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Primeiro Edifício em Estrutura Metálica do Brasil
Garagem América: Um exemplo de Pioneirismo e Arrojo Tecnológico
O que vou fazer aqui, neste painel, é simplesmente dar um testemunho vivenciado da aplicação de estruturas metálicas em edifícios de andares múltiplos. Não vou mostrar nenhuma novidade, nem fazer demonstração do que se realiza nesse sentido nos Estados Unidos, Europa, ou outros lugares do mundo.
Muito pelo contrário, vou lhes contar algo que aconteceu, no nosso ramo, em São Paulo, há 45 anos atrás (1954). Algo que demonstra que havendo aço estrutural em quantidade e a preço razoável, a construção metálica para edifícios de andares múltiplos é absolutamente possível entre nós, e que a capacidade de adaptação tecnológica, improvisação e garra do brasileiro, é notável.

Não querendo ser saudosista, nem ser daqueles que vivem dizendo: "No meu tempo era assim, etc.", desejo apenas demonstrar que se hoje se fala tanto no evento estruturas metálicas na construção civil de edifícios de andares, há 1/2 século já se fazia e se demonstrava as possibilidades da estrutura metálica no setor.

Vou falar sobre o 1 º prédio com estruturas metálicas de 16 andares, totalmente projetado, fabricado, montado e comercializado por brasileiros: a "Garagem América". Se houver tempo, falarei de outros, nas mesmas condições, realizados entre 40 e 45 anos atrás.
Pois bem, vamos aos fatos: um pouco de história e um pouco de técnica. Por se tratar de fatos "históricos", deverei citar alguns nomes, para o que, creio, terei a permissão.

Em 1954, um empresário paulista, Dr. Francisco Cintra Gordinho, preocupado com o problema de estacionamento que surgia em São Paulo com o desenvolvimento da indústria automobilística, e não existindo na época nenhum edifício para estacionamento em toda a cidade (talvez em todo o Brasil), resolveu adquirir um terreno no centro, para tentar esse tipo de empreendimento.
Chegada das primeiras vigas baldrame deslizando sobre roletes. Na ocasião havia grande dificuldade de obtenção de guindastes.
Assentamento das vigas baldrame(uso apenas de mastros de montagem). Não houve uso de guindastes, dada a grande dificuldade de obte-los.
0 terreno escolhido era uma barroca, nos fundos do edifício da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no trecho entre a Ladeira Riachuelo e o local onde hoje termina a Avenida 23 de Maio, próximo à Praça da Bandeira. 0 terreno era irregular em planta e em corte. Esse detalhe é importante para ressaltar a importância do que vamos mostrar.

0 terreno tinha uma faixa de 13 m de largura, apertado entre um edifício -de escritórios com 14 andares e um conjunto de casas velhas, avançando cerca de 18 m em plano, a 3 m abaixo da Rua Riachuelo e daí abrindo em leque, irregular, avançando cerca de mais de 25 a 30 m descendo em desnível de mais de 18 m, em direção a atual Avenida 23 de Maio, com frente de aproximadamente 25 m.

Apesar de topografia ruim, o que provavelmente correspondeu ao preço bom, tinha a vantagem de saída para duas ruas, e ao fato de que, abrindo em leque permitiria acessos em rampas, solução julgada na época, mais econômica do que com elevadores para carros.
Como de praxe, o prédio foi previsto totalmente em concreto armado. No entanto, surgiram dois fatores que dificultaram essa realização na forma convencional.

As colunas no primeiro pavimento atingiriam dimensões tais que deixariam, no trecho da rua Riachuelo, uma largura livre, pouco maior que 9 m, insuficiente para o estacionamento de dois carros frente à frente, dificultando a entrada e saída.

0 segundo fator era o de segurança. A fim de que se pudesse erguer o edifício, seria necessário escavar-se até o nível de 18 m abaixo da rua Riachuelo, para então se fazer as sapatas de fundação.

Esse movimento de terra poria em perigo o prédio existente ao lado, com risco de desabamento.A construção de muro de arrimo e escoramentos era altamente antieconômica.
As diversas vigas baldrame sobre as estacas( uma viga para cada três estacas)
Vista do 6º teto já lajeado e as vigas do 5º teto já colocadas. Notar as condições precárias do canteiro.
Para a construção, cujo projeto era de autoria do arquiteto Rino Levi, foi contratada a empresa Cavalcanti Junqueira S.A., com projeto de fundação da empresa Engenharia de Fundações S.A., e com projeto de concreto do Professor Ruy Leme.

Considerados os problemas de fundações, com as dificuldades citadas, em vista das características do terreno, foi pela primeira vez no Brasil, aventada a solução de fundações em estacas metálicas.

Os engenheiros da Engenharia de Fundações S.A., Lauro Rios e Professor Victor Mello, nomes sobejamente conhecidos, imaginaram a solução de 2 perfis 1 soldados pelas abas, formando um caixão. Isso, há 45 anos atrás, era absoluta novidade e se constituiu num desafio.

Hoje a solução é adotada de forma normal, na maioria dos casos de estaqueamento metálico.As obras do metrô de São Paulo e do Rio adotaram a solução, a qual passou a ser conhecida na época como solução "Paulista".

Para o obtenção das estacas, foi procurada a Companhia Siderúrgica Nacional, única produtora desses laminados.

0 aço desses perfis, no entanto, deveria resistir à corrosão, pois ficariam, pelo menos do lado externo do edifício, em contato direto com a terra.

