O Aço e os seus Fundamentos
Rapidez, Precisão, Função Estética, Tecnologia e Modernidade

A Sala Vip desta edição conversou com o arquiteto Elio Madeira, vencedor na categoria "Edifícios Industriais", pelo projeto da PW Brasil Export (Colatina, ES), e com a arquiteta Christine Ramos Mahler, vencedora na categoria "Centros de Medicina", por seu trabalho realiza do no Centro Médico Integrado (Goiânia, GO) dos Prêmios Abcem 2003 - Melhores Obras com Aço do Ano.


Por que foi escolhida a estrutura metálica para esta obra?
Elio Madeira:
A estrutura metálica possibilitou um atendimento preciso ao programa apresentado pelo cliente, no qual precisávamos produzir amplos espaços livres e aptos às constantes readaptações dos layouts, tanto nas áreas da produção, quanto nos escritórios, já que se trata de uma indústria de vestuário com um perfil para fabricar produtos bastante diversificados. Optamos por um sistema estrutural aparente, conjunto de treliças e pilares externos estaiados, que auxiliariam na fase de ampliação da fábrica, não impedindo a continuidade dos trabalhos em seu interior. Outro fator para a escolha foi que a lógica de raciocínio utilizada integra-se com o conceito do projeto, que utiliza produtos qualificados e industrializados, permitindo um planejamento mais racional e com menos itens, e proporciona uma programação passo a passo e flexível da implantação de seu cronograma físico e financeiro. A estrutura metálica também permite a produção simultânea de duas importantes etapas da obra: a de infra-estrutura e de super estrutura, além de conferir uma característica plástica inigualável aos demais materiais.
Christine Ramos Mahler:
Por sua rapidez construtiva, sua precisão que favorece e acelera a fase de acabamento, por sua função estética, que expressa tecnologia e modernidade.

Desde de quando vocês passaram a usar o aço em suas obras?
Christine:
Desde que me graduei (1989) venho influenciando clientes a optarem pela estrutura metálica, em obras como as academias de ginástica Athletics Sports (1991), Fit Station (1995) e alguns edifícios residenciais, entre outros. Mas por uma questão financeira, os clientes optavam pelas estruturas convencionais. Em 1999, no meu projeto para o show-room da Dabi-Atlante, em Goiânia (Odonto Médica Brasil), foi utilizado estrutura metálica em sua construção. Acredito que a competitividade de preços foi favorável e mais atraente que nos anos anteriores, levando os clientes a seguirem a minha orientação.
Madeira:
Hoje é bom poder dizer que conseguimos inserir uma linguagem própria de projeto no mercado, em que o aço tem uma participação significativa, desde as pequenas até as grandes obras. Nossa empresa iniciou seus trabalhos e continua até hoje realizando projetos em estrutura metálica. O que vale mesmo é desmistificar o fato de que a obra ou projeto pensados como estruturas metálicas são caros, mostrando que é na etapa de projeto que se faz o diferencial. É o arquiteto e o calculista pensando na lógica de produção e realização mais favorável de cada programa, mudando a consciência do cliente e implantando uma cultura mais favorável a essa prática.

Qual a maior vantagem na utilização desse material, principalmente em um conjunto arquitetônico tão amplo corno a PW Brasil Export e em edifícios multiandares corno o Centro Médico Integrado?
Madeira:
Quando se pensa em projetar uma fábrica não é comum o cliente se importar com aspectos de beleza, manutenção, iluminação etc. Nesse caso foi diferente porque, ao nos consultar,já havíamos realizado nosso primeiro projeto totalmente metálico (uma concessionária de veículos com os mesmos princípios e soluções de funcionamento da atual fábrica, obra pioneira em estruturas e fechamentos metálicos em Vitória, ES). Isso ajudou a mostrar como o sistema funcionava. Essa mudança também passa pela capacidade de convencimento do cliente pelo arquiteto com soluções adequadas ao processo construtivo, que muito se difere do convencional.
Christine:
A rapidez construtiva é uma constante característica do aço, inerente à estrutura metálica. Em especial para edifícios multiandares, a precisão de gabarito (ângulos, esquadros) tem nessa tecnologia um ganho visual (acabamento preciso), além de técnico (facilidade construtiva), operacional e financeira (rapidez construtiva pela repetição de módulos).

