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Marquises Modernas

A arquitetura moderna brasileira tem suas raízes na arquitetura européia dos anos 1920 e 1930; nisso foi fundamental a vinda e atuação de Le Corbusier ao nosso país, divulgando sua obra e colaborando com um jovem grupo de arquitetos que viviam na capital federal e teriam grande presença e influência na arquitetura moderna brasileira 1.

Para a formação do grupo, o projeto do Ministério da Educação e Saúde foi paradigmático; além de ser um dos primeiros arranha-céus modernos construídos no mundo, influenciou, sobremaneira, mais de uma geração de arquitetos. Nesse projeto estavam determinados todos os cinco pontos da arquitetura moderna: pilotis, teto jardim, janelas longas, planta livre, fachada livre, acrescentando-se os brise-soleil devido ao clima tropical. Tais elementos viriam a fazer parte, nas décadas seguintes, do repertório dos arquitetos brasileiros para a concepção de edifícios, aplicados de maneira original ou mecânica, dependendo das condições e do talento de seus autores.

Característica da arquitetura moderna local foi a utilização de formas prismáticas, advindas do modelo racionalista, contrastadas por elementos e volumes livres e orgânicos como caixas de escada e lajes de teto jardim.

Outra estrutura arquitetônica utilizada largamente pelos arquitetos brasileiros foi a marquise, que se tornou um dos elementos marcantes de identidade da arquitetura moderna brasileira.

Este trabalho pretende deter-se apenas nesse elemento arquitetônico muito pouco estudado : a marquise.

Marquise ou Marquesa, pelo dicionário de arquitetura, originalmente, é o mesmo que ¨alpendre sustentado por estrutura metálica, que resguarda as plataformas de pequenas estações ferroviárias ¨. Ou ainda, mais precisamente ¨laje em balanço em edifícios, logo acima do andar térreo para proteger os pedestres do sol e da chuva¨. Os autores ainda resguardam a conceituação atual do termo como ¨todas as espécies de coberturas lateralmente abertas, ao lado dos edifícios ¨(CORONA & LEMOS,1972,
p.314-315).

Portanto, percebe-se que nem o termo, muito menos o elemento arquitetônico são frutos do movimento moderno, afinal são belíssimas e tecnologicamente sofisticadas as marquises do século XIX, particularmente as de estrutura metálica, que cobriam os acessos de grandes construções, especialmente estações ferroviárias. Mas nesse trabalho nos interessam apenas aquelas desenvolvidas pela arquitetura moderna aplicadas a partir de conceitos diferentes daqueles do ecletismo.

Por esse motivo, consideramos que as definições do vocábulo que encontramos nos dicionários são redutoras e não abrangem completamente as várias possibilidades reais desse elemento arquitetônico, nem abrigam toda sorte de experimentos realizados sob essa denominação durante o século XX.

Ao nosso ver, marquise dentro de uma concepção moderna e por que não, contemporânea, deveria ser :
¨elemento arquitetônico de cobertura, lateralmente aberto, agregado a uma ou mais edificações, que serve para propiciar acesso, proteção, ligação ou delimitação. ¨
A partir daí tentamos criar uma classificação própria que abrigasse tais elementos arquitetônicos :

Marquises de Proteção
Marquises de Acesso
Marquises de Ligação
Marquises de Delimitação

Tal classificação é decorrente das várias propostas dos arquitetos modernos para as marquises, portanto, advém de usos concretos dessa estrutura que, embora não tenha sido uma invenção estritamente moderna, o é em relação ao tipo de material utilizado, seus apoios e suportes, formas e modelos e aos seus vários desdobramentos de uso.
Marquises de Proteção

Mais próximas de sua definição original, é um elemento arquitetônico estruturado em balanço, em edifícios, logo acima do andar térreo, para proteger os pedestres do sol e da chuva. Tais marquises, utilizadas em construções no alinhamento do lote, muito comuns nas áreas centrais, cobrem parcialmente o passeio público e, em geral, estabelecem-se em toda linha da(s) fachada(s) do edifício. Outra função seria a de proteger os passantes de objetos que porventura fossem atirados ou derrubados dos andares superiores.

