidade mundial, não poderíamos fechar os olhos para as coisas já feitas. Decidimos conversar com especialistas que tinham trabalhos de excelência em setores específicos, como é o caso da cobertura de nosso projeto. O Knut [Goppert, integrante do SBP] veio ao Brasil, conversamos diversas vezes e, por fim, fomos à Alemanha. Tivemos uma reunião, já com a participação do GMP, e depois de três dias e algumas noites, no frio de Stuttgart e Berlim, tínhamos uma solução definitiva e de força para nosso projeto.
A partir daí estabelecemos uma camaradagem muito grande. Continuamos desenvolvendo o projeto em reuniões constantes, que agora ocorrem a cada 15 dias, e isso se transformou numa amizade, numa troca de experiências fantástica. É saudável o arquiteto ir atrás de uma consultoria para enriquecer e melhorar seu trabalho. Mas lamento profundamente o fato de algumas empresas estrangeiras, que têm vindo ao Brasil, procurarem outros caminhos, que não o de conversar diretamente com os autores dos projetos. Sei de empresas estrangeiras de arquitetura que procuraram diretamente meu cliente, dizendo que nosso projeto sofria problemas, enquanto eles eram altamente especializados. É deplorável. Todo trabalho que vem de fora é muito bem-vindo, desde que seja através dos autores do projeto, sem tentar dar um bypass neles. Temos que trabalhar como parceiros.
Sérgio Coelho Um evento como a Copa do Mundo é muito importante. Por sua visibilidade e importância, é uma oportunidade única para nós, arquitetos e engenheiros brasileiros. Talvez seja o momento em que tenhamos que nos defrontar com mais tecnologia e desafios. Sou absolutamente partidário - não é de hoje e não só por isso - da presença internacional no Brasil, tanto em relação a fornecedores como a engenheiros e arquitetos. O Brasil ainda não faz parte do mercado de serviços de arquitetura lá fora. Vivemos de grandes nomes, de nossos mestres da arquitetura, e acabamos não participando do jogo do mercado de arquitetura global como deveríamos. Para estar lá fora, também temos que receber. No caso do projeto da Arena Cuiabá, buscamos quem tinha mais experiência na questão estrutural, na flexibilização de capacidade. A entrada da SKM [Sinclair Knight Merz, escritório australiano de engenharia estrutural] não foi à toa: eles têm experiência em cobertura e numa série de questões de cálculo e carga dinâmica. Acho inevitável que isso aconteça e considero com muita tranqüilidade. Sou favorável a essas parcerias.
Marc Duwe Nosso escritório não tinha experiência na área de esportes, atuamos mais em transporte, estações, metrô. Mas em 2006 vimos uma reportagem sobre os estádios alemães e na África do Sul, e pensamos: "Por que não podemos fazer também estádios aqui no Brasil?".
Por ser de família alemã – meu pai veio para o Brasil trabalhar nos projetos do metrô -, fui buscar essa parceria naquele país. O Claas [Schulitz, do escritório Schulitz Architektur + Technologie), quase tão brasileiro quanto eu, já sabe até falar português [risos], proporcionou uma troca de experiências muito válida. O que fui buscar nesses projetos da Copa do Mundo é justamente essa experiência, perceber como funcionam as coisas por lá, como é um escritório de arquitetura no exterior, qual a vivência. Assim poderia aperfeiçoar nosso trabalho aqui.
FM Em resumo, vocês são unânimes em concordar que se trata de uma questão de parcerias e troca de experiências, e que, sendo assim, é um processo saudável?
SC Sim. Mas há um detalhe. Eu passei quatro anos trabalhando como arquiteto na Europa. Nessa vivência na Inglaterra e em Portugal percebi que não existem fronteiras. São raríssimas as equipes em que trabalhei nas quais não havia estrangeiros. Tinha gente da África, da Ásia. Em geral, eu era o único latino-americano, exceto um ou outro chileno. Isso é uma coisa interessante que não ocorre no Brasil. Por questões geográficas ou históricas, só olhamos nossa arquitetura e achamos que tudo aqui é o máximo. Temos ótima arquitetura, óbvio, mas participar de uma equipe multicultural é fundamental para fazer um bom trabalho.
FM Os estádios na Alemanha, na África do Sul e agora também no Brasil trazem grandes mudanças em design, e isso requer sistemas construtivos diferenciados e tecnologia. Quais tecnologias e sistemas construtivos permitem atender a essas novas propostas, como vimos em Durban e Port Elisabeth, por exemplo?
ECM Essa mudança é até bem caracterizada em função do que havia no Brasil: estádios das décadas de 1940, 1950 e 1960, com uma concepção completamente diferente da que vemos hoje.
Na época se falava em estádio olímpico, com uma grande distância do público em relação ao campo, com pista de atletismo que ficava às vezes se deteriorando durante anos e anos sem uma competição. Com o crescimento do futebol e da mídia, houve uma transformação. Tomando como base o caderno de encargos da Fifa, vimos que era preciso fazer uma mudança total do ponto de vista do layout do estádio. E com isso vem a parte estrutural, do concreto, do uso dos pré-moldados e demais sistemas, na procura de atender as exigências técnicas e de design.