Quais as possibilidades oferecidas pelo aço? Qual o principal valor (estético, prático e econômico. entre outros) que o aço agregou à obra?
Christine:
O aço traz possibilidades como polimento ou brilho na textura, contemporaneidade e arrojo em suas peças, leveza visual e criação de superfícies não-planas, de infinitas formas, fechamentos, detalhes, esquadrias, marquises etc. Os limites do aço são minimizados em relação a tecnologias e materiais tradicionais, que dificultam ou impedem fabricar elementos complexos. Como arquiteta, valorizo a estética, mas estou consciente dos outros valores e os tenho como secundários.
Madeira:
O aço conferiu a obra um resultado expressivo do ponto de vista formal. Permitiu explorar os efeitos de cheios e vazios, valorizando a volumetria, com riqueza distinta para cada edifício, mesmo quando a solução parecia ser uma repetição. Imprimimos uma solução para cada prédio, sem hierarquias de trabalho ou posição. Nossa empresa faz, a cada projeto, uma característica distinta, e os clientes obtêm desde cedo a capacidade de capitalizar a nova imagem de sua empresa, uma vez que o aço agiliza a obra, esboçando o resultado. Sem contar as vantagens específicas dessa obra, em que economizamos o consumo de energia elétrica, através das soluções de iluminação e ventilação zenitais, bem como no aspecto de insalubridade, que é inexistente. Além dos benefícios com os grandes painéis metálicos da cobertura junto com o isolante térmico, em que pudemos oferecer ambientes climatizados.Já não é mais possível pensar em novos projetos sem levar em conta estes conceitos. Essa cultura faz parte da vida de nossos clientes e de suas empresas. Mas vale lembrar que o que conta mesmo é o processo de criação do arquiteto, ele é que vai produzir o diferencial.

É possível afirmar que o aço já faz parte de sua identidade criativa?
Madeira:
Não somente faz parte do processo criativo, como conseguimos desenvolver uma linha de trabalho com identidade própria, que é a base de todos eles, porém com tratamento diferenciado, quase que sobre medida a cada novo projeto.
Christine:
Sim. O projeto fica arrojado, as características formais das fachadas se acentuam.

No que a lógica construtiva do aço difere da convencional?

Christine:
Pensar em um investimento é pensar em tempo e em acabamento mais do que em outras épocas. A lógica convencional é acrescida de todas as desvantagens.
Madeira:
É a possibilidade de contar tanto com material industrializado quanto mão-de-obra qualificada, que garante e confere uma qualidade maior nos resultados finais da obra. Outro fator importante é a organização do canteiro de obra: não existem grandes estoques de materiais ou equipamentos, tudo se baseia na logística de montagem planejada, fase que deve preceder o início dos serviços. O aspecto de limpeza é impressionante, possibilitando um melhor acompanhamento durante a fase de implantação. Enfim, todos participam de maneira segura das diversas etapas de obra, até mesmo o cliente.

Os arquitetos acreditam que há competição do aço com outros processos construtivos?
Madeira:
Desde que começamos a trabalhar com estruturas metálicas, o objetivo sempre foi utilizar produtos industrializados. Assim, todo material (aço, concreto, gesso acartonado etc.) que fizer parte de nossos trabalhos, irá desempenhar seu papel na participação do conceito global do projeto, dando o devido suporte e resposta aos requisitos dos nossos projetos.
Christine:
Sim, o fato pode ser constatado pelo número crescente de edificações em aço nas cidades e estradas brasileiras.

No que o arquiteto pode contribuir para a difusão do uso do aço no Brasil?
Christine:
No esclarecimento a seus clientes e na concepção de projetos que valorizem esse tipo de estrutura, realçando o diferencial do aço sobre outros sistemas construtivos.
Madeira:
Desenvolvendo projetos que sirvam de base ou referência para os futuros arquitetos, explorando as possibilidades plásticas e estruturais do aço, aplicando-o com boa técnica e pensando mais no aspecto logístico de sua fabricação e montagem. Além disso, deveríamos ter mais incentivos provenientes das grandes empresas de siderurgia e metalurgia, em relação a maior divulgação de nossos trabalhos e resultados, quando significativos. A partir daí pode-se estabelecer um maior entendimento quanto à utilização do aço, e uma maior credibilidade ao produto junto aos possíveis investidores.

Vocês foram premiados pela Abcem pelos projetos PW Brasil Export e o Centro Médico Integrado. Gomo esse tipo de premiação pode colaborar para o estímulo de projetos com aço?
Madeira:
O mais importante é publicar continuadamente os resultados de nossas obras em periódicos que se destinem ao público alvo e, é claro, que se por acaso vir através de uma premiação, irá cada vez mais se criar um aspecto de valorização da boa arquitetura desenvolvida em aço nos mais variados segmentos, despertando assim a curiosidade tanto dos profissionais quanto a dos usuários. É preciso também desvincular sua utilização tão somente nas edificações industriais ou comerciais de grande porte e implantar essa realidade nas pequenas e médias empresas, ou mesmo no mercado imobiliário.
Christine:
É uma forma de divulgação do profissional e, conseqüentemente, de sua opinião favorável à tecnologia do aço.

Ficha Técnica:

Elio Pretti Madeira - Arquiteto formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, docente da Faculdade Integradas Nacional e proprietário da empresa Elio Madeira Arquitetura.
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Christine Ramos Mahler - Arquiteta especialista em Planejamento Urbano (preparatório do DESS - Université de Paris VIII - Institut Français d'Urbanisme - França), docente da Universidade Federal de Goiás e mestranda em Gestão do Patrimônio Cultural na Universidade Católica de Goiás.
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Fonte:

Revista Construção Metálica - Edição nº 63 - ABCEM
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