Iniciativas tecnológicas contribuem para o aumento da produção do gusa verde

O setor guseiro, alimentando seus fornos com carvão vegetal, deixou de lançar na atmosfera 19 milhões de toneladas de C02 em 2008. Ao mesmo tempo, com suas florestas plantadas, liberou mais de 2 milhões de toneladas de oxigênio contribuindo para a redução dos gases do efeito estufa.
 
Os dados foram apresentados pelo presidente do Sindifer (Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais), Paulino Cícero de Vasconcelos, no III Painel sobre a Indústria do Gusa – Produtores Independentes realizado terça-feira (24), em Ouro Preto (MG).
 
O painel fez parte da programação do 39º Seminário de Redução de Minério de Ferro e Matérias-Primas & 10º Simpósio Brasileiro de Minério de Ferro promovidos pela ABM – Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração de 22 a 26, no Centro de Convenções da UFOP.
“Dos 35 milhões de toneladas de ferro gusa produzidos no Brasil, em 2008, 10,4 milhões consumiram carvão de madeira plantada pelos guseiros independentes”, disse ele, ressaltando que diversas iniciativas de caráter tecnológico têm sido desenvolvidas pelo setor para aumentar a produção e melhorar o desempenho das unidades produtivas, como injeção de finos de carvão nas ventaneiras, implantação de co-geração e unidades de sinterização. “Muitas usinas em Minas Gerais já operam com consumo abaixo de 2,5m3 de carvão por tonelada”.
 
O dirigente também destacou outro dado significativo da atividade gusa-verde: a geração de postos de trabalho. Segundo ele, a produção de um milhão de tonelada de gusa produzido com carvão vegetal regularmente plantado gera em média 32 mil empregos, sendo 8 mil diretos e 24 mil indiretos, sem contar os postos de trabalho gerados na fase da mineração.
 
“Não há dúvida que a indústria do gusa produzido via carvão vegetal é não só tecnologicamente sustentável como geradora de emprego”, concordou o consultor Murilo Mourão, que falou sobre ‘Minério de Ferro para a indústria do gusa’.
 
Menos de 5% dos produtores de gusa possuem mina própria, competindo no mercado para abastecer seus fornos com as grandes siderúrgicas. “Devido a escassez crescente de minério de ferro granulado, a solução para os produtores independentes será implantar unidades próprias de sinterização, pelotização convencional e aglomeração a frio em volumes compatíveis com suas necessidades”, recomendou Mourão,lembrando que existe tecnologia nacional.
 
O engenheiro Sérgio Scherer (Minitec) ressaltou os progressos dos produtores independentes na direção de atenderem todas as condições do gusa verde, mas enfatizou que a modernização dos processos de carbonização, muitos em andamento, é imperativa para acabar com as emissões de poluentes na atmosfera.
 
“A carbonização é fundamental ao ciclo produtivo do gusa verde, mas a fumaça deve ser captada e queimada. O produto de combustão pode ser utilizado parcialmente no próprio processo, evitando-se a queima de parte da madeira enfornada, com o conseqüente aumento da produtividade. O saldo dessa energia pode ser usado para secar a madeira, encurtanto sensivelmente o tempo entre o corte e o enfornamento”.
 
Um processo eficiente de carbonização, explica o engenheiro, necessita de menos quantidade de madeira para produzir carvão vegetal do que um sistema tradicional, além de produzir um carvão vegetal mais homogêneo com melhor aproveitamento no mini alto-forno. Ou seja, é competitivo econômica e ambientalmente, favorecendo cada vez mais a produção do gusa verde, uma tecnologia totalmente nacional e cada vez mais reconhecida mundialmente.
 
“Gusa verde quer dizer aço verde e, portanto devemos cada vez mais incentivar sua produção, já que as condições do Brasil para sua produção são plenamente favoráveis, como os avanços extraordinários alcançados na produtividade de reflorestamento”, defendeu ele, acrescentando que é preciso criar ou ampliar as linhas de apoio de crédito aos produtores independentes por se tratar de um modelo intensivo de capital como qualquer outro da economia nacional.

Mercados do gusa

Da mesma forma, ao falar sobre o mercado doméstico de gusa, Bernardo Valadares Gontijo (Grupo AVG) destacou a importância do insumo produzido a partir do carvão vegetal, que abastece importantes setores industriais como as fundições de ferro e aciarias elétricas. Estas, abastecem até 40% da carga metálica de seus fornos com o carvão vegetal adquirido junto aos produtores independentes em complemento à sucata, que não existe em quantidade suficiente no mercado
 
O engenheiro Paulo Afonso de Faria Gomes (Grupo Queiroz Galvão) deixou uma mensagem positiva sobre o gusa brasileiro a carvão vegetal no mercado externo. “Por ser um produto diferenciado, sem contaminantes de enxofre, é muito valorizado lá fora”.
 
Ressalte-se que, além dos produtores independentes, algumas usinas integradas de produção de aço vem utilizando com sucesso o carvão vegetal como redutor em seus altos-fornos, demonstrando o esforço do segmento para melhorar o balanço de carbono no País. Em 2008, as usinas da ArcelorMittal, em Juiz de Fora e no Vale do Aço, a Vallourec Mannesmann, em Belo Horizonte, e as usinas de Divinópolis, Barão de Cocais, Contagem e Sete Lagoas do Grupo Gerdau produziram aproximadamente 2 milhões de toneladas de aço, utilizando carvão vegetal.
 
Participando do painel, o gerente executivo do Polo de Excelência Mínero Metalúrgico de Minas, Gerais, Renato Ciminelli, convidou o setor guseiro a se integrar a essa plataforma de gestão do conhecimento que objetiva, principalmente, a indução de novos negócios e a abertura de postos de trabalho. “Tragam suas propostas para que elas sejam incluídas em nossa agenda de discussões, que visa resgatar a importância da indústria mínero-metalúrgica na economia de Minas Gerais”, conclamou.
 
Criado em 2007 pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de MG – Sectes, o Pólo atua como um instrumento de interlocução e articulação entre os atores de demanda, oferta e fomento de conhecimentos e ferramentas de inovação, bem como de indução, financiamento e organização de ambientes, infraestruturas, estruturas e competências efetivas de classe mundial para geração, difusão e aplicação acelerada de conhecimentos em inovação, competitividade, agregação de valor, novos negócios e sustentabilidade.
 
Desde o início, a ABM participa do comitê gestor do Pólo, que conta com órgãos do Governo, entidades industriais, instituições de pesquisa e de ensino superior. Nesses dois anos já desenvolveu propostas de alto desempenho e geração de resultados, entre elas, destaca-se a rede internacional de P, D & I; grupos cientificos orientados para sustentabilidade. preservação,  remediação e mediação ambiental; e o consórcio minero-metalúrgico para a formação e qualificação profissional em MG.
 
Os debates do III Painel sobre a Indústria do Gusa – Produtores Independentes foram mediados pelo engenheiro João Pignataro Pereira, técnico da Coordenadoria Geral de Indústrias Intensivas em Recursos Naturais da Secretaria de Desenvolvimento da Produção do MDIC.

Fonte:

ABM Brasil
Publicação: 27/11/2009
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