Esses elementos de cobertura só puderam ser viabilizados após o aparecimento dos novos materiais construtivos como o aço e o concreto armado, que possibilitaram projetos dotados de amplos balanços. Muitos arquitetos se apoderaram desse extenso plano horizontal para demarcar o final do térreo ou da sobreloja, ou mesmo rebaixando-a um pouco, permitir iluminação natural à sobreloja. Um exemplo dessa situação é o Edifício Seguradoras, projeto dos Irmãos Roberto de 1943 e situado no centro do Rio de Janeiro; nele essa grande lâmina suspensa entre caixilhos colabora para a leveza do conjunto e anuncia os andares-tipo. Aqui mais uma vez aparece uma das características marcantes da arquitetura moderna brasileira que é a procura pela leveza, demonstrada pela marquise em concreto aflorando de um extenso pano de vidro; tais contrastes serão recorrentes em projetos de vários arquitetos, usuais tanto em relação às marquises de proteção quanto às de acesso.
Fig. 1 - M.M.M. Roberto, Edifício Seguradoras. Rio de Janeiro,1943. Fonte: (BRUAND, 1981, p.176).
De alguma maneira as marquises de proteção têm função parecida com os antigos beirais que, além de protegerem o pedestre, preservavam a construção de uma excessiva insolação, das chuvas e da umidade.

Por muitas vezes possuem pé direito mais baixo que o do piso térreo e, devido a isso, geram um espaço de transição entre passeio e o interior do edifício, quase um convite para adentrá-lo. Outro aspecto relevante é do abrandamento da luz solar, possibilitando-se uma gradação de iluminação entre o externo e o interno que permite melhor vislumbre dos interiores; esse artifício é freqüentemente utilizado pelas construções de uso comercial, a fim de propiciar melhor exposição dos produtos à venda, aos olhos daqueles que passam pela rua.

O abrandamento solar também auxilia na transição de acesso entre áreas abertas e fechadas, particularmente em zonas de excessiva claridade solar, como em nosso país, preparando a retina humana para as alterações de iluminância.
Marquises de Acesso

Elemento arquitetônico de proteção coberto e aberto situado apenas à entrada de um edifício, portanto, de dimensão restrita e proporcional ao acesso do mesmo.
É o melhor exemplo do elemento livre em contraste às formas rígidas da arquitetura moderna, regular, racional e modulável. Pode-se dizer que seria um momento de devaneio estrutural e plástico frente às exigências industriais de modulação e racionalidade presentes na arquitetura do período.

São surpreendentes os variados padrões dessas marquises, quase sempre erguidas através de malabarismos estruturais. Planas, côncavas e convexas, retangulares, triangulares, hexagonais, etc, as marquises de acesso se colocam como surpresas arquitetônicas, chamarizes às entradas dos edifícios.
Fig. 2 – Gregori Warchavchik. Marquise de acesso à casa modernista da Rua Santa Cruz, após reforma feita pelo arquiteto, em 1934. São Paulo. Foto Ricardo Barneschi.
Na arquitetura brasileira produzida durante os anos 40, 50 e 60 do século XX, mais ainda, a marquise significava a presença de um toque pessoal do arquiteto perante o modelo modernista proposto, que geralmente obedecia, ou tentava obedecer, aos óbvios cinco pontos da arquitetura; era uma maneira de diferenciá-la de uma multidão de outros exemplares assemelhados. Na arquitetura brasileira do período as experiências estruturais se colocavam como face angular da modernidade, havia a tentativa de, a partir do concreto armado, extrair-se formas as mais variadas, desafiando tal elemento a uma leveza formal cada vez maior. Arcos, abóbadas, pilares, rampas e marquises eram os elementos preferidos dessas experiências estruturais que resultavam, também, em experiências plásticas inovadoras.