"Evidente que não apenas os estádios, mas toda a infraestrutura para a Copa deve ter a visão de sustentabilidade" Eduardo de Castro Mello
SC Concordo com o que Eduardo falou sobre pré-moldados e exigências técnicas. Visitei, junto com outros arquitetos, os estádios da África antes e durante a construção, e depois voltei para ver os jogos da Copa.
É impressionante o significado do designo Apesar da polêmica que existe - pois sabemos os meandros de como as coisas acontecem por aqui -, é impressionante presenciar um jogo com 60 mil, 70 mil pessoas em cenários como o Soccer City, o Allianz Arena. As pessoas não têm idéia do que será a Copa no Brasil como quebra de paradigma: os estádios existentes não têm nada a ver com o que está sendo feito agora. Estamos entrando em um clube global, agora sim poderemos falar sobre o que significa isso. Penso que essas questões também estão relacionadas com o que será a história do futebol, o que vai significar para o esporte no Brasil, começando pelas instalações. Torna-se quase obrigatório que os clubes e a gestão se profissionalizem, que a realização dos espetáculos seja gerida de maneira diferente também. Vai mudar muita coisa por aqui em função disso.
MD Nós dominamos a tecnologia de construção em pré-fabricados de concreto, mas não usávamos em estádios. Essa é a oportunidade que estamos tendo, e que está sendo colocada em prática no mundo inteiro. Trata-se de peças pré-fabricadas, com todas as dimensões detalhadas em desenho; basta encaixá-Ias. Hoje os prazos são curtos e, então, temos que industrializar.
FM Além de terem que fazer ícones da arquitetura esportiva no Brasil, os prazos são apertados.
SC Há também os novos materiais com os quais temos a oportunidade de trabalhar, principalmente nas coberturas, como as tensionadas, por exemplo. Fornecedores na escala de uma Copa do Mundo nos trazem isso. Independentemente de desenharmos estádios, estamos trabalhamos muito com transporte, com arquitetura industrial. Essa é uma oportunidade enorme de termos uma especificação modificada daqui para a frente. Como arquiteto, para meu escritório o mais importante é o conhecimento de outros materiais e sistemas que poderemos passar a especificar.
ECM Outra coisa importantíssima para o Brasil, nesse momento, é o legado para a nova geração de arquitetos no campo da arquitetura esportiva. Durante 50 anos não se fez nada aqui em grande dimensão. E de uma hora para outra temos Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Com os jovens arquitetos que estão entrando nesse mercado, trabalhando conosco e nos escritórios de terceiros, está se formando uma nova geração, que vai dar uma ajuda enorme no desenvolvimento dos projetos em favor do esporte para o Brasil.
FM Estamos muito focados em estádios, mas há também o entorno: infraestrutura, aeroportos, estações. Nisso também poderemos utilizar essa experiência?
SC Sem dúvida.
FM Pensando no conceito de ecoarenas e no Green Goal [meta verde] da Fifa, a certificação verde é uma exigência ou recomendação? Os projetos têm soluções para preservação do meio ambiente? O que é necessário para que propostas apresentadas em projeto sejam realmente aplicadas às obras? Corremos o risco de, no meio do caminho, parte dessas propostas não serem adotadas? Em um orçamento de implantação de um projeto sustentável, qual a porcentagem extra de custo e qual o tempo necessário para absorver esse custo pela economia gerada?
MD Em nossas reuniões com o Comitê Local da Fifa há uma forte recomendação para certificação nos estádios. É grande a vontade de ter a primeira Copa verde no Brasil. Na Arena Salvador, isso veio depois da licitação, mas já havíamos previsto. Como há no caderno de encargos o capítulo do Green Goal, que lista itens como reúso de água, torneiras que evitam desperdício, a eficiência energética e reciclagem de lixo, isso já estava incorporado ao projeto desde o início. Mas a certificação custa dinheiro, e temos que ver agora se vão pagar, quem vai pagar etc. Com relação ao custo extra, estimamos acréscimo de 3% a 5% no custo final da obra. Mas depende da execução, do projeto, do que foi previsto com antecedência ou não, de várias situações.
FM Existe uma média de 3% a 5% ou depende do projeto, do tipo de certificação - gold, platinum? Há uma variação?
MD Sim, isso varia. Não sou especialista, mas temos pessoas que trabalham conosco e que nos passam essa média.
E o retorno também depende do tipo de obra, qual o uso, se gasta muita energia. O Leed é aplicado para escritórios, então sua adaptação aos estádios é bastante complicada. Temos que pensar no estádio com sua utilização lotada ou em relação ao dia a dia e às pessoas que lá trabalham? Como o uso do estádio é pontual, no máximo duas vezes por semana, é preciso discutir como adaptar a certificação para esse tipo de obra.
