O Aço na Visão dos Arquitetos
Entrevista com os Arquitetos Paulo Sophia e Siegbert Zanettini, dois ícones da Arquitetura com Aço - Página 2

Como o senhor vê à competição da construção metálica com outros processos construtivos?
 

Sophia - Muitas vezes a competição por ela mesma, pelo lucro e sucesso efêmero não leva a nada. Mas o enfrentamento técnico e comparativo de processos, custos e possibilidades que cada processo construtivo oferece é mais adequado e inteligente. Um construtor que queira fazer obra com processos artesanais, só porque ele aufere lucro fácil sobre a mão-de-obra não especializada e barata significa uma competição injusta com a própria sociedade, pois não agrega valor ao operário após seu trabalho na obra. Muito ao contrário, processos industrializados de montagem em concreto pré-fabricado e estruturas metálicas apesar de custos iniciais maiores, causam menor impacto ao meio ambiente, e sua mão-de-obra é especializada entre outras vantagens. Temos que investir em treinamento e educação, por um operário que seja um aliado também pelas mudanças de postura no canteiro de obras.

Zanettini - Não há que forçar seu uso indiscriminadamente. Há soluções arquitetônicas que se dirigem para processos construtivos com solução metálica. Assim como há também edificações que são mais bem resolvidas com estrutura de concreto. madeira. alvenaria armada etc. Inclusive a possibilidade do trabalho conjunto desses materiais em sistemas estruturais mistos, tem sido um caminho rico a explorar.

No tocante à questão regional, como quebrar as barreiras impostas pela dificuldade de acesso do material aço? Por exemplo: em São Paulo é mais fácil se obter aço do que no Mato Grosso do Sul.
 

Sophia - Historicamente quando se associou qualquer produto ao desempenho, ao arrojo, à técnica, este produto atravessava oceanos. É o caso do aço que foi importado para o Brasil para a construção do Teatro José de Alencar no Ceará, da Estação da Luz em São Paulo, entre tantas outras obras exemplares em aço. Existe, sim, um problema de preço internacional de um produto que tem seu valor variando de acordo com uma bolsa de mercadorias internacional, e muitas vezes o Mato Grosso do Sul não consegue competir com os preços da China. Mas tudo isso oscila e muda.

Zanettini - Hoje a questão das distâncias entre os centros produtores e as obras não tem sido mais empecilho. Tenho projeto cuja fabricação foi no Rio Grande do Sul e a montagem na obra foi Uberlândia. A empresa ganhou a concorrência com preços mais baixos apesar da distância. O mesmo aconteceu com outra obra cuja fabricação foi em São Paulo e a montagem no Rio.

Quais os pontos do mercado da construção metálica devem ser destacados?
 

Sophia - É leve e tem desempenho para montagens industriais onde o sacrifício humano é minimizado. Plasticidade e velocidade associadas, são para mim as vantagens da Construção Metálica.

Zanettini - Devem ser destacadas a suas vantagens econômicas; técnicas; de leveza da estrutura; do tempo significativamente inferior do que a construção convencional; da ausência de desperdícios; da sua trabalhidade totalmente controlada; de sua precisão milimétrica. possibilitando a compra dos demais componentes da obra com antecedência apropriada e o tempo significando a qualquer outro sistema construtivo coma possibilidade de retorno mais rápido do capital e sua ocupação programada e antecipada. Temos executado várias obras hospitalares, escolas e reformas com acréscimo de área sem criar empecilhos e sem mudanças de seus usuários.

No projeto, os senhores já especificam o tipo de aço necessário à obra? As escolas de arquitetura chamam a atenção sobre o tipo de aço disponível e compatível com a obra?
 

Sophia - O trabalho de projeto hoje é um trabalho consorciado interdisciplinar envolvendo grupos de especialistas para o sucesso das especificações envolvidas. As escolas de arquitetura deverão prover também esta formação que não é vertical no curso, mas transversal entre carreiras.

Zanettini - Sim, dependendo das condições ambientais ou condições de trabalho da estrutura temos especificado o aço adequado; por exemplo, em condições adversas temos optado pelo SAC 41, SAC 50, Cor-as-Cor 400 que são aços patináveis resistentes a corrosão. Temos usado o Usifire quando se necessita melhor desempenho da estrutura como proteção passiva contra incêndio e, temos usado o aço carbono normal quando não existe maior agressividade ambiental onde a obra implanta.