Não se pode esquecer da função básica original da marquise que era a de proteger o acesso das pessoas, permitir o rebatimento do sol e possibilitar que as portas de entrada pudessem ficar sempre abertas mesmo nos dias de chuva. Portanto, nesses aspectos ela não diferia em nada dos alpendres ou avarandados das antigas construções, porém variavam no porte, muito maiores e na maneira de determinação dos apoios.

Os apoios ou suportes poderiam ser os mais diversos, desde aquelas marquises estruturadas a partir de colunas ou pilares de concreto, às delgadas colunas de aço; desenho de pilares em V, W e outros tantos inusitados; suportes em forma de mão francesa, atirantados ou pendurados através de estruturas metálicas, as variações foram muitas, algumas bem sucedidas, outras nem tanto.

A marquise se coloca como uma transição entre o espaço público da calçada para o reservado e privado, uma aproximação entre o interno e o externo. Nesse aspecto, podemos dizer que as marquises de acesso são boa parte das vezes, uma substituição do pavimento térreo livre com pilotis. Afinal, estes eram presença obrigatória nos primeiros edifícios modernos, significavam que todo o espaço do térreo estava liberado para passagem de pedestres; era ainda um marco determinante na apropriação da terra urbana e elemento antagônico ao retalhamento da cidade tradicional, dividida em lotes privados. O uso dos pilotis, portanto, pressupunha amplo domínio sobre o espaço urbano, ou ao menos de uma gleba, e nesses casos o pavimento térreo dos edifícios, todo ele, colocava-se como ligação entre o espaço público e o privado. Era óbvio que, devido à sua existência, qualquer tipo de marquise de acesso era desnecessário e redundante aos projetos arquitetônicos.

Entretanto, quando a arquitetura moderna se vê frente ao traçado tradicional de nossas cidades, subdividida por quadras e lotes convencionais, percebe que o térreo com seus pilotis não cumpriria mais sua função original de passagem livre entre as partes da cidade. Ele agora se tornaria área de uso exclusivo dos moradores ou, numa hipótese pior, quando em edifício residencial, estacionamento. No caso dos comerciais, geralmente situados em áreas nobres e centrais, o térreo possuiria algum uso comercial ou de serviços e, para tanto, mesmo que sustentado por pilotis, seria invariavelmente fechado por panos de vidro.

É nesse momento que a marquise se coloca como espaço de transição, função essa inicialmente destinada a todo o térreo aberto com pilotis. A marquise fará as vezes do térreo livre, porém, devido suas dimensões menores, terá que se apropriar de outros valores entre os quais uma certa extravagância plástica ou estrutural.

Esse elemento arquitetônico foi extremamente valorizado pelos arquitetos, devido ao natural contraste com os volumes precisos e sólidos; mais uma vez a marquise se colocaria como antagonismo, agora por sua leveza. Muitas dessas estruturas, mesmo pesando várias toneladas, parecem flutuar no ar devido aos artifícios de apoio e/ou formas de suspensão. Se a leveza é uma das características da arquitetura moderna brasileira, as marquises são dos principais elementos que lhe deram tal marca.

As marquises também cumpriam a função de anunciar a todos a localização da entrada dos edifícios. Esse era um aspecto importante numa arquitetura que valorizava a modulação e a tipologia ascética. Diferentemente do sistema de composição da arquitetura clássica e mesmo eclética que guiava os projetos a um arranjo simétrico e volumetricamente canônico, definindo os acessos claramente no centro do conjunto, na arquitetura moderna os dogmas do passado eram desprezados e as entradas poderiam ser estabelecidas em qualquer ponto.

