Com a nomeação, o executivo passou a ser o brasileiro com o posto mais avançado na direção do maior grupo siderúrgico do mundo, passando a se reportar diretamente a Michel Wurth, responsável global dos negócios de aços longos. Wurth compõe a diretoria executiva da empresa, comandada pelo principal acionista, presidente e chairman da empresa, o indiano Lakshmi Mittal.
O contato de De Paula com o universo siderúrgico ocorreu já na infância em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, quando seu pai trabalhava como advogado na CSN.
Antes de assumir o comando da divisão de aços longos nas Américas, o executivo esteve durante quase onze anos a serviço de operações do grupo no exterior. De 2001 a 2008, ocupou cargos na diretoria da usina na Argentina, a Acindar.
Após isso, foi para a Europa, onde passou por cargos de comando em operações na Espanha, na República Tcheca, na Polônia, em Luxemburgo e no Marrocos, chegando também a fazer parte do Comitê Executivo da ArcelorMittal. No cargo atual, sucede o também brasileiro Gerson Menezes, que se aposentou.
Juntos, os negócios de aços longos da ArcelorMittal nas Américas e na Europa faturaram US$ 12,55 bilhões no primeiro semestre, com vendas de 12 milhões de toneladas de produtos.
No total, a ArcelorMittal obteve receita de US$ 47,3 bilhões de janeiro a junho, com alta de 26% sobre os US$ 37,6 bilhões apurados em igual período de 2010.
A área de aços longos do grupo nas Américas abrange 21 usinas siderúrgicas, distribuídas pelo Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Costa Rica e Trinidad e Tobago. Juntas, somam capacidade instalada de 15 milhões de toneladas/ano. (EL e IR)
No Brasil, as ameaças residem, sobretudo, na dificuldade para exportar, no menor ritmo de crescimento da economia e na competição com o aço importado - seja pela via direta seja pelas importações de produtos com forte conteúdo siderúrgico.
A divisão de De Paula traçou para o Brasil investimentos de US$ 2 bilhões dentro de um planejamento estratégico para o período de 2010 a 2015. Mas, o novo cenário pode comprometer esse pacote, que representa dois terços do total na sua área de atuação.
Entre os projetos em aços longos, o único garantido até agora é a duplicação - para 2,4 milhões de toneladas em aço bruto - da capacidade da usina de João Monlevade (MG), com desembolsos estimados em US$ 1,2 bilhão.
Os US$ 800 milhões restantes dependerão do comportamento da economia brasileira e do consumo de aço no país, cujas expectativas se mostram menos otimistas em relação a um ano atrás. De Paula conta que a siderúrgica traçou o plano estratégico lastreado em um crescimento médio anual de demanda entre 7% e 8%, mas, pelo menos neste ano, o avanço do consumo deverá ser inferior, ficando da faixa de 4% a 5%.
No projeto de expansão da usina Monlevade, a ArcelorMittal já encomendou equipamentos e passa a trabalhar agora na contração da montagem. O objetivo é finalizar as obras em outubro de 2012.
No negócio de aços longos, Monlevade é o principal empreendimento em curso no país e inclui, além de um novo alto-forno, a instalação de um terceiro laminador para expandir a produção anual de fio-máquina: dos atuais 1,15 milhão de toneladas para 2,3 milhões de toneladas. Ao todo, devem ser investidos ao redor de US$ 500 milhões neste ano e mais US$ 800 milhões em 2012.
Esse projeto foi colocado como prioridade no grupo por sua vantagem competitiva, dado que terá 100% de suprimento próprio de minério de ferro, extraído na mina do Andrade, a 11 quilômetros da usina siderúrgica.
Por isso, a duplicação em Monlevade ocorre concomitantemente a investimentos, de US$ 75 milhões, para dobrar a produção da mina, que chegará a 3,5 milhões de toneladas por ano.
Devido à penetração de aço importado e do arrefecimento da economia após esforços do governo para segurar a inflação, De Paula diz estar pessimista quanto ao desempenho do mercado na segunda metade de 2011. O câmbio é outro ponto de preocupação e considerado um inibidor ao crescimento. "Se o dólar seguir a R$ 1,60, as empresas não vão realizar os investimentos que anunciaram", afirma o executivo. O real valorizado já abateu fortemente a capacidade de exportação da empresa: era de 1 milhão de toneladas ao ano; atualmente, está em 400 mil.
No momento em que a competitividade das empresas é cada vez mais colocada à prova, o executivo terá à frente da divisão de longos nas Américas a tarefa de integrar as operações na busca de sinergias entre elas.
Mercados em crescimento nas Américas do Sul e Central - como Peru, Colômbia e Panamá - serão supridos pelas operações que estiverem melhor posicionadas, como a usina de fio-máquina em Trinidad e Tobago ou as unidades nos Estados Unidos, que ganharam poder de competição com a desvalorização do dólar.
Já em mercados onde as perspectivas de negócio se tornaram mais negativas, como o americano, o foco será em ganhos de produtividade e em inovação. "A palavra mais importante é ser competitivo", aponta De Paula ao falar sobre os desafios que surgirão no caso de um agravamento da crise americana.
O executivo informa que, no momento, a ArcelorMittal opera no nível de 60% da capacidade das usinas americanas. "Está difícil ganhar dinheiro hoje nos Estados Unidos", observa.
Valor
Publicação: 12/08/2011