As janelas dos edifícios brasileiros devem exibir melhores índices de desempenho já a partir do inicio de 1988, afastando os problemas de falta de estanqueidade do ar e, principalmente, à água, comuns especialmente em edifícios residenciais com mais de 10 m de altura. Além disso, procedimentos inseridos no espírito de programas como Qualihab, desenvolvido pelo governo paulista a partir da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), também devem impulsionar a melhoria da qualidade nesse item, responsável por quase 10% do custo de moradias populares. O motor dessas mudanças é a revisão da NBR 10821/EB1968 (Caixilho para edificação janela especificação), norma pioneira e que estava sensivelmente defasada sua última versão ocorreu em 1989, há uma década, portanto.
Como é habitual nesses casos, as mudanças estão acontecendo porque os principais integrantes da cadeia de consumo e fiscalização da qualidade, os construtores e técnicos dos laboratórios de controle tecnológico, estavam reclamando bastante. De maneira geral, pode-se dizer que a maioria das janelas dos edifícios não passaria pelo teste de ensaios rigorosos em itens como estanqueidade ao ar e à água, destaca a pesquisadora do IPT e presidente da comissão revisora da NBR 10821, Vera Fernandes Hachich.
A pesquisadora explica que existem diversos motivos técnicos para proceder à revisão da norma. A normalização atual define parâmetros de desempenho relacionados com a resistência a cargas uniformemente distribuídas – vento ( o cálculo das pressões de ensaio é feito para alturas de janelas até 10 m, coeficiente aerodinâmico de 1,5 e parâmetros definidos de localização e topografia), estanqueidade à água e ao ar com esforços de uso estes últimos para qualquer tipo de edifício. O mais problemático deles, nos quais as pressões relativas às cargas de vento podem ser calculadas, conforme uma fórmula que envolve altura de instalação da janela, localização ( cidade, região do País, posicionamento geográfico etc) e a adoção de um coeficiente aerodinâmico, que pode variar, em módulo, de 0 a 2,5.
Construtores pouco comprometidos com a qualidade, ou restrito conhecimento do significado das exigências, manipulam esses valores, recorrendo a artifícios como a da redução do coeficiente aerodinâmico ou de inventar montanhas à frente do prédio para colocar janelas inadequadas, mais baratas e geradoras de problemas sério quando em uso real. È comum edifícios de 20 m de altura apresentarem coeficientes até menores que os da casa térrea ao lado, diz Vera. Esses problemas são mais freqüentes em edifícios residenciais, pois os imóveis comerciais têm, quase sempre, consultores e projetos de esquadrias, e fiscalização especializadas na instalação. Nessa área, faltam normas específicas, como as de fachada-cortina, por exemplo, lacuna que também deve ser sanada em 1988, com a instalação de comissão normalizadoras para esse tipo de esquadria.
O problema com as esquadrias foi detectado há bastante tempo e a busca de soluções também. Carta do IPT enviada à Afeal ( Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio) em dezembro de 1994 já alertava sobre essas questões e listava as providências necessárias. Há cerca de um ano, os fabricantes de esquadrias de alumínio reunidos na Afeal, que conta com 65 associados atualmente, resolveram enfrentar a questão, com início dos trabalhos de uma comissão integrada também por fabricantes de esquadrias de aço e PVC, técnico do IPT e consultores de esquadrias.
Chegamos ao consenso de que deveríamos revisar a norma existente, já bastante defasada. Os principais construtores e consultores de esquadrias reclamavam essa revisão há algum tempo, constata o vice-presidente da Afeal, André Mehez filho.
O longo tempo transcorrido entre a revisão da norma e a realidade do mercado impôs defasagem gritantes. Componentes como gaxetas, mástiques, selan-tes e colas especiais de alta qualidade, entre outros, propicia-dos pelo avanço tecnológico e a abertura às importações, eram quase impensáveis há dez anos. Os fabricantes de esquadrias, de alguns anos para cá, aceleraram a atividade normalizadora. Existem hoje quatro grupos de discussão ( veja quadro), que devem gerar normalização brasileira sobre itens como projeto, fabricação e instalação de guarda-corpos, parafusos e fixadores, painéis colados e métodos de instalação. As mudanças em curso na NBR 10821 visam cobrir lacunas e deixar bem claro os parâmetros de desempenho de esquadrias em edificações classificadas por tipos de uso ( residenciais térreas e em edifícios, comerciais, entre outros) e por regiões do País ( veja o quadro). Queremos corrigir as distorções com a classificação por região e classe de uso, diz Vera.