Na ocasião não se falava no Brasil, em aço Corten ou outro similar. A CSN, interessada no assunto, forneceu os perfis em liga especial com alto teor de cobre, o que sem dúvida se constituía num grande retardador da corrosão.

Nessa ocasião, a CSN acabara de terminar sua primeira expansão, e contava dentro de sua organização, com uma fábrica de estruturas metálicas, a qual tinha sido adquirida da United States Steel, em condições muito vantajosas, tendo sido utilizada na fabricação dos próprios edifícios industriais da expansão da Usina em Volta Redonda.
Era na ocasião, sem dúvida, a mais bem montada e mais bem equipada fábrica de estruturas metálicas do país, pronta para enfrentar o mercado externo e utilizar os perfis Iaminados da CSN, de maiores bitolas, que até então não tinham quase nenhum mercado.

Era a oportunidade para a FEM se lançar para fora dos limites da Usina. A Gerência de Vendas da CSN, na pessoa do então Cel. Santiago, além de vender as estacas referidas, convenceu o proprietário da Garagem a fazer todo o prédio em aço.

Para isso foi consultado e depois contratado o Dr. Paulo Fragoso, autor do projeto estrutural metálico do prédio que iria surgir. Com todo o entusiasmo, a FEM iniciou a fabricação, sob o comando do seu então chefe, Eng. Heitor Lopes Correia. Mais de uma centena de desenhos foram executados por desenhistas todos formados aqui, sob orientação do então chefe, da Sala de Desenhos, Roosevelt Carvalho, ex-Secretário Executivo da ABCEM.

Feito o projeto, iniciados os desenhos, iniciada a fabricação das estruturas e iniciada a cravação das estacas na periferia do terreno, faltava ainda um elemento. A CSN não tinha condição de montagem, pois estava altamente comprometida com o final das obras de ampliação.

Foram procuradas então, as três únicas empresas existentes em São Paulo, que, clientes da CSN, se dedicavam à fabricação de estruturas metálicas. Eram elas a Fichet, a Pierre Saby e a União dos Construtores Metálicos (subsidiária da Andratell S.A., desde 1966).

Foi feito uma concorrência, e saiu vencedora a União dos Construtores Metálicos. Naquela ocasião eu era o Engenheiro da empresa, e tive a oportunidade de coordenar e executar toda a montagem do edifício, razão pela qual, 45 anos depois, estou falando desta obra.

Feito esse retrospecto histórico, voltemos à técnica e focalizemos os principais tópicos do pioneirismo e arrojo tecnológico, que confirmam as qualidades da estrutura metálica, mesmo nas condições em que foi realizada a obra.
Estacas com as espinhas de solidarização da cortina de concreto. Notar o tabique de madeira no fundo, isolando a terra
As vigas de transição colocadas sobre as vigas baldrame. Notar o nervuramento das extremidades para transmitir os esforços provenientes das colunas que seriam montadas posteriormente.
A solução encontrada foi cravar-se estacas ao longo da periferia e construir-se o prédio de cima para baixo!

Inicialmente, no trecho retangular, foram cravadas as estacas com liga de cobre, formadas por 2 perfis 1 12" soldados pelas abas, atingindo cerca de 18 rn de comprimento e afastadas de 1,50 m. 0 topo das estacas corresponderia ao 60 teto, próximo ao nível da Rua Riachuelo, devendo ser escavados os andares até o térreo, na cota da Avenida 23 de Maio.

No topo das estacas, depois de perfeitamente niveladas, foram aplicadas placas retangulares soldadas, e apoiadas vigas de distribuição de cargas, em perfis de caixão de alma cheia, com comprimento de 4,5 m, abrangendo, cada uma, 3 estacas consecutivas.

As referidas vigas, de composição totalmente rebitadas, formadas por chapas e cantoneiras, trabalhavam como vigas baldrame, que receberiam as colunas metálicas que nela se apoiariam, transmitindo as cargas concentradas de cerca de 240 toneladas, provenientes dos andares acima do 6º piso (vide fotos 1, 2, 3 e 4).Terminada a laje, foi escavado todo o trecho entre o 60 e 5º tetos, com espaço para colocação das vigas do 5º teto, pelo mesmo sistema anterior, fixando-se as vigas nas faces das estacas.
Nas almas das estacas foram soldadas uma série de ferros redondos em forma de ganchos, e imitando espinhas de peixe, com inclinação alternadamente invertida a fim de solidarizar as estacas com uma cortina de concreto de 20 cm de espessura, que se ia executando à medida do prosseguimento do processo, isto é, à medida que se escavava e se colocava nova série de vigas, cada vez em nível mais baixo.

A cortina de concreto teve função dupla. Trabalhava como muro de arrimo, para receber os empuxos de terra, à medida que se ia avançando a escavação, fazendo as vigas e lajes metálicas trabalharem em conjunto como estroncas, com esforços de flexão para cargas verticais e compressão para cargas horizontais, provenientes dos empuxos.
A segunda função da cortina for de receber e distribuir as cargas verticais concentradas provenientes das colunas dos andares acima do 7º teto.

Essas cargas distribuídas pelas vigas baldrames, a cada conjunto de 3 estacas eram distribuídas uniformemente à cortina por meio dos referidos ganchos de solidarização (espinhas).

Assim, as cargas verticais foram distribuídas linear e uniformemente por intermédio da cortina até o andar térreo.
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