Estádios ecológicos para a Copa do Mundo verde

Enquanto o Tribunal de Contas da União identifica falhas, sobrepreço e suspeitas de irregularidades na elaboração de projetos e contratos de pelo menos dois terços das 12 arenas que vêm sendo construídas ou reformadas para a Copa de 2014 no Brasil, em Paris, engenheiros e arquitetos se debruçam atentamente sobre soluções técnicas e de sustentabilidade para eles. Essas propostas foram apresentadas pela Sociedade de Arquitetos GMP, de origem alemã, para as obras de três estádios brasileiros – em Brasília, Manaus e Belo Horizonte.

Durante a apresentação, "Identidade e Sustentabilidade em três Estádios para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil", realizada no âmbito da Batimat 2011, maior salão internacional da construção civil, promovido de 7 a 12 de novembro último na capital francesa, Martin Glass, diretor da GMP, enfatizou que os projetos – idealizados por Volkwin Marg e Hubert Nienhoff – terão a certificação ambiental LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), do Green Building Council.

A certificação LEED permitirá padronização na gestão de resíduos gerados no canteiro de obras bem como economia de água e energia durante sua utilização em eventos esportivos posteriores – o que, no médio prazo, resulta em custos menores. Por outro lado, tanto o Arena da Amazônia quanto o Mané Garrincha de Brasília e o Mineirão de Belo Horizonte já haviam saltado às principais manchetes dos jornais, por suspeitas de alta injustificada dos custos: o estádio amazonense apresentou sobrepreço entre R$ 71,2 milhões e R$ 85 milhões – 17% do valor inicial da obra; o preço da arena mineira pulou de R$ 426,1 milhões para R$ 743,4 milhões, a exemplo do que se verificou também no antigo estádio Mané Garrincha, cujo orçamento oscilou entre R$ 740 milhões e R$ 696 milhões, ao sabor da decisão de demolir ou reformar.

À sombra do exponencial encarecimento das obras, Martin Glass explicou que critérios de sustentabilidade vêm sendo agregados à construção de estádios desde a Copa da Alemanha e da África do Sul, quando ambos os campeonatos deram o pontapé inicial ao programa "Gol Verde", que definia metas de performance ambiental para estes eventos esportivos.

No entanto, em um primeiro momento, a escolha dos aspectos a serem integrados às obras acabou sendo delegada aos proprietários dos estádios, em geral o poder público. "Na planta, alocamos todo o nosso esforço para integrar várias metas de sustentabilidade aos projetos, mas não há como influenciar de fato em várias etapas, como na gestão de água e energia, ou nos meios de transporte até o local", justifica Glass.

Agora, com as certificações LEED e consequente padronização, há, segundo o diretor da GMP, "uma abordagem mais holística, considerando não só os aspectos técnicos do projeto, mas também regras de conduta no tocante à escolha do local, procedimento de construção e operação".

Assim é que o Arena da Amazônia, para 45 mil espectadores, está localizado diretamente no eixo viário central, que liga o aeroporto ao centro da cidade, e integra um parque esportivo a um sambódromo, instalações de atletismo, ginásios de multiuso e um centro de natação. Sua concepção ecológica holística levou em conta fatores como localização, cronograma de construção, trechos de transporte, gestão de água e lixo, consumo de energia e sistemas de regulação e controle.

Água da chuva

Aproveitando a topografia natural, prevê a construção de grandes vigas-caixão em aço que funcionarão como calhas para captar a grande quantidade de água das chuvas tropicais. As superfície do teto e da fachada são feitas de um tecido de fibra de vidro, cujo revestimento low-e reflete a irradiação de calor e tem um efeito refrescante, reduzindo a necessidade de refrigeração artificial.

Segundo Martin Glass, a intervenção no Mineirão, tombado pelo Patrimônio Histórico, visou "adaptar o prédio histórico do ponto de vista funcional, técnico e infraestrutural às exigências atuais de uma arena de futebol, agregando medidas como o consumo de energia e água, o balanço ecológico dos materiais utilizados, o emprego de instalações técnicas eficientes, e uma permanente monitoração na utilização futura", sem, contudo, ferir a essência do projeto assinado pelo projetistas Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Caspar Garetto, nos anos 1960.

Quanto ao estádio de Brasília, os arquitetos da GMP desenvolveram o projeto de uma esplanada em torno do estádio, com uma peculiar "floresta de pilares" e uma cobertura suspensa de duas camadas, "em perfeita sintonia e respeito ao ambiente arquitetônico e urbanístico de Brasília".

Brasil foi o tema da feira

Apoiada em duas vertentes – sustentabilidade e acessibilidade a portadores de dificuldades motoras –, a última edição da Batimat, maior evento da construção civil realizado a cada dois anos em Paris desde 1959, teve o Brasil como convidado especial. Vitrine do setor e polo gerador de negócios, a feira reuniu 2.382 expositores, dos quais 44% provenientes de 55 nações estrangeiras, e 380 mil visitantes de 171 países, ocupando área superior a 200 mil metros quadrados.

Entre os visitantes, a Batimat 2011 recebeu uma missão empresarial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que, por meio do Conselho Superior da Indústria da Construção (Consic ) e do Departamento da Indústria da Construção (Deconsic), organizou eventos para ampliar as oportunidades de negócios entre brasileiros e estrangeiros, entre eles visitas técnicas, seminários e cursos.

Integraram também a delegação brasileira representantes da Fundação Vanzolini, que trouxe ao País o sistema francês de certificação HQE (Haute Qualité Environnementale), metodologia que originou o Processo AQUA, o selo ambiental pioneiro no Brasil. Também participaram diretores do Sindicato da Indústria da Construção Paulista (Sinduscon).

Crescimento

A programação oficial foi aberta com o seminário internacional "Construbusiness – Brasil rumo a 2022: Planejar, construir, crescer". Estiveram presentes a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e a secretária nacional da Habitação, Inês Magalhães.

Fonte:

CBCA / Diário do Comércio
Publicação: 21/11/2011

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