Na parte central do leque, constituindo a base da futura rampa de acesso, que atingiria o 16º andar, foram construídos mais quatro tubulões formando um retângulo, e a seguir unidos dois a dois por sapatas semi circulares que foram denominadas "rins" pelo formato e simetria. Essas sapatas receberam as grelhas metálicas (compostas de perfis I dispostos ortogonalmente), para aplicação das colunas mestras de apoio dos vigamentos das rampas.
Nessas colunas mestras, também se apoiavam as vigas formadoras dos diversos andares, de forma a se constituir uma trama radial partindo do núcleo da rampa para as colunas periféricas, travando todo o conjunto.
Na linha de fachada do lado da Av. 23 de Maio, existem quatro colunas principais que recebem as cargas dessas vigas radiais.
Como disse no início desse trabalho, esse foi o primeiro edifício em estruturas metálicas construído no Brasil, totalmente por brasileiros. Anteriormente todas as estruturas de edifícios eram importadas.

O que existia antes dele eram alguns edifícios em São Paulo:
• Delegacia Fiscal da Praça do Correio;
• 0 próprio prédio do Correio Central (ainda existente);
• o Edifício Conde Prates na rua José Bonifácio;
• o Edifício sede do Jockey Clube;
e no Rio de Janeiro:
• o Palace Hotel na Avenida Rio Branco e outros;
todos demolidos, e em seus lugares construídos outros prédios mais importantes e maiores.
No entanto, note-se que dos demolidos, a grande parte dos perfis metálicos foram vendidos a bom preço pelas empresas demolidoras, e reaplicados em muitas construções metálicas, existentes ainda hoje. Cumpre notar que o valor residual da estrutura metálica é de mais de 90%. o prédio da Garagem América gastou 1. 110 toneladas de aço, ou seja, apenas 67 kg/m² de área.
Se realizamos essa proeza há 45 anos atrás, nas condições descritas, esse prédio é a prova de que poderemos hoje, desde que se tenha o tão desejado aço estrutural a preço razoável, executar em aço, os prédios de 30 - 40 ou mais andares. Não será por falta de tecnologia que deixaremos de fazê-los.Prova disso, são os prédios do Edifício Palácio do Comércio, com 22 andares, em São Paulo, na esquina das ruas 24 de Maio c, Conselheiro Crispiniano, o Edifício Santa Cruz, em Porto Alegre, com 24 andares, a Garagem no Jockey Clube do Rio de janeiro, o Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco, também no Rio de janeiro, com 28 andares (vide fotos 26 e 27), todos construídos entre 20 e 25 anos atrás.

Certamente as colunas como eram realizadas, por composição rebitada, unindo-se cantoneiras a chapas de alma e chapas de mesa às abas, num verdadeiro "crochet" de rebites, tornava a solução antieconômica.
As vigas compostas, também por uniões rebitadas com diversos componentes seriam hoje proibitivas.
Mesmo com o advento no Brasil das vigas e colunas soldadas, o custo é alto.Somente quando os esperados perfis prometidos pela Açominas estiverem no mercado a preço razoável, é que teremos com certeza, a grande possibilidade da estrutura metálica nos edifícios de andares múltiplos.
Nos últimos 45 anos evoluímos bastante, também nas estruturas metálicas; muitas fábricas surgiram, pequenas, médias e grandes. Os equipamentos se sofisticaram. Máquinas aperfeiçoadas com emprego de controles numéricos e computadores.
Os nossos aços estruturais evoluíram, as opções de composição e resistência aumentaram. A nossa tecnologia de solda e os parafusos de alta resistência atingiram os maiores índices de qualidade, comparáveis aos padrões internacionais. Firmas montadoras se especializaram.
Do simples pau de carga e da improvisação de mastros de montagem, dispomos de guindastes, gruas e torres móveis. Hoje existem mais engenheiros que vêm se dedicando às estruturas metálicas.

Diria que hoje já existe uma mentalidade e uma consciência técnica apta a enfrentar a construção metálica de edifícios de andares múltiplos (para edifícios industriais não existe nenhuma dúvida mais a respeito).
Ainda é certo que temos de evoluir, especialmente na área da arquitetura estrutural ligada à consciência da realidade da construção industrializada.
A consciência de que o edifício não é apenas uma estrutura e uma série de lajes, mas sim um enorme conjunto de elementos construtivos, envolvendo tecnologias industriais diversas, seja dos materiais de revestimento, coberturas, isolamentos, anti-fogo, paredes e divisórias internas, instalações elétricas, hidráulicas, redes de comunicação, enfim, todo um conjunto de elementos que devem ser examinados e convenientemente ponderados pelos arquitetos, calculistas, projetistas e construtores de edifícios, com opções de estruturas metálicas.
Em resumo, num país em que na base da marreta e da corda se realizou a proeza da Garagem América, não resta dúvida que não ficaremos atrás do que temos visto nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão. Estou certo, sem ufanismo, que contamos com o melhor material, o mais moldável e mais versátil a todas as tecnologias - o material humano brasileiro.
Colaboração:
Paulo Alcides Andrade