Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista, professor: "A renovação tem de ser constante"

Nabil Bonduki coleciona cargos e atribuições ligadas à sua profissão. Com dez livros publicados, é especialista nas áreas de habitação, planejamento urbano e regional e história urbana, atuando principalmente em temas como política habitacional, política urbana, movimentos sociais, condições de moradia e urbanismo. Agora, o ex-superintendente da Habitação Popular do município de São Paulo (1989/1992) e coordenador do PlanHab (Plano Nacional de Habitação) se prepara para assumir mais um desafio na sua vida profissional: a Secretaria Nacional do Meio Ambiente. Em entrevista ao Arquiteto, Bonduki relembrou o período em que presidiu a entidade, no final dos anos 1980, e traçou perspectivas para o movimento sindical.

Leia a entrevista

Conte um pouco sobre sua trajetória no SASP (Sindicato dos Arquitetos no Estado de SP)
Fui indicado pela primeira vez para presidir o sindicato em 1983, em função do trabalho que fazia no Laboratório de Habitação da Faculdade Belas Artes (LabHab). Perdemos nessa ocasião, mas finalmente em 1986 a nossa chapa saiu vitoriosa, com 70% dos votos.

Esse ano marcou o fim do BNH (Banco Nacional da Habitação) e logo em seguida veio a Constituinte de 1988. Como foi presidir o sindicato em um momento de tantas mudanças?
Estávamos saindo de uma ditadura militar e vivendo uma fase de redemocratização do País. Os anos de 1987 e 1988 marcaram o processo de elaboração da nova constituição. No BNH, as questões de projeto e da inserção urbana ficaram de fora, dando margem para a disseminação da prática da autoconstrução Brasil afora. Nesse período, o SASP teve um protagonismo importante, participando diretamente no movimento nacional pela reforma urbana.

E no âmbito do Estado de São Paulo, quais foram as maiores conquistas do SASP nessa época?
À época, o então prefeito Jânio Quadros tinha uma série de propostas absurdas para a cidade como, entre outras coisas, pôr abaixo o Viaduto Santa Efigênia. Também havia a discussão da possibilidade de transformar as praças públicas em estacionamentos. O SASP interveio intensamente contra essas propostas, evitando que fossem levadas a cabo. Outra iniciativa relevante do sindicato foi a criação da comissão de assistência técnica, uma espécie de incubadora dessa idéia. (Nota: a lei 11.888, que assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social, entrou em vigor em junho de 2009).

Outro marco da sua gestão foi a mudança de endereço da sede do sindicato.
Sim, ocupávamos um andar em um edifício da Rua Avanhandava (no bairro da Bela Vista), mas resolvemos alugar duas casas na Vila dos Ingleses, ampliando o espaço e criando um auditório.

E como você avalia o atual momento do SASP?
Depois de um longo período de crise, onde chegou-se até mesmo a questionar o próprio sentido da existência do sindicato, a entidade passa por uma fase de revalorização. As duas últimas gestões da FNA (Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas) foram muito boas, reanimando o movimento sindical no País. O número de pessoas envolvidas no evento de inauguração da nova sede de Ribeirão Preto demonstra a importância do sindicato no interior paulista. A diretoria está se renovando, com um quadro de profissionais jovens, comprovando o fortalecimento dos sindicatos. Mas é importante que essa renovação seja constante.

E o CAU impulsionará ainda mais esse movimento?
O CAU, uma luta antiga da classe, certamente vai propiciar condições para um crescimento maior. Há um movimento de aproximação do SASP com o IAB (Instituto Brasileiro de Arquitetura), o que é muito positivo para nossa categoria, que precisa estar unida em torno de seus objetivos comuns. Essas duas entidades podem ter um papel decisivo nesse sentido.

Qual é o papel do arquiteto hoje?
Quando começamos a atuar no sindicato, na década de 1980, participamos do processo de renovação da entidade e uma das novas perspectivas era abrir uma discussão sobre a necessidade de criar novas áreas de atuação profissional que estivessem diretamente ligadas às necessidades da população de baixa renda. Estamos construindo essa pauta há 25 anos. Hoje, os arquitetos devem garantir que os investimentos gerem cidades de qualidade, para que não seja reproduzida a experiência do BNH. Temos o desafio de fazer, mas com qualidade.

Fonte:

SASP
Publicação: 13/04/2011

 

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