Fale conosco Anuncie Sobre o Met@lica Links Recomendados
OBRAS ARTIGOS TÉCNICOS MATERIAIS E PRODUTOS GUIA DE EMPRESAS TABELAS PROGRAME-SE NOTÍCIAS
O Contraponto: Arco do Patriarca
Na densa e conturbada malha da cidade de São Paulo a arquitetura de Paulo Mendes da Rocha apresenta-se como contraponto de pausa e reflexão.
Sua forma regular, regida pelas leis de precisa geometria, impõe-se como expressão de confiança no projeto arquitetônico para a construção e reorganização do espaço urbano. A Praça do Patriarca continua sendo uma esplanada de dimensões reduzidas, ladeada por verdadeiras muralhas de fachadas de prédios empresariais, inserida em contexto urbano de intenso tráfego de pedestres e veículos, característica típica do Centro Metropolitano de São Paulo. No entanto, com a construção do Arco do Patriarca, a percepção do olhar já não é caótica.

O grande pórtico de aço branco insere-se no coração da praça enunciando a nova ordem local. As grandes proporções da construção não obstruem o espaço congestionado da praça. Ao contrário, por não promover volumetria fechada, a forma projetada privilegia o plano e a linha, e, conseqüentemente, o espaço vazio.

De fato, desde as linhas de contorno, interior e exterior, delimitadoras da forma do pórtico, a cada movimento do olhar, é um novo desenho do entorno da praça que se apreende.

Assim, o pórtico ordena e redefine o espaço da praça existente, delineando-o, sucessivamente, a cada instante, segundo os movimentos do observador.

A Praça do Patriarca apresenta-se como local predominantemente de passagem. É a cabeça do precipício do Vale do Ingabaú que liga a cidade velha, no nível inferior, onde se localizam a Praça da República e o Teatro Municipal, e a parte nova, no nível superior, constituída pelos grandes prédios empresariais.

A revitalização da praça foi uma iniciativa empresarial privada, denominada Associação Viva o Centro. Para Paulo Mendes da Rocha, a solução apresentou-se de imediato: a necessidade de restauração do piso, ricamente desenhado em pedra portuguesa, e a substituição da velha cobertura por outra nova.

Mais uma vez, Paulo Mendes da Rocha sintetiza toda a complexidade de um projeto arquitetônico na estreita relação entre a forma e a estrutura.

São apenas dois pilares e uma viga, de 40m de vão livre, com uma cobertura relativamente leve pendurada que, a princípio, só precisaria sustentar o peso próprio. Tal construção, inteiramente em aço, aparentemente simples, exigiu, contudo, grande complexidade de cálculos matemáticos, devido aos problemas oriundos das forças dos ventos.
Tomando por base a forma aerodinâmica da asa de um avião, cuja estrutura interna de armação, constituída por longarinas, recebe recobrimento externo leve, em alumínio, o arquiteto adota a solução do sistema estrutural tipo casca de aço delgada com nervuras internas.

De fato, desde os primeiros experimentalismos, com a expansão da força aérea militar do período entre guerras europeu, quando utilizou-se tecido tracionado como material de recobrimento dos chassis estruturais das asas dos aviões, ficou provado que o excesso de peso próprio agravava os problemas de torção, acentuando o índice de acidentes aéreos.

De acordo com um dos engenheiros responsáveis pelo projeto de cálculo estrutural, Julio Fruchtengarten, a forma da cobertura foi cuidadosamente estudada de modo a garantir a resistência adequada às forças de vento. A viga do pórtico foi dimensionada para resistir aos esforços de torção provenientes da ação assimétrica do vento ao longo da placa.
A cobertura projetada mede 20 x 25m, pendurada em apenas quatro pontos centrais, gerando balanços em cada um de seus quatro lados.

As chapas de aço utilizadas para o recobrimento são bastante delgadas: 3 e 4,5mm de espessura para a mesa superior, e 6mm para a mesa inferior, sujeita a maiores esforços de compressão.

A solução de chassis interno com nervuras nos dois sentidos, transversal e longitudinal, garante a rigidez da delgada chapa de aço.

O princípio da estrutura tipo "caixão" mantém-se constante em todos os componentes do sistema. Os dois pilares e a enorme viga horizontal, ambos em chapas de aço com seção triangular fechada, constituem um invólucro para um sistema de enrijecedores internos, sendo que o dos pilares é essencialmente uma seção tipo "I", localizada no centro dos mesmos.

Adotar o mesmo perfil externo para os pilares e a viga facilita o acabamento nas áreas de contato. Neste aspecto vale destacar um detalhe de engenhosidade técnica surpreendente: o apoio da viga em cada pilar é articulado através de um único ponto de tangência formado por chapas curvas, instaladas nos topos dos pilares.

Não existem parafusos ou soldas em tais pontos. Cantoneiras guia foram instaladas de cada lado, a fim de evitar o excesso de movimento.

Para Paulo Mendes da Rocha, a articulação através de pontos tangentes, além de garantir a articulação, permite a passagem de luz por entre as enormes peças estruturais, constituindo condição fundamental para o efeito de soltura e leveza do conjunto.

Este conceito é mantido, ainda, na transição dos apoios dos pilares no solo.

Ao terminarem um pouco antes do piso, as chapas de aço de recobrimento dos pilares em perfil I, produzem frestas de luz no embasamento da construção, enfatizando os efeitos de soltura e leveza desejados.

Todas as peças foram pré-fabricadas e transportadas para o local. A viga foi construída em três partes, soldada durante a obra. A forma de seção triangular, adotada para a viga, que contém um dos vértices, perpendicularmente direcionado para baixo, e os outros dois, diagonalmente para cima, baseou-se, ainda, em outra função determinante para o projeto, além da estrutural.

Localizada no centro da cobertura, a viga apresenta-se como uma enorme calha que recebe parte das águas pluviais.
Calhas menores foram instaladas, nas extremidades da marquise, a fim de atender o restante do caimento da cobertura, o que reduz o problema de respingamento e maximiza o espaço utilitário de abrigo.

Tal qual uma delgada asa de um pássaro, que acolhe e abriga, a imensa marquise branca projetada indica o caminho de passagem descendente: a escadaria de acesso ao vale, através da Galeria Prestes Maia, localizada sob a praça, ao mesmo tempo que, mantendo a tradição típica de um local de passagem, contém uma porta: o Arco do Patriarca.

Sem dúvida, obra exemplar de equilíbrio formal e tecnológico que ultrapassa o patamar utilitário arquitetônico e adquire valor estético de beleza escultórica.
Fonte: CBCA - Estrutura: O êxito da da boa forma - Abril/2004
Publicação: 2004