O Brasil produz cerca de 465 milhões de toneladas de agregados para construção civil, como areia e brita, por ano. Pode parecer pouco se comparado com os 2,79 bilhões de toneladas produzidos pelos Estados Unidos. Segundo os especialistas do setor, o consumo de areia e brita é um dos fatores que podem determinar o Índice de Desenvolvimento Humano do país. Afinal, obras de moradias, estradas e saneamento, por exemplo, beneficiam diretamente a população.
Essa é a opinião do presidente da Associação Nacional de Entidades de Produtores de Agregados para Construção Civil (Anepac), Eduardo Rodrigues Machado, e do diretor executivo da entidade, Fernando Mendes Valverde. Em entrevista à Revista ELO, eles falaram sobre a situação do mercado, as perspectivas para os próximos anos e a falta de uma política específica para o setor.
ELO: Quando se fala em agregados para cons-tru-ção civil, quais materiais devemos ter em mente?
Fernando: Entenda como agregados basicamente a areia e a pedra britada.
ELO: Quais são as fontes desses materiais?
Eduardo: A areia vem de três fontes: o desmonte de alteração de rocha (rochas em decomposição), a extração em várzea e a extração em leito de rio.
Fernando: No caso da brita, ela é produzida a partir do desmonte de granitos, do diabásio ou até mesmo de menores porções de calcário.
ELO: Qual o destino desses materiais?
Fernando: Os agregados são misturados com o cimento para criar o concreto ou com o asfalto, formando a pavimentação. Ainda existem outros destinos de menor escala, como os lastros ferroviários no caso da brita.
ELO: Que quantidade vai para cada um desses destinos?
Fernando: Falando em números, praticamente 85% da produção total se mistura com cimento e os outros 15%, com asfalto.
ELO: Podemos afirmar, então, que os agregados formam o principal insumo da construção civil?
Fernando: Sim, o concreto como um todo e a argamassa são os componentes mais consumidos numa construção civil – e isso, como já dissemos, leva brita e areia.
Eduardo: Se analisarmos todo o setor de mineração em termos de volume, os agregados formam o item mais importante. Já em se tratando de valor, é o minério de ferro.
ELO: Em que nível está a qualidade da areia e pedra britada produzidas no Brasil?
Eduardo: Comparando com os agregados produzidos nos Estados Unidos, eu diria que a brita se aproxima muito e a areia caminha para isso. Porque há alguns anos houve um movimento de empresas de renome que entraram para o mercado de agregados – por exemplo, a Lafarge e a Votorantim. De forma que as usinas de concreto passaram a exigir uma qualidade melhor dos agregados, principalmente na região metropolitana de São Paulo e nos grandes centros. Houve uma melhoria da governança corporativa.
ELO: A logística agrega muito valor ao produto?
Fernando: Trata-se de bens minerais que são produzidos em grande quantidade e de baixo valor agregado, então obrigatoriamente eles têm de estar ao lado do mercado. Quanto maior a distância, maior o custo. No caso da brita, em torno de um terço dos custos é referente ao transporte; já na areia são dois terços.
ELO: Se houvesse um ranking de produção, o Brasil estaria em qual posição?
Fernando: Em 2008, os EUA produziram 2,79 bilhões de toneladas de agregados. Isso dá um consumo per capita em torno de 9,1 toneladas. Já a União Europeia produziu 3,1 bilhões de toneladas, ou cerca de 7,6 toneladas por habitante. No caso do Brasil, a produção ficou na casa dos 465 milhões de toneladas, o que significa um consumo de 2,4 toneladas per capita.
ELO: O que isso representa?
Eduardo: Essa diferença representa a demanda reprimida, o que falta para sermos um país desenvolvido. Isso você vê quando caminha na rua: a falta de infraestrutura, ruas esburacadas, poucos programas habitacionais etc.
ELO: O Brasil poderia produzir mais que isso?
Fernando: Sem dúvida. A capacidade instalada, ou seja, quanto o país poderia produzir, está estimada em torno de 520 milhões de toneladas. Dessa forma, produzimos cerca de 89% do que poderíamos. A meta para 2009 é atingir 91%, algo em torno de 474 milhões de toneladas.