Os coeficientes devem ser elevados em esquadrias utilizadas em prédios com mais de 10 m de altura, mas rebaixados para casas de até dois pavimentos, por exemplo. Os ensaios para esquadrias utilizadas em casa térreas ou sobrados não podem ser iguais aos de esquadrias empregadas em edifícios, enfatiza o engenheiro o consultor de esquadrias Nelson Firmino, integrante da comissão revisora da norma. Para José Carlos Rosa, da Multiplast, empresa que produz esquadrias de PVC, a atualização das normas é bem vinda, mas ele alerta para necessidade de fiscalização. Senão, na prática pouco resolve.
A norma em gestação também deve ajustar as exigências e parâmetros em relação à estanqueidade ao vento e à água para números mais próximos dos praticados em países do Primeiro Mundo e mesmo Mercosul. Na definição dos parâmetros como deformação máxima admissível para esquadrias, por exemplo, a norma brasileira tem exigências 25% menores que as equivalentes argentinas. As normas portenhas para fachadas contínuas admitem como deformação máxima a resultante da divisão da largura do vão por 200, em fachadas-cortina. No Brasil, esse mesma equação exige a divisão da largura do vão por 150, apenas. A oferta no mercado brasileiro de perfis, componentes e vidros com qualidade equivalente aos disponíveis nos Estados Unidos, Europa e Argentina , entre outros, permite posicionar as exigências aqui no mesmo nível desses países, raciocina Firmino.
A elevação da qualidade e o atendimento às normas não deve encarecer as esquadrias. Com a modernização dos processos e dos equipamentos, os principais fabricantes têm condições de atender aos novos parâmetros e atingir taxa de conformidade elevada. Segundo Mehez Filho, o Brasil precisa de cerca de seis anos para alcançar a cultura da ISO.9000; e avalia que, hoje, boa parte dos associados da Afeal já passou por processos de modernização dos equipamentos, treinamento de mão de obra e informatização de projetos e produção. Os fabricantes terão de se preparar para atender às normas, confirma Antonio Molina Spina, presidente Afeal.
Os mais atentos às mudanças já se preparam para atender e essas exigências. A Adalume, por exemplo, fabricante de esquadrias metálicas com sede em Embu-SP, não perdeu tempo e ensaiou esquadria no laboratório L.A. Falcão Bauer, sob as condições que devem vigorar a partir de 1988. Segundo Domingos Moreira Cordeiro, diretor da empresa e integrante da comissão revisora da norma, a esquadria ensaiada, uma porta de correr de quatro folhas, de alumínio, passou nos testes apenas com pequenas mudanças no projeto original de drenagem e praticamente sem acréscimo de custo.
O arquiteto Henrique Cambiaghi, da CFA Cambiaghi Arquitetura e vice-presidente da Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) integra um grupo de trabalho tripartite, com o Sinduscon-SP e a Afeal, que desenvolve projeto visando justamente melhorar a qualidade das esquadrias, sem aumentar o custo. Detectamos, nesse grupo de trabalho, que seria possível melhorar a qualidade das esquadrias sem aumentar seu custo, com a padronização dos vãos e a coordenação modular dos vedos e esquadrias.
Capitaneado pelo Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sinduscon-SP, sob a coordenação técnica do CTE, o projeto tem também o mérito de unificar três entidades distintas ( Sinduscon, Asbea e Afeal) e deve gerar, em meados de 1998, recomendações técnicas para a norma de Coordenação Modular da ABNT nas áreas de vedação e esquadrias. A interface dessas duas áreas não é casual, explica a engenharia Maria Angélica Covelo Silva, do CTE. Os fabricantes, em reuniões com construtores e arquitetos, criticaram a anarquia dos projetos, que impossibilitava a fabricação de esquadrias em escala.