Outra regra considerada ultrapassada pelos arquitetos modernos era a da composição vertical dos arranhacéus, escalonada em três partes principais: embasamento, corpo e fechamento, seguindo-se a lógica das colunas clássicas. Por muitas vezes, os panos contínuos de vidro das construções modernas, que partiam do térreo ao último andar sem qualquer diferenciação ou demarcação, necessitavam de um indicativo do acesso principal que, de outra maneira, seria difícil de ser encontrado. Em casos assim, a marquise de acesso cumpria a função de alardear a todos onde seria o acesso principal, de maneira que as pessoas não precisassem procurar ou adivinhar por onde entrar.
Marquises de Ligação

Elemento arquitetônico de proteção, coberto e aberto que, implantado num grande espaço livre, interliga construções ou edifícios que fazem parte de um mesmo conjunto arquitetônico.

Talvez mais próximas de uma experiência brasileira, cujo maior exemplo é a marquise do Ibirapuera, projetada por Niemeyer em 1951 a partir das experiências da Pampulha, é um artifício marcadamente plástico que adquire status de estruturador do espaço.

São, ainda, elementos que dinamizam o espaço permitindo através de suas curvas e contracurvas maior movimento às composições arquitetônicas; as ondulações dão vibração à paisagem de uma maneira inusitada e pouco comum às obras arquitetônicas, caracterizadas pela solidez e apego ao solo. Não é por menos que a obra de Niemeyer é seguidamente comparada às manifestações barrocas( NIEMEYER, 1987, p. 228 ).

O movimento é plenamente garantido por um jogo de linhas curvas aliadas às retas que, embora presentes em outros momentos da história da arquitetura, são fruto de experiências claramente contemporâneas, pois resultado de um complexo estudo estrutural alinhado ao caráter plástico do concreto. Essas marquises extrapolam suas funções originais, indo além, no sentido de organizarem o espaço livre e, principalmente, ligarem dois ou mais edifícios de um mesmo conjunto. Por esse motivo, as marquises de
ligação só são bem sucedidas quando implantadas em grandes áreas livres, onde podem ser percebidas claramente sem competirem com os edifícios principais ou com o espaço paisagístico, portanto, seu aspecto formal exige um desequilíbrio intencional entre as áreas cobertas e abertas, devendo as últimas serem proporcionalmente maiores.

Outro aspecto relevante é a possibilidade das marquises de ligação agruparem edifícios de formas variadas que, de outra maneira, dificilmente teriam caráter de conjunto. O Parque do Ibirapuera novamente é o exemplo, onde construções prismáticas somam-se a cúpulas e, mesmo assim, resultam numa unidade plástica, certamente favorecida pelas marquises de ligação.
Figura 3 – Oscar Niemeyer e Associados. Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1951. Fonte: (FICHER,ACAYABA, p.20)
Estas possuem desenhos variados, dos mais regulares aos complexos jogos de padrão amebóide. Tal forma livre parece ter-se iniciado com a arquitetura moderna brasileira, mais precisamente na Pampulha, através de Niemeyer; contudo, não podemos nos esquecer que as lajes de cobertura dos terraços jardim propostos por Le Corbusier já possuíam um desenho mais solto, mesmo nos seus momentos mais decididamente racionalistas.

Talvez o projeto precursor, no Brasil, seja o do Ministério da Educação e Saúde, de 1936; nele, embora incorporando o desenho dos volumes da caixa d’água e elevadores, a laje de cobertura tem seus limites mais livres. Percebe-se, nesse mesmo edifício, que os jardins da laje de cobertura do segundo pavimento compõem-se de canteiros com desenho fluido absolutamente maduros. Outra fonte inspiradora foram, certamente, os projetos paisagísticos de Burle Marx.

As marquises de ligação conseguem, ainda, organizar o território definindo usos e desenhos, às vezes diferentes, para cada uma das partes. Definem uma setorização espacial de maneira sutil, mas eficiente.

Mais uma vez é o caso do Parque do Ibirapuera, cuja marquise claramente delimita áreas de tratamentos paisagísticos diversos que, por sua vez, relacionam-se com cada uma das edificações contíguas. Sem o recurso das marquises, caso fosse tentada uma setorização, o desenho do espaço se tornaria fragmentado e confuso, carecendo de elemento de separação.