ELO: O mercado foi afetado pela crise econômica mundial?
Eduardo: Muito pouco. As projeções para 2009 são idênticas às do ano passado. Até com um pequeno crescimento. A crise não afetou o setor de construção civil de infraestrutura. Somente na construção civil ha-bitacional houve queda, mas o setor já está começando a se estruturar. Veja o caso de São Paulo – o maior produtor de areia e brita do país –, que tem um amplo programa de obras, como o Metrô e o Rodoanel.
ELO: O setor prevê crescimento nos próximos anos?
Fernando: Em 2009, a Anepac prevê crescimento, fato que só o nosso setor e o de ouro conseguiram dentro da mineração. Essa expansão deverá ser de 2% e, em 2010, de 4%, por ser ano eleitoral. Em 2011, o crescimento previsto também é de 4% e, entre 2012 e 2014, projetamos um incremento de 3%, por causa da Copa do Mundo no Brasil. Esse mesmo patamar deve se manter estável em 2015. Isso tudo representa um acumulado de 22% em sete anos.
ELO: O setor gera quantos empregos diretos no Brasil?
Fernando: 65 mil empregos diretos, sendo 45 mil no setor de areia e 20 mil para a brita. São 2,5 mil empresas produtoras de areia e 600 pedreiras no país.
ELO: Qual o volume do faturamento?
Fernando: Estima-se que 10 bilhões de reais em 2008.
ELO: Qual o principal indutor de consumo atual?
Eduardo: Os governos estaduais e o federal, com suas obras de infraestrutura. Essas obras – moradias, por exemplo – são definidoras de qualidade de vida. Não são destinadas para luxo ou ostentação. Para se ter uma ideia, no mundo todo é produzido 1,5 bilhão de toneladas de ferro. Só os EUA consomem essa mesma quantidade de brita por ano. Repare na essencialidade desse negócio: a construção civil utiliza madeira, aço e concreto há mais de um século. Tirando a madeira, o resto é proveniente da mineração, sendo que o grosso são os agregados. Areia e brita são os minerais mais consumidos no mundo.
ELO: É possível mensurar o tamanho do estoque de agregados no país?
Fernando: Às vezes vejo entidades publicando o tama-nho das reservas brasileiras, e isso não tem cabimento. Não há como mensurar isso. Uma coisa é o que se tem disponível, outra é aquilo que a sociedade permite tirar. É muito difícil que ainda existam áreas para novas minerações em São Paulo.
Eduardo: Basta dizer que este ano foi aberta uma pedreira em São Paulo depois de 20 anos. O avanço da urbanização, as restrições ambientais e a falta de uma política de zoneamento esterilizaram uma série de reservas próximas aos centros consumidores.
ELO: Ao mesmo tempo em que o mercado está em expansão, pode haver escassez do material?
Eduardo: Não. Areia e brita nunca vão faltar. A que custo elas vão chegar é outra história.
Fernando: O setor cresceu, mas não quanto poderia. O cenário é de restrições, principalmente ambientais. Como temos de produzir ao lado da comunidade, sofremos diversas injunções políticas.
ELO: Qual é a relação com o governo?
Eduardo: O que acontece é que trabalhamos no ambiente urbano. Na medida em que são aprovados um loteamento, uma casa de repouso ou um hospital ao lado de uma mineração, a mina vai fechar. Nosso setor depende de políticas públicas, e seria importante a criação de um órgão que conheça os detalhes da atividade, onde há mineral e quanto tem. Isso deve ser responsabilidade dos Estados e, em grau quase igual, dos municípios.
Fernando: Nos EUA há uma enorme discussão antes da abertura de novas minerações de agregados. Mas, uma vez havendo acordo, extraem o máximo possível das minerações. A comunidade ao redor concorda e é beneficiada. No Brasil, há uma enorme dificuldade por falta de um efetivo planejamento para o setor.
Infomet / Revista Elo
Publicação: 22/01/2010