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Requisitos desejáveis para atuação no segmento de Estruturas Metálicas
Por Engº Paulo Andrade
O que me leva às presentes considerações é a minha preocupação e o desejo de melhor conscientizar os usuários e militantes nessa área de engenharia da construção, que no Brasil ainda é cercada de muitas indagações e duvidas.

Tal situação decorre especialmente do fato de, ainda as estruturas metálicas se constituírem em algo historicamente novo entre nós, pela falta, até pouco tempo das matérias primas e tecnologias necessárias, e pela falta de tradição no correspondente ensino universitário, só focalizado nas ultimas décadas do século XX.

Como por força do destino, desde minha formatura em 1948, venho ininterruptamente, me dedicando às Estruturas Metálicas, e tive o grato privilégio de atuar em todas as áreas envolvidas no processo construtivo, desde projeto, desenhos fabricação, montagens, comercialização e administração empresarial do setor.

Sinto-me, pois na obrigação de tentar devolver um pouco do que aprendi durante esse tempo, para que a imagem desse ramo de engenharia não seja denegrido ou mal interpretado por falta de uma focalização da importância dos processos envolvidos no processo e que dependem dos profissionais, em suas atuações como um todo.

As construções com utilização das estruturas metálicas, sobejamente adotadas em toda Europa e Estados Unidos desde a mais de dois séculos, vem sendo nos últimos anos cada vez mais utilizadas e conhecidas pelos engenheiros , arquitetos e usuários brasileiros.

Somente a partir de meados do século XX, com o advento de Volta Redonda, e mais especialmente nos últimos trinta anos, com o esforço das entidades de classe e das Siderúrgicas Brasileiras, essa nobre técnica de engenharia se fez notar, com suas eloquentes características de construções industrializadas e destacada tecnologia.

Atualmente podemos nos orgulhar em termos conseguido um progresso na área, que nos coloca em alguns casos, em paralelo com realizações do chamado primeiro mundo.

Não cabe aqui explicar ou justificar as razões desse progresso, mas pretendo apenas focalizar a importância qualitativa requerida aos profissionais envolvidos nos diversos setores desse sistema construtivo. Em minhas lides profissionais dos últimos tempos, atuando na área de consultorias e emissões de pareceres técnicos, tenho deparado com diversas ocorrências patológicas, muitas delas decorrentes de falta de melhores esclarecimentos dos envolvidos nas diversas áreas do sistema.

Felizmente para orgulho da engenharia nacional, já contamos com varias empresas,cujas capacidades de produção e qualidade se ombreia com muitas empresas do primeiro mundo.

No entanto ainda não são a maioria, e em virtude da emergente conscientização das vantagens das características das estruturas metálicas, e do progressivo apoio dos arquitetos brasileiros, surgiram muitas medias e pequenas empresas que ainda lutam com a falta pessoal especializado, seja na área de projetos, de fabricação ou de montagem.

Tais empresas ainda, na procura desenfreada de obter melhores preços de produção, muitas vezes pecam contra as qualidades, gerando necessidades de reparações e substituições, que denigrem a imagem do sistema e geram graves prejuízos a eles produtores.

Sem uma consciência de qualidade no desempenho profissional, dificilmente poderemos continuar esse progresso, pois a boa imagem das estruturas metálicas poderá ser turvada pela atuação de profissionais ainda não suficientemente conhecedores da área ou não treinados para uma atuação entusiasmada, correta e condigna.

Passo, pois, a elencar algumas características que julgo importantes salientar, ou sejam, quais os conhecimentos e qualificações mínimas desejáveis para um bom profissional na área de Estruturas Metálicas.
Vamos examinar as três áreas mais expressivas dessa arte de construir e o que mais se deseja da atuação dos profissionais envolvidos.

1. Área de Projeto

1.1. Objetividade e adequabilidade da concepção estrutural, prática eficaz e econômica, e seu inter-relacionamentos com os vários sistemas construtivos complementares.

1.2. Conhecimento de Resistência dos Materiais e como se manifestam nas estruturas com aço estrutural

1.3. Conhecimento de Estabilidade e a necessária conceituação do comportamento estrutural especifico e característico das construções com aço. Conceito correto da diferenciação desse comportamento face ás característica de outros processsos construtivos, tais como os de Concreto, Madeira ou Alumínio, e muito em especial das estruturas mistas metálica-concreto.

1.4. Conhecimento e sensibilidade no uso das Normas Técnicas nacionais e estrangeiras relativas a cálculos de dimensionamentos, aos materiais e á execução de desenhos de fabricação e montagem, incluindo os materiais de conexões tais como parafusos e soldas. Ênfase especifico para os dimensionamentos das ligações.