A experiência da Encol, que definiu 23 tipos de vão para todos os seus edifícios, com as respectivas esquadrias produzidas pro fábrica própria, deverá servir de norte ao grupo. Para isso, foi contratado o mesmo consultor que desenvolveu o trabalho na Encol e que será o responsável pela formatação do projeto e da coordenação dos trabalhos de campo (pesquisa com construtoras para verificar existência de vãos-padrão, variabilidade, racionalidade dos vãos adotados, entre outros itens)
Segundo Maria Angélica, o trabalho verificará a racionalização das vedações/esquadrias, as normas existentes e até as posturas municipais relativas a essas questões. O resultado final deverá ser a proposta de sistema básico de coordenação modular e vinculação dos componentes, com ajustes dimensional, relação de pés-direitos, alturas de vigas e lajes com as esquadrias, entre outros. Criaríamos, assim, um sistema que amarraria alvenaria/estrutura/esquadrias e garantiria a modulação, explica Maria Angélica. Ao Final, os resultados seriam apresentados às empresas que participaram do projeto como patrocinadores, em workshop, e seria confeccionado um Manuel com essas recomendações. Para Cambiaghi, com isso os fabricantes poderão superar a bagunça de vãos existente e ter segurança para padronizar seus produtos.
O subproduto disso tudo, imaginam os técnicos, pode ser um manual com todos os tipos de esquadrias, suas dimensões e aplicações em vão confeccionados com blocos e vedos de diversos tipos. Essa providência deve facilitar a vida de arquitetos e construtores, com redução do disperdício, imagina Cambiaghi. De quebra, todos ganhariam com o provável barateamento das esquadrias, pela produção em escala.
O vice-presidente da Asbea explica que, sem seu escritório, os projetos buscam essa padronização dimensional de vedos e esquadrias, como no do edifício residencial situado na Lapa, zona oeste de São Paulo, por exemplo, com vãos padronizados e coordenados com a alvenaria de blocos cerâmicos. Ali, os apartamentos de 69 m² de área útil têm esquadrias de correr de alumínio anodizado preto moduladas em 60 cm x 60 cm, de acordo com o vão da alvenaria. A arquiteta Cecília Harumi Deyama Saito, da construtora Pinto de Almeida, responsável pela obra, diz que essa padronização favorece a produtividade e a qualidade das obras. Assim, fica mais difícil errar no canteiro.
È consensual, entre os técnicos, que a estanqueidade à água é o ponto mais preocupante em esquadrias, embora a falta de estanqueidade ao ar seja preceptível mais rapidamente. Prevenir a infiltração da água, porém, exige uma combinação tecnológica que envolve projeto e fabricação com qualidade em todos os níveis da concepção aos materiais utilizados, como gaxetas, mástiques, selantes e colas, além da instalação cuidadosa.
As deformações que comprometem a estanqueidade podem decorrer de projetos inadequados ou componentes mal empregados, segundo Firmino. É comum o fabricante, para economizar, utilizar apenas um fecho e não dois, como seria aconselhável. Selantes de má qualidade, que não raro se desgastam após apenas dois anos de uso, também propiciam a infiltração de água, assim como a ausência de manutenção nos componentes das esquadrias afinal, mesmo bons selantes não são eternos e precisam ser substituídos a casa década, pelo menos.
A construtora paulistana Barbara passou a adotar consultores e projetos de esquadrias depois de constatar as vantagens econômicas geradas por esquadrias projetadas, fabricadas e instaladas com acompanhamento especializado. Até 1992, a Barbara, que atua no mercado de imóveis residenciais e comerciais de médio e alto padrão, limitava-se a contratar o acompanhamento técnico de consultores para verificar projetos e instalação. De 1993 para cá, identificou que a economia propiciada pela contratação de projetos de esquadrias, alem do acompanhamento nas demais etapas desse item, seria substancial. Esse é um subsistema da construção com grande variedade de linhas disponíveis no mercado. Sem projeto específico e um consultor, não teríamos como saber se estávamos comprando um produto barato ou simplesmente inferior, explica o engenheiro Carlos Barbara, diretor de Engenharia da empresa. Com o projeto de esquadrias, segundo ele, é possível racionalizar o dimensionamento, aliando custo menor com melhor qualidade, e utilizar os perfis no limite de sua capacidade, sem sub ou superdimensionamento.
