Manutenção de Obras: Um Problema Cultural
Por Eng. Paulo Andrade

O ser humano é profundamente incoerente.
Ele cria, e mata. Ele constrói, e destrói ou deixa que destruam. Ele nasce com saúde e se deixa destruir por excessos ou carências provocadas. É uma infindável lista de incoerências.

Isso faz parte da natureza humana, egoísta e contraditória, ou falta de conscientização?

Um dos grandes disparates dessa natureza humana é a falta de aculturamento sobre a importância de manutenção das coisas que constroem, num amalgama de exemplos, desde produtos, valores morais, ou regimes políticos.

Na nossa área de atividades - a engenharia - criamos as construções em geral, as pontes, os grandes ou pequenos edifícios, e fazemos obras publicas ou privadas. Em geral, a falta de Manutenção dessas obras é um verdadeiro descalabro, muito em especial no Brasil.

Na área publica, constroem-se estradas, pontes e viadutos, fazem-se festas com direito de cortes de fitas de inauguração ou quebram-se garrafas de champanhe no lançamento de um navio, geralmente com bons dividendos políticos. Mas, uma vez inaugurada a obra, transcorrido o período de entusiasmo auxiliado pela mídia, sempre sedenta de “novidades” que geram bons faturamentos, a obra é esquecida. Especialmente, quando termina uma gestão administrativa e é substituída por outra , aquela obra é mal cuidada, ou abandonada ás inclemências do tempo.

Decorridos alguns anos, em geral com propósitos publicitários para gerar elogios ou denegrir as gestões anteriores, algumas obras são lembradas, com reparações custosas e que em geral resultam em desconforto para a população usuária, porem geram novas inaugurações.

São comuns os casos de pontes e estradas, parques e jardins, prédios públicos ou instalações feitas para gerar conforto para a população, que é quem paga por tudo isso, ficarem em tal estado de abandono, sem nenhuma manutenção adequada que algumas vezes nem se pode recuperá-las. Surge então a oportunidade de uma nova construção no mesmo local, em detrimento da construção de uma nova obra num novo local, por falta de verba!

Isso nos deixa atônitos, face ao descaso do poder publico que teria obrigação de conservar o patrimônio que cada um de nós ajudou a pagar, mesmo que tenham sido executados por antecessores. Atônitos também, face ao nosso comodismo (incoerente) que não reclama ou não conscientiza a comunidade de seu direito de não ver tais patrimônios abandonados e degradados.
Uma reforma ou reposição pode custar centenas de vezes mais do que manutenções periódicas cujo valor se distribui ao longo do tempo.

Mas essa falta de manutenção não fica apenas na área publica, onde cada cidadão usuário se sente individualmente como um grão de areia impotente, sem se conscientizar de que uma plêiade de cidadãos unidos é como uma rocha, um aglutinado de grãos, muito duro de ser destruído.

Também na área privada no Brasil, são comuns os danos em edifícios com estruturas de concreto ou metálico, com cobertura de vários materiais, instalações hidráulicas domiciliares ou industriais, fachadas de prédios ou construções de ginásios de esporte, em que a manutenção é sempre deixada para amanhã. Mas nesse caso não existe o descaso do poder publico que só espera dividendos políticos e de poder em geral.

Na atividade privada, o proprietário ou empresário não faz a manutenção devida por falsa noção de economia, muitas vezes confundindo uma simples limpeza ou uma pintura maquiadora, com a verdadeira manutenção, que deve ser periódica exatamente para ser econômica e eficaz.

Quando se estabelece um contrato para uma construção, o engenheiro ou a empresa construtora tem a obrigação por Normas e leis, a ter uma definida qualidade. A nosso ver deveríamos evoluir para a criação de ma legislação que obrigasse o cliente usuário, a fazer a manutenção pelo menos por um determinado tempo, de acordo com um manual que lhe seria entregue oficialmente com o final da obra.

Na área automobilística (veja a cultura dos paises do primeiro mundo) para que o proprietário tenha a garantia pelo carro que comprou, ele se obriga a fazer manutenções periódicas, sob pena de não poder responsabilizar o fornecedor. O mesmo se dá com muitos produtos industriais, alguns até empregados em construção.