1.5. Conhecimento dos princípios e normas para a preparação, e proteção anti-ferruginosa. Conhecimento das características dos aços resistentes aos efeitos oxidantes dos meios ambientais.

1.6. Conhecimento e familiaridade com as tabelas de características dos diversos perfis laminados, dobrados ou soldados, nacionais e estrangeiros.
Consciência e sensibilidade da proporcionalidade das características decorrentes das dimensões das seções e resistências decorrentes das qualidades do aço empregado
Habilidade para relacionar essa sensibilidade com as intensidades e tipologias das solicitações a que as peças estruturais são submetidas.

1.7. Conhecimento das principais operações utilizadas na fabricação, proteção, transporte e montagem, a fim de adequar às concepções, os dimensionamentos e os sistemas de interligações, às facilidades operacionais de produção e montagem.

1.8. Conhecimento dos princípios que norteiam os sistemas de desenhos de projeto e de detalhes para fabricação. Conhecimento das convenções de simbologias, marcação e listagens, aliadas aos conhecimentos de dificuldades de montagem, problemas de alçamento e interligações onde uma conexão mal concebida pode acarretar prejuízos em tempo e retrabalhos.

1.9. Conhecimento das características de qualidade, adequações aos usos, e especificações dos materiais complementares da estrutura ou das partes com interfaces.

1.10. Conhecimento das Normas e Sistemas para proteção passiva contra incêndio

1.11. Conhecimento da existência e características das inovações e evolução tecnológica, tais como:

Aços especiais com maior resistência aos esforços e maior resistência à corrosão
Equipamentos mais sofisticados e adequados
Utilização de maquinaria com controle operacional computadorizado.
Perfis soldados e eletro soldados. Características e cuidados a observar.
Maior qualidade em perfis formados a frio. Diferenciação dos valores de resistências específicas dos aços adequados a perfis formados a frio, aos eletros-soldado ou aos laminados.
Normas brasileiras ou estrangeiras mais adequadas e atualizadas, procurando estar a par das modificações em comparação às anteriores.
1.12. Conhecimentos relativos às estruturas mistas (aço-concreto). Dimensionamento e sistemas.

Nota:

Na área de projeto é onde se requer a integração da maioria dos conhecimentos do processo construtivo com aço.

Não basta apenas um projeto ser bem calculado, e os perfis corresponderem às solicitações detectadas pelos cálculos de estabilidade.

Além dessa importância, a estrutura deverá ser projetada para ser econômica sem prejuízo da resistência e qualidade, e praticamente exeqüível na sua fabricação e facilmente montável na obra, com critérios adequados ao inter-relacionamento com outros materiais e processos envolvidos na obra.

2. Área de Fabricação

São desejados aos profissionais ligados à Fabricação, os seguintes conhecimentos básicos, abrangendo:

2.1. Organização das fábricas de estruturas. Lay-outs mais eficientes Minimização de distancias e movimentos.

2.2. Seleção das operações possíveis de serem executadas a descoberto e aquelas recomendadas a serem realizadas sob coberturas. Cuidados necessários ás fabricações a céu aberto.

2.3. Escolha seleção e justificativas econômicas e funcionais para equipar a fabrica com sistemas de transportes internos adequados, como Pontes Rolantes, Monovias, ou equipamentos sobre rodas. Adequação desses equipamentos quanto à suas capacidades, face aos pesos dos produtos a serem produzidos. Fuga das improvisações.

2.4. Conhecimento dos Processos envolvidos na fabricação.

(aprovisionamento)-(estocagens)-Guarda de produtos auxiliares como tintas, eletrodos, gazes, ferramental miúdo etc.
(movimentações internas)-Sistemas e dispositivos sobre rodas ou aéreos.
(cortes)-(furações)-Operações por usinagem ou prensagem
(gabaritos)-(soldas de composição)-(acabamentos)-Gigs de posicionamento para soldas de conjuntos.
(preparação para pinturas protetoras)-(aplicação da proteção)-Sistemas secos e úmidos
(carregamentos)- (romaneios)-(transportes) (Marcação de identificação)
Interpretação dos desenhos de projeto e de execução (detalhes de fabricação)
Equipamentos em geral: suas funções, capacidades e limitações. Seleção adequada para suas aquisições e instalações.
Ferramental - adequações e limites de utilização. A importância da escolha correta.
2.5. Conhecimento e sensibilidade quanto à qualidade dos serviços e dos resultados relativos a cortes, furações, soldas, ligações, acabamentos - desbastes-retificações, e calandragens. Importância do bom acabamento independentemente do visual.

