Em entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, Eduardo Zanotti, diretor executivo do Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA), traça um panorama completo do uso do aço na construção civil, suas potencialidades e desafios

Siderurgia Brasil - Segundo o IABr, o consumo aparente de aço teve um bom crescimento no Brasil. É possível avaliar a fatia que coube ao setor de aço para a construção?
Eduardo Zanotti - De fato, em 2010, o Brasil alcançou um recorde no consumo aparente de produtos siderúrgicos, atendido fundamentalmente pelo aumento das importações. O consumo aparente foi de 26,6 milhões de toneladas, 43,1% a mais do que em 2009 e 10,5% acima de 2008, no período pré-crise. As importações foram de 5,9 milhões de toneladas, um crescimento de 153% em comparação com o ano passado e de 122% em relação a 2008. No entanto, a demanda de cada setor ainda está sendo levantada.
SB - A que se deve esse aumento nas importações?
Zanotti - O aumento das importações reflete a valorização do real, a existência de elevados excedentes de oferta no mercado internacional e a existência de incentivos tributários associados a programas de desenvolvimento estaduais ou setoriais. Tais incentivos têm prejudicado o desenvolvimento da indústria e a geração de empregos no país.
SB - Quais foram os segmentos de mercado que mais cresceram?
Zanotti - Todos os segmentos estão crescendo, mas alguns se destacam, como os galpões de centros de distribuição e de uso industrial, os shoppings e as obras especiais, como aeroportos, centros esportivos e escolas. No segmento de edifícios de múltiplos andares, o uso do aço tem aumentado, principalmente quando os canteiros de obras se encontram em centros urbanos, onde o acesso dos insumos é mais difícil, e em canteiros com pouco espaço para armazenamento, como é também o caso de muitos empreendimentos localizados nas grandes cidades. Dois exemplos recentes são o Edifício Nações Unidas, na Marginal Pinheiros, em São Paulo, e uma realizada na rua do Senado, no Rio de Janeiro, que é muito estreita e, portan to, de difícil acesso.
SB - Sempre se lamentou a falta de projetos com uso mais intensivo de aço. Essa situação tem melhorado?
Zanotti - O aço no Brasil foi prioritariamente desenvolvido e comercializado para a indústria de transformação - indústrias automobilísticas, de bens de capital, eletrodomésticos e embalagens -, para as quais havia menos opções de uso de outros materiais.
Já a construção civil sempre privilegiou o concreto e a alvenaria, onde o aço era utilizado como vergalhões e telas soldadas. Atualmente, o tema das mudanças climáticas é um dos grandes desafios da humanidade. Tanto é que, na cúpula do milênio, as Nações Unidas se comprometeram em garantir a sustentabilidade ambiental. Diante disso, começou-se a pensar em outros modelos de produção, agregando tecnologia, eficiência e valorizando ao máximo a reutilização/reciclagem.
O objetivo é que o ciclo dos materiais se encerre sem desperdício ou sem resíduos para serem enviados aos aterros sanitários. O desafio é reformular conceitos de construção e dos materiais utilizados para que eles sejam compatíveis com o ecossistema.
Vale lembrar que o aço lidera a lista dos materiais recicláveis (ele é infinitamente reciclável) e se alinha com o conceito de sustentabilidade ambiental. Na sua produção buscase a eficiência no consumo de energia e de água, e na gestão de resíduos.
A construção civil, devido à sua importância e potencial de crescimento, é hoje uma prioridade para as produtoras de aço brasileiras. Pelo lado econômico, a construção em aço traz benefícios inegáveis. Por ser um processo totalmente industrializado, ele minimiza o desperdício de material, garante precisão geométrica e rapidez na montagem. Consequentemente reduz os custos e permite um retorno mais rápido do investimento. Do ponto de vista estético, a construção em aço distingue-se pela leveza de linhas e pela modernidade, além de facilitar futuras reformas, ampliações e recuperação de estruturas. Nosso principal trabalho no CBCA é promover a divulgação e co nscientização dessas vantagens e benefícios, para que assim os projetos com uso do aço cresçam e se tornem uma tendência mundial.

SB - O que foi feito para intensificar a elaboração de projetos no ano passado?
Zanotti - Em 2010, foram desenvolvidas diversas ações para promoção da construção em aço, destacando-se o Road Show do Programa Aço: Construindo a Copa 2014, o Road Show Ught Steel Framing e a montagem da Vila do Aço em cinco estados do país. O Instituto Aço Brasil (IABr), em parceria com o CBCA, ergueu em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro uma minicidade denominada Vila do Aço, que foi o grande destaque. O objetivo foi mostrar as possibilidades de sistemas construtivos em aço e as contribuições que podem trazer para os projetos de habitações de interesse social. A iniciativa contribuiu para que o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal fossem estimulados a conhecer mais e a aprovar novos projetos em aço.
