Excelência em Aço: Entrevista com o Arquiteto Siegbert Zanettini

O Portal Metálica entrevista o Arquiteto Siegbert Zanettini:

Arquiteto e urbanista formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo - FAUUSP, iniciou a carreira de docente na mesma escola e, ao lado do exercício da profissão, destacou-se como professor e estudioso de arquitetura. Em entrevista ao Portal Metálica fala sobre as vantagens do aço para a construção civil. 

Portal Metálica - Como teve início sua história com a arquitetura do aço?

Siegbert Zanettini - Os primeiros experimentos aconteceram quando utilizei trilhos de bondes em São Paulo, em soluções como treliças. Na época, não existiam siderúrgicas nem metalúrgicas que fabricassem perfis, tínhamos de contar com o trabalho dos serralheiros. Em 1972, fiz um estudo de projeto para a De Maio Gallo SA, industria de escapamento de automóveis. Pediram um projeto para a área de produção da fábrica, com cerca de 17.50 mil m2 e para a área de estoque (anexo) de 1.500 m2. Depois de uma análise minuciosa do layout, cheguei a conclusão que seria necessária à construção de amplos vãos, devido ao abrigo de máquinas, pois não poderia haver excesso de pilares.

Por conta disso, o material que mais se adequava era o aço. Além disso, a empresa estava instalada em um bairro da zona leste e teria de mudar o quanto antes para o novo pátio fabril, em Guarulhos. Como era preciso agilidade na construção e devido à robustez das peças, mais uma vez as estruturas metálicas se mostraram como as mais apropriadas.
Isso me tornou pioneiro no sistema. Sem contar a rapidez, pois enquanto estavam sendo executadas as fundações, em cerca de três meses, as estruturas eram confeccionadas na fabrica Pierre Saby. O resultado foi magnífico. A estrutura foi montada em 35 dias e o fechamento em 40 dias. Ao todo, foram necessários cinco meses, enquanto nos moldes convencionais demoraria dois anos. Vi a importância se o sistema fosse incorporado à tecnologia brasileira. Na verdade, abri um novo caminho. Até então, só tinha feito obras com outros sistemas, que gastavam mais tempo, geravam desperdício, etc. Me convenci de que o caminho para a construção era a sua industrialização total. Transformando o canteiro de obras, não em local de construção, mas, sim, de montagem. 

PM - O senhor chegou a estudar “as propriedades do aço” ?

S.Z -Tive de estudar muito para realizar tudo isso, em um momento onde não havia disciplinas nas escolas de arquitetura e engenharia. Com minhas experiências e conclusões fui criando a história do aço no Brasil, que se confunde ao meu trabalho. Nesta época não havia associações, indústrias, nada que se referisse ao assunto. Consegui eu mesmo montar toda a teoria sobre o aço. Consegui escrever artigos importantes sobre o material, que passaram a servir como referência.

PM - Em países europeus, os arquitetos fazem uso das estruturas metálicas em vários tipos de obras, incluindo edifícios administrativos. Por que isso não ocorre aqui?

S.Z - Ainda hoje se recente da formação de especialista nesee sistema, principalmente arquitetos, bem como engenheiros calculistas. A industria agora se aparelhou para isso. Hoje trabalhamos com perfis soldados. As indústrias menores não tinham condições de comprar os perfis prontos, tinham de construir a partir da chapa (corte, soldagem, usinagem, etc). Lá fora isso já era pronto. Não tínhamos nem estrutura nem economia, isso aumentava o custo em torno de 15%. Fora os tabus existentes. Alguns não sabiam, sequer, que o aço não enferruja. Colocavam mil obstáculos. Fui rompendo isso ano a ano. Hoje já temos indústrias produzindo perfis prontos. Sem contar que existem cerca de 500 indústrias metalúrgicas que trabalham com o aço. Americanos e japoneses trabalham com aço desde 1920. Estudei e visitei diversas obras pelo mundo afora.

PM - Do ponto de vista arquitetônico, o que é mais interessante de se aplicar o aço ou o concreto?

S.Z - Cada material tem seu valor e uso correto de aplicação. Ainda utilizo muito o concreto. Não existe material bom ou ruim, mas sim com usos adequados. Vãos pequenos comportam o concreto, por exemplo. Devido à grande aplicação, no Brasil, a tecnologia do concreto evoluiu muito. É um dos países que mais utilizam o concreto.

PM - A indústria do aço esta preparada para atender a construção civil?

S.Z - Sim. Tanto as produtoras de perfis quanto execução e montagem têm estoque abaixo da produção máxima. Se tivermos um boom na construção, temos condições de atender. Todos os centros de distribuição no país são de aço. O Brasil precisa disso. Um exemplo é em Manaus, cujo centro de distribuição tem 175 mil m2.Todos os estádios da copa, por exemplo, terão cobertura metálica.

PM - A crise mundial econômica tem afetado o uso do aço na arquitetura e construção?

S.Z - Sim afetou. Na verdade a indústria da construção inteira, e, com o aço não poderia ser diferente. Houve um arrefecimento desde novembro de 2008. As que estavam para ser contratadas pararam e pediram um tempo para a execução

PM - O aço é uma vantagem no que se refere a sustentabilidade?

S.Z - Sem dúvida, é a tecnologia mais limpa que existe. Trata-se de um material 100% reciclável. A obra Siderúrgica Dedini, em Piracicaba, é um exemplo, toda feita com material de sucata. Lá eles não compram minério, mas tudo o que pode ser transformado em vergalhão de aço para execução de estrutura de concreto, inclusive, de altíssima qualidade. O aço é o que garante o retorno mais rápido do capital investido. O cimento (co2) é altamente poluente. Outra vantagem do aço, por exemplo, é que leva menos pilares e vigas, por conta disso necessita de menos fundações.

PM - Na sua opinião, o que de fato é uma construção sustentável?

S.Z - É a obra que reduz gasto com energia, usa as condições climáticas naturais, oferece conforto térmico (ventilação natural), que utiliza a máxima racionalidade produtiva, que reutiliza reciclagem no seu maior estágio, que encurta significamente o tempo de obra e favorece o retorno do capital investido. Além disso, é aquela que conta com parque produtivo e equipe técnica que entenda isso.

PM - Hoje o Cenpes ainda é a maior e mais complexa obra feita em aço no Brasil?

S.Z - Sim. Trata-se de um paradigma para a construção.Lá o canteiro foi transformado em local de montagem e não de execução.

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