O ano de 2011 representou para as matérias-primas industriais períodos de grande incerteza, gerando confusão no mercado - que muitas vezes não conseguia traçar perspectivas de curto prazo. Em uma visão panorâmica, os preços dos metais encolheram, a ponto de as cotações voltarem aos patamares verificados em 2009 no mercado internacional, quando a crise dos títulos de hipotecas "subprime" ainda era um dos personagens principais do cenário econômico mundial. O desempenho do petróleo, no caminho inverso, foi positivo ao longo do ano, com as cotações alcançado um patamar mais elevado. O futuro para os dois grupos de commodities industriais continua incerto, mas os fundamentos apontam para uma alta nos preços, de um modo geral. O clima mais ameno que foi se desenhando nos últimos meses deve ser estendido ao menos para o início deste ano.
"Para os metais, mais suscetíveis às expectativas de demanda, o ano se dividiu em duas partes. Depois de agosto, o mercado ficou bem mais nervoso", afirmou o gerente-sênior da Ernst & Young Terco, Stephen Collins.
O cobre foi um exemplo dessa reviravolta em 2011. Depois de superar o patamar dos US$ 10 mil a tonelada métrica no começo do ano, na última sessão de julho a cotação do metal marcava US$ 9,750 mil a tonelada métrica. No último dia do ano, bem mais baixo, o cobre fechou a US$ 7,570 mil a tonelada. De janeiro a dezembro, os preços do metal recuaram 21,68%. O retorno aos níveis registrados em 2009 é claro: o metal encerrou aquele ano aos US$ 7,377 mil a tonelada métrica.
O desempenho dos preços do alumínio também mostra de forma acentuada as contradições entre o primeiro e o segundo semestre. O metal iniciou 2011 aos US$ 2,476 mil a tonelada métrica. No fim de julho, estava US$ 2,608 mil a tonelada métrica. No último dia do ano, no entanto, a cotação recuou para US$ 1,992 mil a tonelada métrica. O declínio no ano ficou em 19,29%
"As commodities metálicas levaram um solavanco. A recuperação das economias não aconteceu, como o mercado esperava", explicou o analista do Standard Bank, Leon Westgate.
Já no início de 2011, os investidores se assustaram com os efeitos que o terremoto do Japão poderia causar no consumo global de matérias-primas. Depois, a China foi se movimentando na direção de apertos monetários, temendo o avanço da inflação e de uma bolha no mercado imobiliário. Enquanto isso, as economias europeias e a americana não demonstravam vigor para uma recuperação firme. No terceiro trimestre a aversão ao risco dos mercados estourou com os sinais de piora da crise da dívida na Europa. Os metais sofreram um ajuste estrutural, para baixo.
Segundo Westgate, os fundamentos econômicos dessas commodities, que apontam para um aperto na oferta, foram colocados em segundo plano em 2011. O foco do mercado se voltou para o lado da demanda: passou a nortear os negócios o risco de os países emergentes não conseguirem sustentar as vendas dos metais, diante da forte desaceleração nas economias em crise.
"A Europa é uma grande região consumidora e empresta muito dinheiro aos países em crescimento. Sem liquidez nos bancos da região, um cenário muito ruim pode vir à tona", enfatizou o analista.
Para o petróleo, o momento mais marcante foi a chamada "Primavera Árabe", quando a população de diversos países produtores de petróleo no norte da África e Oriente Médio se revoltaram contra o sistema político. Os temores com relação à capacidade de abastecimento do petróleo deram impulso às cotações. "Vimos a instabilidade político-econômica abalar os preços, que subiram aos US$ 120, e nunca mais voltaram ao patamar dos US$ 80, onde estavam", explicou o analista da Ativa Corretora, Ricardo Correa.
Ao longo do ano, o Brent, em Londres ganhou 12,89%, encerrando o ano em US$ 106,87. O WTI, em Nova York, por sua vez, avançou 7,35%, fechando aos US$ 99 na última sessão. de 2011.
Para este ano, os analistas não esperam que os momentos difíceis no cenário macroeconômico global sejam encarados como algo que já ficou para trás. Há, no entanto, expectativas de uma maior estabilidade.
Os primeiros momentos de 2012 devem carregar o clima mais ameno que se desenhou no último mês do ano anterior, com acordos entre os países europeus para amenizar os efeitos da crise da dívida. Os sinais de melhora no cenário macroeconômico americano também trouxeram mais ânimo aos mercados, ao mesmo tempo que o governo da China sinalizou novos incentivos ao crescimento econômico do país. Mesmo com a situação complicada de alguns bancos europeus, ações do Banco Central Europeu (BCE) para garantir a liquidez do sistema trouxeram mais calma aos mercados.
"Esperamos que a trovoada esteja acabando. Os preços dos metais devem ficar estáveis durante este ano", afirmou Collins.
Os baixos estoques de cobre no mercado têm estimulado a perspectiva de que a demanda global pode estar entrando em uma nova fase de recuperação, provavelmente guiada pelos avanços verificados na economia americana. Grande parte dos analistas consultados pelo Valor esperam alta nos preços dos metais nas próximas semanas. Segundo relatório recente do Goldman Sachs Group, as cotações do cobre devem apresentar elevação de 26% nos 12 meses do ano.
Mas Westgate ressalta: "É difícil saber de onde virá o crescimento da demanda neste ano. Qual país realmente sustentará os preços das commodities". Para ele, hoje há dúvidas no mercado sobre a capacidade de as economias emergentes manterem o passo de consumo e investimentos. Na visão do analista, o cobre deve flutuar de US$ 7,5 mil a US$ 8,9 mil neste ano. Mas suas projeções apontam para um caminho mais pessimista, em níveis mais baixos.
Já para o petróleo, 2012 começa sob a luz dos movimentos do Irã e a ameaça de seu programa nuclear. Além disso, os fundamentos apontam para oferta apertada. Para Correa, as cotações da commodity devem ficar na média dos US$ 100.
Valor Econômico
Publicação: 02/01/2012