“Em nossas reuniões com o Comitê Local da Fifa, há uma forte recomendação para a certificação dos estádios” Mark Duwe
SC No nosso projeto houve uma discussão inicial com o contratante, no caso o governo do estado do Mato Grosso, e havia no governo quem achasse a certificação Leed interessante. E uma das razões pelas quais nos envolvemos no projeto é o fato de nosso escritório ter uma história bastante grande na área de arquitetura sustentável - embora eu não goste dessa palavra, prefiro responsável, inteligente.
FM Ou ecoeficiente, como é na abordagem da revista Finestra.
SC Sim, eficiente. Na verdade essa é uma história bem complexa, como disse o Marc. Como a atuação do GCP é muito calcada na arquitetura para a indústria, e a questão ambiental é fundamental nessa área em que a implantação dos empreendimentos é algo delicado, já temos esse DNA. Portanto, o projeto de Cuiabá já nasceu para ser Leed. Como há essa forte recomendação, o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão do governo federal] também colocou em suas exigências para financiamento a eficiência energética. Contratamos uma consultaria especializada, a CTE. Desde o projeto básico já havia esse norte, a licitação previa que a construtora vencedora teria que erguer um empreendimento com certificação Leed. O projeto executivo foi fechado em meados deste ano e enviado ao Green Building Council, nos Estados Unidos, para o chamado design view, que é a parte de pontuação em projeto. Nós obtivemos 37 créditos, de 40 necessários.
Agora há as exigências do que deve ser feito durante a obra, então reuniremos toda essa documentação, e aí vem o construction review. É um processo complexo. A proposta de fazer uma Copa verde é inédita. Nós e o governo assumimos essa idéia por várias razões, que vão desde o marketing até os aspectos educacionais. O interessante nesse processo é educar, e o projeto tem que ser pensado para isso, não adianta fazê-Ia do meio para o final. Do contrário, dá para certificar? Dá, mas custa muito mais caro e tem que começar tudo de novo. Acho que 5% é uma boa média de custo extra. Há inclusive a iniciativa - e o Eduardo pode falar melhor sobre ela - do Vicente [de Castro Mello], sobre a Copa verde. Devemos aproveitar isso como uma bandeira.
ECM Na revista Finestra 64 há uma entrevista muito interessante com o Vicente e o lan [Mackee]. Eles idealizaram o Plano Copa Verde, que é justamente essa proposta de fazermos uma Copa voltada para a racional idade, a sustentabilidade. É a chance que temos de mostrar ao mundo que estamos no caminho certo.
Na África eles não tiveram essa oportunidade, pois pegaram o bonde andando, por assim dizer, alguma coisa foi feita, mas não na totalidade. Nós que estamos iniciando o processo temos a obrigação de fazer as coisas da maneira correta. Evidente que não são apenas os estádios, mas toda a infraestrutura para a Copa ¬aeroportos, hotéis etc. - que deve ter essa visão de sustentabilidade. A obra do estádio de Brasília está inscrita para a certificação Leed. A equipe dos Estados Unidos que está trabalhando no nosso acompanhamento é a mesma que acompanhou os cinco estádios certificados lá. A certificação é uma decisão do cliente, porque é ele que a solicita, e não o arquiteto ou a construtora. Mas vale a torcida e todo o esforço que estamos fazendo para mostrar um bom trabalho no final.
FM Antes de finalizar, há uma questão a ser levantada pela arquiteta Viviane Moscoso, da Schott.
Viviane Moscoso Estamos falando muito em Copa verde, todos pensam nisso. Então, gostaria de saber se vocês vão conseguir viabilizar a utilização de energia fotovoltaica nos estádios.
ECM Vamos utilizar, sim. Temos todo o estudo desenvolvido e achamos isso importantíssimo, pois a questão energética pesa bastante na sustentabilidade. O estádio gasta muita energia e precisa produzi-Ia. Estamos trabalhando bastante esse aspecto e tentando viabilizar a questão legal de venda da energia produzida para a rede.
SC Na Arena Cuiabá a certificação que está em curso não considera a geração de energia solar, mas está em andamento um trabalho que envolve a concessionária de energia, pois como o Eduardo disse a questão fundamental é viabilizar a venda da energia gerada para a rede pública. Estivemos na Alemanha para estudar esse aspecto. Nós previmos isso, mas só será realizado se conseguirmos fechar essa questão legal do uso.
“A Copa no Brasil será uma quebra de paradigma: os estádios atuais não têm nada a ver com o que está sendo feito" Sérgio Coelho
MD Em Salvador, na época do concurso, sugerimos a instalação de células fotovoltaicas na cobertura. A proposta acabou não entrando na licitação, mas existe a vontade de fazer isso. Como foi dito, existe uma questão legal. O governo está para fazer um projeto piloto no estádio de Pituaçu, também em Salvador [leia reportagem em Finestra 64], com esse tipo de geração de energia, juntamente com a Coelba [Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia]. É uma experiência verificar como funcionaria a questão da venda, porque o estádio é geralmente utilizado à noite, então a energia teria que ser armazenada ou vendida para a rede pública, para depois ser recomprada para uso no estádio. Essas questões devem ser resolvidas para podermos tomar uma decisão final sobre o uso ou não.
CBCA / Revista Finestra
Publicação: 05/01/2011