A preferência pelo uso do aço em seus trabalhos é conhecida. Por que os senhores optaram por este material?

Sophia - O aço é quase uma conseqüência de uma postura crítica dos processos do canteiro de obras que como já disse, até este momento não atendem para a industrialização da construção civil. Não se trata de escolhas estéticas a priori mas de estratégias técnicas conscientes para o atendimento de programas e prazos de obra muitas vezes inviáveis com outras técnicas.

Zanettini - Não há propriamente uma preferência para o uso do aço em inúmeras obras minhas. Normalmente é o partido arquitetônico que define o seu emprego; algumas vezes aparece a necessidade de vencer grandes vãos; em outras é grande a repetitividade dos componentes que induzem a sua produção seriada; outras vezes é o cronograma definindo a entrega da obra em tempo recorde; outras ainda são as dificuldades de construção com o edifício em funcionamento ou inexistência de espaço para canteiros de obras. Na realidade o que transparece é a grande quantidade de obras feitas com estrutura metálica determinada pelos 35 anos que venho utilizando essa tecnologia. como um de seus pioneiros.

Que projeto os senhores gostariam que na posteridade dissessem "este é um marco da obra do arquiteto Sophia/Zanettini"?
 

Sophia - Acredito que caberá à posteridade avaliar a obra de cada arquiteto e também do conjunto de arquitetos que a precedeu. Não acredito em obras isoladas, mas em um conjunto de obras de um determinado arquiteto e de grupos de arquitetos. Não existe a poesia de uma arquitetura dissociada de seu tempo, sua sociedade e agentes de influência. A nós neste momento, cabe, dentro de nossas possibilidades e fundamentalmente em consonância com nossas posturas éticas, atender aos nossos clientes, pesquisar e desenvolver soluções que em seu conteúdo técnico e artístico contribuam para o sucesso da própria sociedade.

Zanettini - Como sempre é o último projeto que reúne evolutivamente boa parte desse longo trabalho de pesquisa. Devo citar a nova obra do Centro de Pesquisa da Petrobrás, na Ilha do Fundão no Rio de Janeiro, que caracteriza uma obra contemporânea deste século de minha autoria e co-autoria de José Wagner Garcia e a importante participação interdisciplinar de 140 profissionais, pesquisadores, consultores e técnicos.

Conheça os Arquitetos

Paulo Sophia

Presidente do IAB/ SP para a gestão 2004/05 Graduado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. em 1986, o arquiteto Paulo Sophia vem atuando como profissional na área de projeto arquitetônico, fiscalização e consultoria de obras desde os primeiros dias de seu ingresso na universidade em 1978.

Desenvolveu projetos de diferentes conteúdos e complexidades em diversas áreas. Com mais de 50 projetos arquitetônicos na área escolar, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Manaus, entre outros lugares, há 15 anos, Sophia é referencial. Desenvolve projetos de espaços pedagógicos, auditórios e teatros. Foi premiado na 38 Bienal lnternacional de Arquitetura com o projeto "Escola Móbile".

Siegbert Zanettini

O arquiteto e urbanista Siegbert Zanettini ocupa o cargo de Diretor Geral da Zanettini Arquitetura desde a sua constituição até o presente. Zanettini é Livre Docente da FAUUSP. pertencendo a primeira geração de Professores Doutores da Universidade de São Paulo.

É considerado no momento, o maior especialista brasileiro no campo de projetos em estruturas metálicas. Em quatro décadas de atividade, a Zanettini Arquitetura desenvolveu mais de 5 milhões de metros quadrados em projetos de bancos, escolas, habitações, hospitais, clínicas, edifícios comerciais, institucionais e industriais; centros esportivos, centros de treinamento, arquitetura de interiores, shopping-centers, galpões industriais, layout de mobiliário, reforma e ampliações de áreas edificadas; revitalização de centros urbanos; restauro e preservação de edifícios de interesse histórico e cultural.

Fonte:

Revista Construção Metálica - Edição nº 70 - ABCEM

 



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