Entre nós, quando acontece um acidente, muitas vezes por falta de manutenção, antes de se procurar saber se foram feitas as necessárias manutenções, procura-se culpar o engenheiro, construtor ou o projetista.

Felizmente existem boas exceções. Mas notem-se, as exceções, ou sistemas organizados de manutenção, são em geral encontrados em empresas estrangeiras, notadamente norte americanas, européias ou japonesas.

Isso nos faz concluir, sem medo de errar, que o problema de manutenção, em especial de obras, é um problema cultural de nosso povo. Essa cultura da manutenção se faria necessária a partir das escolas primarias, ensinando a criança a cuidar de seus brinquedos e das coisas de sua casa, para irmos até a universidade, onde as consciências são consolidadas.

È calamitoso para não dizer vergonhoso, o que se vê na escola publica, e até em prédios de Escolas de Engenharia. Na nossa USP, pela “famigerada” falta de verbas, a falta de manutenção fica patente em casos de caras reformas. E lá é o nosso reduto da técnica e do ensino.

A conscientização sobre a manutenção como um todo e para tudo, deveria ser de cada um, de cada grupo social, de cada escola, de cada comunidade, de cada pais.

É preciso uma campanha junto a todos, seja do poder publico que deveria sentir o poder do cidadão contribuinte, seja do usuário dessas coisas que deveria ter o aculturamento para ajudar a preservar as obras publicas.

Junto ás obras particulares, sejam nas áreas habitacionais ou industriais, seria preciso mostrar com exemplos e números, com palestras e exposições, o prejuízo causado pela falta de conservação ou manutenção.

A deterioração de tudo que existe na terra, seja de nosso próprio corpo, seja de nossa casa, de nosso automóvel ou do que quer que seja, é sempre o resultado de uma ação de oxigenação. E esse oxigênio, é auxiliado em sua ação, pela poluição atmosférica, pela umidade que não foi evitada e acelerado pela falta da manutenção.

É comum se dizer que isso ou aquilo se oxidou, se enferrujou, se apodreceu, etc., em decorrência do tempo.

Ledo engano e injustiça com a mãe natureza. Não é o tempo que causa todas esses inconvenientes, mas sim a falta da manutenção durante muito tempo. Não fosse assim não existiriam mais a Torre Eiffel, a Ponte da Torre em Londres, e as pontes que não foram "incoerentemente” destruídas pela guerra em toda a Europa, apenas para citar exemplos conhecidos. Entre nós, por exemplo, o viaduto Sta Efigênia, totalmente importado da Bélgica, e entregue a S.Paulo em 1913, sofreu a primeira manutenção (substituição de toda a estrutura do tabuleiro e muitos vigamentos) só em 1950, trinta e sete anos depois. Como engenheiro - na época, começando minha vida nas estruturas metálicas, participei dos serviços da reforma - posso afirmar que o estado era deplorável totalmente por falta de simples limpeza e pinturas periódicas durante todo esse tempo.

Faço, pois, um apelo aos meus colegas de cidadania especialmente os educadores, engenheiros e demais profissionais liberais que como eu, tiveram o privilegio de ter um pouco mais de cultura e discernimento, para que se crie, mesmo que seja “de boca a boca”, de “artigo em artigo”, de “palestra em palestra”, de “filmes em filmes”, de “sites em sites”, uma campanha para a conscientização da necessidade de manutenção, e para um aceleramento dessa cultura.

A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal “em se plantando tudo dá”, deveria ser completada com “e não se conservando, tudo se degrada”.

Paulo Andrade

Autor:

Eng. Paulo Alcides Andrade. Engenheiro civil e industrial 83 anos,  formado na E. E. Mackenzie em 1948, consultor na área de Estruturas Metálicas e ainda “desavergonhadamente” otimista com o futuro.

O Engenheiro Paulo Alcides Andrade foi um dos fundadores da ABCEM, ocupando a vice-presidência da primeira diretoria, além de ter feito parte da diretoria de suas gestões na Associação.Em 1999, recebeu o título de Personalidade da Construção Metálica. Ocupa atualmente o cargo de vice-presidente de Projetos e Engenharia da ABCEM.


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