Elas conseguem, portanto, subdividir o espaço sem necessariamente fracioná-lo, em virtude de sua leveza plástica e do pequeno número de apoios que desaparecem visualmente sob sua sombra e envoltos pela paisagem de fundo.

Respondendo aos críticos que se manifestavam sobre o rebuscamento de sua obra, Niemeyer nos explica sua maneira de conceber as formas livres,

¨A própria curva que tanto os perturbava, era por eles desenhada de forma frouxa e desfibrada, não a sentindo como nós, estruturada, feita com curvas e retas. Até as colunas que afastávamos dos edifícios e desenhávamos com formas livres e variadas, eles não conseguiam compreender. Um dia contei como as projetava, como ao desenhá-las me via a circular entre elas e os edifícios, imaginando as formas que teriam, os pontos de vistas possíveis de variar, etc. Meu intuito era mostrar como o problema plástico era laboriosamente pensado e como nele nos detínhamos com carinho.¨ ( NIEMEYER, 1987, p. 232 ).

Por sua resposta percebe-se o quanto as curvas eram metodologicamente pensadas, desenhadas com a justaposição de curvas e retas e o quanto a diversidade plástica era importante para o arquiteto que imaginava os diversos pontos de vista possíveis numa mesma obra. Se somarmos uma marquise de desenho livre, como as concebidas por Niemeyer, aos vários edifícios do conjunto, como encontramos no Ibirapuera, esses pontos de vista se multiplicam quase ao infinito, dando inúmeras possibilidades ao observador. Portanto, a obra deixa de ser algo estático e facilmente absorvível, para se tornar algo complexo, dinâmico, visível sob múltiplos ângulos de olhar.
Marquises de Delimitação

Elemento arquitetônico de proteção, coberto e aberto que contorna ou abriga um espaço livre, delimitando-o.

As marquises de proteção e acesso são facilmente perceptíveis e raramente provocam dúvidas quanto a sua caracterização formal, mais difíceis e sutis são as de ligação e delimitação.

Em alguns momentos é duvidosa a diferença entre uma laje de cobertura e uma marquise, como no caso da belíssima Casa das Canoas, projeto de Niemeyer datado de 1953, onde não é fácil perceber se a mesma é uma marquise fechada que se abre em alguns momentos ou uma laje amebóide convencional. O mesmo se dá em relação a muitas das obras de Oswaldo Bratke, que possuem ¨perfurações¨ espaciais sob forma de jardins contornadas por lajes contínuas que cobrem toda construção.

O caso mais interessante é o do pavilhão de lazer da residência Oscar Americano, projeto de 1952, situada num imenso lote urbano, onde uma grande arvore é preservada e envolta por, ao nosso ver, uma marquise de delimitação. Este é um excelente exemplo, pois tal tipo de marquise consegue, no meio de um amplo espaço livre, definir um espaço menor e reservado, muito embora aberto. Mais ainda, auxilia no enquadramento da paisagem, que passa a contar com uma moldura.
Figura 4 – Oswaldo Bratke, Planta do Pavilhão de Lazer da residência Oscar Americano, São Paulo, 1952. Fonte (SEGAWA, DOURADO,1997, p. 130).
Figura 4 – Oswaldo Bratke, Planta do Pavilhão de Lazer da residência Oscar Americano, São Paulo, 1952. Fonte (SEGAWA, DOURADO,1997, p. 130).
Para o projetista tem a função de assegurar um espaço controlado ao lado da edificação, onde é possível dispor algum elemento a se destacar (árvore, piscina, lago, fonte, jardim, etc.) que permaneça com uma ligação segura com o setor interno da construção. A inexistência da marquise soltaria visualmente os elementos à paisagem circundante, diluindo-os no entorno.

Tal tipo de marquise é a única que não possui uso funcional definido (passagem, ligação, proteção, etc), é um elemento puramente compositivo e plástico.