2.6. Capacitação para procedimentos de Inspeções rotineiras e controles dimensionais.

2.7. Controles de estoques - Conveniência e justificativas - Locais e dispositivos para armazenamentos, manuseios e transportes internos.

2.8. Sistema de limpezas e preparação das superfícies para proteções antiferruginosa- A preocupação com locais inacessíveis ou os suscetíveis a agressões mais comuns.

2.9. Características dos meios de transportes para a obra e suas movimentações, com vistas à proteções da estrutura contra seus efeitos.

Adequação das dimensões dos conjuntos estruturais a serem transportados, face à quantidades, tamanho da obra e condições das vias de acesso.
2.10. Consciência da obrigatoriedade de uso de material de proteção e a transmissão dessa consciência aos subordinados em todos os setores destacando a necessidade e utilidade.

2.11. À chefia ou direção da fabrica caberá transmitir a seus subordinados, cada um em sua especialidade, os princípios de respeito á qualidade, obediência aos desenhos, ordem e respeito profissional, para um desempenho harmônico de todas as atividades.

3. Área de Montagem

Aos profissionais envolvidos nessa área é altamente recomendado:

3.1. Interpretação correta dos esquemas do projeto de montagem.

Familiarização com as convenções e sistemas de desenhos.
3.2. Interpretação e aplicação dos sistemas de marca de montagem- A importância da localização das marca tanto nos desenhos como na peça a ser montada.

3.3. Normas para montagem- Sensibilidade e discernimento na aplicação.

3.4. Conhecimento dos sistemas de equipamentos e ferramental- Obediência aos limites de carregamentos e recomendações dos respectivos fabricantes.

Cuidados e Manutenção - Ordenação e proteção dos equipamentos quando em intervalos de utilização.
3.5. Conhecimento dos Processos de ligações - travamentos, contraventamentos e escoramentos provisórios.

3.6. Sensibilidade para determinar o centro de gravidade das peças a serem erigidas, de forma a serem evitados desequilíbrios, perdas de tempos e acidentes

3.7. Controle de prumos, níveis e esquadrejamentos.

Manutenção permanente e legível das cotas básicas de referência. Verificação cuidadosa dos eixos das bases e apoios.
3.8. Controle de cronogramas- Diário de obra com anotações de ocorrências especificas e do andamento quantitativo dos elementos montados- Anotação destacada nos desenhos de montagem, das peças realmente montadas e controladas diariamente.

3.7. Controle de qualidade de acabamentos em geral. Controle de Torque em conexões parafusadas. Controle da qualidade das soldas-Anotações no Diário de Obras.

3.8. Controle das eventuais deformações por operações de montagem, e danos nas pinturas protetoras. Aplicação correta de retoques, se possível com tintas de tons diferentes

3.9. Conhecimento dos Sistemas Complementares, tais como blocos de fundações e respectivas ancoragens, coberturas, lajeamentos e interfaces com outros componentes da obra- Limpeza das áreas de interfaces. Conhecimento da importância de grauteamento sob as placas de apoio nos blocos de fundação.

3.10. Conceituação e importância dos sistemas de segurança em geral-Utilização de andaimes, escadas e equipamentos adequados e seguros.

As considerações dessa apresentação representam o meu desejo de colaborar com os profissionais mais jovens, e com os usuários que se tornam cada vez mais interessados no sistema, para que tenham melhores atendimentos e para confiarem nas estruturas metálicas com todas as suas boas qualidades características.

Para uma eventual complementação do tema aqui abordado, relaciono algumas publicações elaboradas por mim, no decorrer do tempo:

Revista Engenharia do Instituto de Engenharia n.º 500/1994 (Divisão Técnica e Estruturas) - “A Construção com estruturas metálicas – Uma visão global”
Revista Construção Metálica-ABCEM n-32/1998- “Como contratar uma Estrutura Metálica com segurança-(Entrevista)
Revista Construção Metálica-ABCEM n-32/1998- “Consultoria Preventiva na construção com aço, acompanha a gestão de qualidade” (entrevista)
Revista Brasileira do Aço (INDA) n.º 42 – 1999 “A hora e a vez do Aço”-(Entrevista)
Revista Construção São Paulo n.º 2719 de 20/03/2000-Entrevista
Revista Construção Metálica –ABCEM n.ºs-68 e 69 /2005-“ A Racionalização da Construção Metálica” (Artigo –Palestra)
Fonte: Engenheiro Paulo A. Andrade - Consultor na área de Estruturas Metálicas.
Engenheiro formado em 1948 pela Escola de Engenharia Mackenzie.
Sócio Remido e Militante do Instituto de Engenharia.
Fundador da ABCEM - Participou de Diretorias e Conselhos.
Ano de publicação: 2007