Carlos Barbara cita o exemplo do edifício Ville de Giverny, prédio neoclássico situadono Itaim-bibi, Zona Sul Paulistana, com dez apartamentos, dos quais seis andares-tipo, com 357 m² de are útil cada, três duplex ( 606 m² de área útil ) e um tríplex (775 m² de área útil) e preços entre 1,2 milhão de dólares e 1,85 milhão de dólares por unidade.As esquadrias ali têm projeto com tratamento acústico nos perfis tubulares de alumínio. O custo do projeto, acompanhamento da fabricação e instalação chega a ser irrisório, perto dos benefícios. Barbara afirma gastar com a consultoria, em trabalhos nessa área, 1,5% do custo total das esquadrias de alumínio, percentual que sobe para 2% do valor total das esquadrias quando inclusos acompanhamento técnico e fiscalização. As esquadrias, pela apropriação da Barbara, representam 3,5% do custo de um prédio residencial, ou 7% em edificação com fachada-cortina.
A revisão da norma também visa diminuir as exigências em relação às esquadrias para residências até quatro pavimentos, ao mesmo tempo em que cobrará maior rigor no desempenho das utilizadas em edifícios mais altos.Vera Hachich, do IPT, propõe aos fabricantes de esquadrias padronizadas as metálicas (aço e alumínio) disponíveis no varejo de materiais de construção que adotem uma providência básica para garantir a qualidade: a impressão, nos perfis, da classe de uso e as regiões do País em que podem ser empregados, tipo de residências e categoria de vento atendida, por exemplo. Elementar, essa ,medida evitaria o uso inadequado de esquadrias e obrigaria os fabricantes padronizados a se enquadrarem nas exigências das norma.
Hideo Waki, diretor-gerente da Sasazaki uma das maiores indústrias brasileiras de esquadrias, de cuja fábrica em Marília-SP saem anualmente 1,5 milhão de itens ( janelas e portas) de aço, diz que, dependendo das exigências da norma, a empresa terá de restringir o uso de algumas linhas de esquadrias em edifícios mais altos.E caso precise incrementar seus produtos para instalá-los em edifícios com mais de 10 m de altura , esses itens podem sofrer algum aumento de custo.
Mas a adaptação da linha de produção não é maior preocupação de Sasazaki, que se prepara para receber a certificação ISO.9001 e tem cerca de 90% de sua produção destinada a residências térreas ou sobrados.A preocupação, de fato, é o revés do governo paulista na questão do ICMS, com a perda do 1 ponto percentual que ajuda a alimentar a produção habitacional de São Paulo, com, essa finalidade, o ICMS subiu de 17% para 18% a partir de 1989.Desde então, a CDHU já ergueu cerca de 200 mil unidades habitacionais.Numa conta simples e admitindo que cada unidade tenha recebido, em médias,seis esquadrias, esse números equivalem a 1,2 milhão de esquadrias no total.
Antes mesmo do ICMS voltar à pauta, a CDHU estabeleceu convênio, no âmbito do Comitê de Materiais e componentes Construtivos do Qualihab, com o setor de esquadrias metálicas, que apresentou plano Setorial da Qualidade, com cronograma de 18 meses. Nesse plano setorial estão inseridos vários itens, entre eles as norma em vigor, explica o engenheiro Sérgio Artur de Andrade, coordenador de Projetos de Engenharia da CDHU. Uma comissão composta por integrantes da estatal, do Sindicato de Esquadrias Metálicas, IPT e IBS ( Instituto Brasileiro de Siderurgia) definiu parâmetros para os produtores.
Entre eles, o mais importante: a exigência de estampar nos caixilhos todas as condições de uso, fabricante, classe, região e tipo de proteção contra a corrosão. Isto é fundamental para garantir a qualidade dos caixilhos e permitir identificar, em caso de problemas, qual o fabricante, quem instalou e se o uso estava adequado, diz Andrade.Parte de documento mais amplo que já adota os parâmetros da nova forma, o atendimento a esses itens integrará a partir de agora os editais de concorrência da CDHU.
O presidente do IE ( Instituto de Engenharia), Claudio Dall Acqua, diretor-presidente da Construtora Dall Acqua, que também atua na área de habitações populares da CDHU, acha positivas essas exigências: Este é o tipo de medida que favorece a industrialização da construção, com qualidade.As construtoras devem ser montadoras e trabalhar na linha da coordenação modular dos componentes construtivos. Caso o exemplo paulista seja seguido, pode-se vislumbrar o início realmente da construção industrializada, com qualidade. Basta abrir as janelas.
Revista Téchne
Autor: Silvério Rocha