A marquise de delimitação atua na tentativa de controle paisagístico de uma área próxima à edificação, fazendo com que a mesma permaneça parte do todo, porém sem na realidade o ser.

Nisso boa parte da obra de Bratke é exemplar, devido à sua maneira sensível de implantar as residências nos amplos lotes, onde é difícil definir se os vazios ajardinados integram a construção ou se a construção é estendida à paisagem que se apropria dos vazios ajardinados.

Outro exemplo vem de Niemeyer, a Casa de Baile, do conjunto da Pampulha, projetada em 1942, que possui uma marquise lançada a partir do edifício principal que contorna os limites da pequena ilha onde está situada, originando um espaço livre e aberto, porém parcialmente contornado e delimitado. Sobre o projeto, Yves Bruand comenta :

¨Com efeito, o paradoxo está no fato de parecer a construção ter sido realizada unicamente para valorizar o vazio que emoldurava, comportando-se mais ou menos como a moldura de um quadro , constituído pela paisagem ¨ (BRUAND, 1981, p. 112).
Figura 6 – Oscar Niemeyer, Pavilhão de Baile, Belo Horizonte, 1942. Fonte (UNDERWOOD, 1994, p.58).
Nesse caso, mesmo que a marquise, como claro pretexto, ligue o salão aos vestiários, é certo que sua largura, extensão e intenção espacial vai muito além disso. O acesso aos vestiários parece ser apenas um subterfúgio para um abraço ao espaço livre que, ao mesmo tempo, expande o espaço interno da edificação.

Mesmo que a marquise não complete o círculo ao redor do salão de bailes, mantendo-o parcialmente aberto, ao contrário do projeto de Bratke, visualmente e espacialmente o sentido de proteção e contorno é claro.
Conclusão

A marquise, portanto, foi um elemento de identidade da arquitetura moderna brasileira, conhecida pela plasticidade e leveza. Representaram, quase sempre, momentos de devaneio estético, até pelo pouco compromisso com seu uso e permanência, devido ter sua função ligada a passagem, e às vezes nem mesmo isso, como no caso das marquises de delimitação. Tal característica favoreceu o tratamento plástico, aproximando-o ao fazer do escultor, mais que do arquiteto. Essa liberdade resultou em experiências primorosas que, é claro, fazem parte de edifícios e conjuntos arquitetônicos e não devem ser vistas isoladamente. Da mesma forma, tais elementos são produto de profundas pesquisas estruturais e do intenso conhecimento dos materiais construtivos, em particular, do concreto.

Este trabalho teve a intenção de ressaltar tais estruturas que, de maneira alguma, podem ser analisadas independentemente da obra como um todo, porém estas, sem as marquises, certamente perderiam muito de seu vigor e graça, e a arquitetura brasileira parte de sua identidade.
Referências Bibliográficas

BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo, Editora Perspectiva,1981
CORONA & LEMOS. Dicionário da Arquitetura Brasileira. 1. ed. São Paulo, Edart,1972.
FICHER, Silvia ; ACAYABA, Milan. Arquitetura Moderna Brasileira. São Paulo, Projeto Editores Associados, 1982.
NIEMEYER, Oscar. Contradição na Arquitetura. In: XAVIER, Alberto ( org.). Arquitetura Moderna Brasileira : Depoimento de Uma Geração. 1. ed. São Paulo, Editora Pini/ABEA,1987, p.225-228.
A Forma na Arquitetura. In: XAVIER, Alberto ( org.). Arquitetura Moderna Brasileira:
Depoimento de Uma Geração. 1. ed. São Paulo, Editora Pini/ABEA,1987, p.228-236.
SEGAWA, Hugo; DOURADO, Guilherme Mazza. Oswaldo Arthur Bratke. São Paulo, ProEditores Associados Ltda. 1997.
UNDERWOOD, David. Oscar Niemeyer and the architecture of Brazil. New York, Rizzoli, 1994.
Autor: Nilson Ghirardello
Data de publicação: 11/07/2012