Em 2011, queremos consolidar o conceito dos benefícios da construção em aço, junto às construtoras e empreendedores. Esperamos crescer acima dos indicadores históricos dos últimos anos, face às perspectivas e necessidades de investimento em infraestrutura e habitação.
SB - Há alguma tendência quanto ao uso do aço na construção civil?
Zanotti - O aço pode ser usado em todos os subsistemas da construção: fundações e contenções, estruturas, coberturas, fechamentos e fachadas e em revestimentos. Nas fundações, as estacas metálicas geram menor impacto no canteiro e permitem um ótimo aproveitamento, pois podem ter seu comprimento cortado ou prolongado em função da resistência do solo.
As estruturas em aço trazem rapidez, flexibilidade e racional idade na construção, e seu menor peso possibilita menos gastos em fundações e aproveitamento de terrenos com baixa capacidade de carga. A maior velocidade de execução da obra possibilita ganhos adicionais pela ocupação antecipada do imóvel e pela rapidez no retorno do capital investido. Lajes steel deck funcionam como forma e armadura oferecendo velocidade para a obra e ainda permitem se trabalhar no andar inferior sem escoramento. O uso de coberturas metálicas traz durabilidade, baixa manutenção e desempenho em relação à estanqueidade e térmo-acústica. Fachadas em aços galvanizados, pré-pintados e inoxidáveis oferecem modernidade e sã ;o cada vez mais utilizadas nas edificações. O drywall traz vantagem de uso para as divisórias de edifícios comerciais e graças a flexibilidade e ganho de espaços que elas oferecem tem tido uso crescente também no setor habitacional.
Especificamente, na habitação popular, diversas alternativas vêm sendo implantadas. O Light Steel Framing é uma ótima alternativa para a construção de residências e pode ser utilizado em edifícios de até cinco andares. Há também a tendência de substituição da madeira nas estruturas de telhados, com o uso do engradamento metálico, que oferece maior durabilidade em relação à madeira, uma vez que o aço não está sujeito a empenamentos nem ao ataque de cupins.
A Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbana (CDHU) optou pelo engradamento metálico em seus empreendimentos. O aço é ainda utilizado em outras aplicações, como defensas metálicas, gerando maior segurança para os usuários das rodovias, uma vez que elas podem absorver a energia gerada nos impactos.
O aço tem muito a contribuir para os desafios que a indústria da construção civil enfrenta. Segundo as estimativas da FGV, a construção civil crescerá 6% ao ano, nos próximos doze, e somente a adoção de sistemas construtivos industrializados poderá atender ao desafio de se construir as 23 milhões de moradias que serão necessárias até 2022.
SB - Houve avanços na questão da mão de obre específica para a construção em aço?
Zanotti - A mão de obra somente poderá se qualificar com a adoção de sistemas industrializados que valorizem o trabalho do operário. É fato que o mercado consumidor busca a qualidade e bom desempenho nas construções, algo que somente mão de obra qualificada, aliada a uma boa gestão de obra, pode oferecer. Vale lembrar que a montagem de uma estrutura em aço é muito mais segura e menos sujeita a erros, como os observados em canteiros de obras que utilizam os sistemas convencionais.
Um dos objetivos do CBCA é exatamente promover a qualificação de profissionais. O CBCA vem desenvolvendo o trabalho de formar profissionais para projetar e construir em aço, com o apoio do Senai e das Universidades, ampliando a grade curícular e, através dos cursos à distância (aço na arquitetura, sistemas estruturais, dimensionamento), qualificando engenheiros e arquitetos. Também trabalhamos na publicação de livros e manuais para apoio. Para se ter uma ideia, 1.549 pessoas foram certificadas em 21 cursos à distância e 3.102 pessoas foram certificadas em 92 cursos presenciais.
SB - Quais são os grandes problemas que o setor enfrenta?
Zanotti - Em primeiro lugar, o desconhecimento das construtoras e dos empreendedores. Há mitos do mercado já resolvidos em relação a interfaces, proteção contra incêndio e corrosão. A falta de informações em relação à cadeia de produção começou a ser resolvido com o Guia Brasil da Construção em Aço. Existe também uma forte assimetria tributária, em que o ICMS continua onerando a construção em aço. Do mesmo modo, o PIS/Cofins ainda é outro problema, mas o mercado já busca soluções para minimizar a questão.
SB - Qual é a expectativa de crescimento para o setor em 2011, em função de todos projetos que estão sendo prometidos?
Zanotti - Especificamente na construção civil, espera-se crescimento da demanda de cerca de 15%, haja vista as expectativas de investimentos em projetos de infraestrutura e habitação. Frente às projeções macroeconômicas do país para 2011, o IABr estima o consumo aparente de produtos siderúrgicos em 28,3 milhões de toneladas no ano que vem, o que representa um aumento de 6%.
ICZ / Siderurgia Brasil
Publicação: 04/04/2011