Que possibilidades de vãos o aço oferece em relação a outros materiais?
Paulo Sophia - Grandes vãos em estrutura metálica, associada a vários materiais, estão na história da construção e da arquitetura. Nas pontes e viadutos e em função das solicitações estruturais, o aço foi, e é, largamente utilizado. Hoje novas tecnologias e controles de temperas do aço, soldas técnicas e controladas, têm viabilizado o incremento destes vãos. O aço trabalha eficientemente a tração sem exigir grandes dimensões e, é nesta qualidade e no proveito deste desempenho que está baseado todo o desenvolvimento da estrutura metálica. Uma ponte, que é tida como grande obra em concreto armado no Brasil, tem em seu vão central de 300 metros uma estrutura de aço para as vigas e concreto na laje de tabuleiro. Trata-se da ponte Rio-Niterói.
Siegbert Zanettini - A dimensão dos vãos está relacionada no caso do aço às diversas tipologias de edificações como também às condições de trabalho e às cargas solicitadas na estrutura metálica. Assim, no caso de coberturas leves de chapa ou de membrana têxtil, ou ainda, de vidro ou policarbonato pode-se atingir vãos significativos. É o caso de hangares, estádios, ginásios esportivos, shopping centers, armazéns, supermercados, indústrias que competem com grande vantagem quando a estrutura utiliza outros materiais. Por outro lado pontes, viadutos, passarelas estaiadas ou treliçadas bi e tri-dimensionais atingem vãos enormes com soluções levíssimas. O mesmo se consegue com arcos planos, calotas e cúpulas geodésicas.
O que o aço oferece como possibilidade estética?
Sophia - As estruturas estaiadas com as novas linguagens formais e estruturais são uma contribuição estética para a paisagem de nossa civilização e em nossas cidades. Pontes que são montadas e posteriormente lançadas (empurradas) para sua posição final são o casamento da técnica e da arte de construir, símbolo de nossa cultura arquitetônica contemporânea.
Zanettini - Não há limites para criação de espaços e formas variáveis e ricas esteticamente. Explorar as condições tri-dimensionais que é um dos fundamentos relevantes e característicos do aço em estruturas para as mais diversas concepções arquitetônicas é o que vem sendo feito pelos principais arquitetos contemporâneos no mundo todo. As obras de Norman Foster, Santiago Calatrava, Renzo Piano, Richard Rogers e de alguns arquitetos aqui no Brasil são exemplos notáveis disso.
É diferente pensar em uma obra em aço?
Sophia - O atendimento de um programa e as necessidades da própria sociedade vão determinando a possibilidade e a viabilidade de nossas escolhas. Pensar em uma obra em aço não é mais ou menos difícil pelo material, mas pela aceitação cultural do processo como tal. Existe uma "cultura" de construção, em nosso país que nestas últimas décadas considerou o projeto e a obra como uma ferramenta de absorção de grandes massas de mão-de-obra desqualificada. Pensar uma obra em aço é pensar no avanço do próprio país para a industrialização da construção civil.
Zanettini - O aço tem propriedades características em relação a momentos, esforços de tração, compressão, torção, flexão e deformações de escoamento antes da ruptura que ocorre também quando há deformações pela ação do fogo. É um material que surge a partir de produção industrializada, portanto, com ganhos significativos obtidos pela padronização e modulação de componentes. Para que essa produção atenda às normas e tenha certificação de qualidade é necessário que a obra seja planejada e que todos os projetos que a constituem sejam completos e detalhados e cheguem aos mínimos detalhes de fabricação, montagem e solucionem a interface entre a estrutura metálica e demais componentes. Há um engano quase generalizado e que fica expresso em trabalhos de arquitetura solicitados por clientes que pretendem construir com aço e nos trazem projetos com estrutura de concreto e querem que se compare os custos entre as duas alternativas. Os edifícios em aço dobram os vãos com a mesma altura de vigas. Pode-se então retirar pluma das inteiras de pilares intermediários e as correspondentes fundações para a mesma tipologia arquitetônica. Não se trata de substituir simplesmente um sistema por outro, mas repensá-lo espacial e estruturalmente de forma coerente a cada sistema.
Quando o arquiteto projeta em aço, existe a preocupação com os cálculos reais? Como por exemplo: as tensões e a ação do vento? Nas escolas de arquitetura já é passado para o futuro arquiteto a necessidade de se pensar neste pré-dimensionamento na fase de projeto?
Sophia - Sim, quando o arquiteto projeta em aço, ele deve ter a preocupação com os cálculos reais, as tensões e a ação do vento entre outras tantas preocupações. Há muito o que fazer para o avanço das tecnologias e para o conhecimento prévio dos arquitetos em relação ao aço e suas premissas de projeto. É dentro das escolas de arquitetura que estaremos fazendo nosso melhor investimento para o futuro da industrialização da construção civil.
Zanettini - Essa preocupação deve existir com qualquer sistema estrutural na fase de concepção, pois a confirmação de adequar o uso de um determinado sistema passa por um pré-dimensionamento correto, por uma prévia avaliação das condicionantes ambientais e espaciais, das determinantes de uso do edifício, nos prazos para sua efetivação e os custos envolvidos. As escolas de arquitetura e engenharia, na sua quase totalidade, não contém nas suas estruturas curriculares o ensino desse sistema e quando têm, esse conhecimento é tratado de forma superficial. Há essa lacuna no ensino a ser antes superada para que se possa pedir o pré-dimensionamento estrutural, pela precariedade de entendimento do assunto.
As ações de vento estão mudando em algumas regiões. Os senhores pensam de forma diferente para projetar nestas áreas, visto que a Norma Brasileira (NBR 6123) que trata da ação do vento não preconiza este tipo fenômeno. Neste sentido, os senhores acreditam que caberiam sugestões aos comitês de normas técnicas?
Sophia - Os "Ventos" e as "normas técnicas" são mutantes. O primeiro sob a força e o desígnio da natureza e o segundo de acordo com o avanço da técnica. Cabe aos arquitetos e engenheiros ligados à ABNT atenção para cada nova circunstância, tudo para proveito da sociedade e do próprio homem.
Zanettini - O aço é mais suscetível à ação do vento do que o concreto pela forma de trabalho, pelas sua esbeltez e flexibilidade. Um reexame das normas técnicas seria bem-vindo no tocante as deformações e patologias decorrentes.
Como o profissional de arquitetura pode contribuir com a expansão do uso do aço no Brasil? O que fazer para melhorar?
Sophia - Na verdade acredito que os arquitetos têm dado grande contribuição para o avanço de todas as técnicas construtivas e em especial para as que contemplam o uso do aço. Os arquitetos e engenheiros juntos sempre estiveram atentos a cada nova possibilidade ou solicitação para proporem, com sua criatividade, novos e engenhosos projetos. Entretanto já não se pode dizer o mesmo da sociedade e dos governos que não enxergam no projeto técnico, arquitetônico e de engenharia as ferramentas da transformação das nossas cidades para o sucesso e prazer de nossas populações. O projeto é trabalho intelectual e não pode ser objeto de concorrência de preço como é a prática usual que só deprecia o produto final pretendido.
Zanettini - Aprofundando o conhecimento dessa tecnologia, produzindo projetos com mais apropriação e qualidade. objetivando otimizar o desempenho global da obra.
Como criar a cultura do uso do aço para os arquitetos, já que este profissional tem o primeiro contato com o cliente e com os espaços disponíveis?
Sophia - Há que se fazer um trabalho de desmistificação, "de que é caro", "de que não temos tecnologia", "de que não é sólido", "de que não é durável", etc.
Zanettini - No fundo o caminho está na perspectiva de se criar, a exemplo do concreto, uma cultura do uso do aço não apenas na área da arquitetura mas no âmbito maior de toda cadeia produtiva: desde o usuário que passará a incorporar no seu ambiente a linguagem do aço resultante de bons projetos; ao investidor que perceberá o avanço conseqüente de novas relações custo x benefício, ao fabricante que terá uma produção planejada com segurança na qualidade e sem desperdícios, aspecto quase inatingível na construção convencional, e ao construtor que passará a se apropriar de uma tecnologia limpa, mais sustentável e mais integrante com meio ambiente. Essa cultura do uso do aço resultará também de difusão do seu conhecimento em encontros, seminários, congressos e na área acadêmica, reunindo profissionais, estudantes, setores produtivos e organismos oficiais regulando e normatizando o seu emprego.
Em outros setores, mesmo os mais consolidados, ainda se realizam treinamentos. Como o setor da Construção Metálica pode também colocar em prática este recurso?
Sophia - Educação é tudo. O sucesso de qualquer processo está na disseminação destas culturas. De uma forma geral o canteiro de obras é uma escola, mas não é uma escola sistematizada e com abordagens intensivas para a transformação do homem. Este é um grande e belo caminho que a Construção Metálica pode dar como exemplo para a nação.
Zanettini - O que não nos faltam são instituições, entidades e universidades que poderiam sediar eventos, workshops e treinamentos para profissionais arquitetos, engenheiros e estudantes. Nas Universidades poderiam ser organizados cursos de extensão e especialização abordando a teoria e a prática sobre o aço e sua forma adequada de uso. Organismos de fomento como a FAPESP, a o CNPQ e a CAPES poderiam ser mais solicitados com projetos de pesquisa abordando o assunto. A FATEC e o SENAI poderiam organizar cursos de treinamento técnico. O CBCA, a ABCEM. a AMICEM poderiam, com o patrocínio das empresas filiadas, organizar eventos que tratassem as múltiplas abordagens dessa tecnologia. O IAB, o Instituto de Engenharia. e o SIDUSCON deveriam promover certames e concursos de arquitetura e engenharia junto à administração pública quando da realização de sub-obras " habitações, escolas e centros de saúdes, lazer e cultura utilizando o aço como estrutura.
A Revista Construção Metálica que circula há anos no mercado permanece como uma voz isolada no contexto das publicações técnicas. Na realidade falta um projeto de desenvolvimento que fomente programas menos isolados e sistematicamente mais sustentáveis para o setor do aço na construção civil.
A oferta de mão-de-obra barata da construção em alvenaria é um dos empecilhos para o uso do aço?
Sophia - A oferta de mão-de-obra em uma construção civil convencional é barata pois só se computa o custo dela na obra. Ninguém contabilizou o custo de deslocamento destes operários do Nordeste para os grandes centros. Ninguém contabilizou o custo da moradia de enormes contingentes deslocados para a construção civil nos grandes centros. Ninguém contabilizou o custo de uma mão-de-obra entregue à própria sorte quando a obra termina e estes operários acabam inchando nossas periferias. Ninguém contabilizou todo o custo social de enormes contingentes que não tiveram um tratamento sindical que só a indústria pode dar.
Zanettini - Além da oferta da mão-de-obra barata, persistem outros empecilhos igualmente refreadores do uso do aço na construção civil: desconhecimento da tecnologia, audiência de projetos adequados ao seu emprego; impedimentos de legislação e de normas que disciplinem o seu correto desempenho, instabilidade do custo do material face a cada política conjuntural e que tem inviabilizado varias obras inicialmente pensadas em aço. além de preconceitos, tabus e meias-verdades que cercam nesse universo.