O aço é o principal insumo para a fabricação de um navio. Empregado tanto na produção da estrutura, ou casco, quanto na de máquinas e equipamentos, o material representa entre 20% e 30% do custo da parte estrutural da embarcação. A construção dos 49 navios destinados à ampliação da frota da Transpetro (subsidiária da Petrobras) vai demandar um total de 680 mil toneladas de aço.
Uma embarcação do tipo Suezmax (destinado ao transporte de óleo cru e derivados, com capacidade para transportar cerca de 1,1 milhão de barris e cujas dimensões permitem sua passagem pelo Canal de Suez), por exemplo, consome em sua estrutura cerca de 22 mil toneladas do material. O setor naval disputa o fornecimento interno com a construção civil e outras indústrias, como a automobilística, o que resulta em uma disponibilidade apertada e preços internos frequentemente superiores aos internacionais, tornando mais vantajoso importar o produto.
Segundo o Instituto Aço Brasil, as siderúrgicas brasileiras têm capacidade para produzir 44,6 milhões de toneladas anuais de aço bruto. Desse total, as usinas projetam uma demanda superior a 1,8 milhão de toneladas pela indústria naval nos próximos cinco anos, considerando as encomendas totais de navios anunciadas pelos estaleiros.
Para garantir a produção de suas encomendas e diante da possibilidade de ganhos de escala, a Transpetro adotou, a partir de 2008, a estratégia de negociar os lotes de aço para os 49 navios do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) em nome dos estaleiros contratados. As negociações são realizadas por meio de tomadas de preço internacionais para cada lote, das quais podem participar tanto empresas nacionais como internacionais. Quem oferecer o melhor preço, ganha. E os contratos são fechados diretamente entre os estaleiros e as siderúrgicas.
Pelas contas da Transpetro, a estratégia permitiu até agora uma economia de 27% em relação ao preço orçado pelos estaleiros, o que se converte em redução no preço final dos navios. A companhia adquiriu 170 mil das 680 mil toneladas previstas para os navios do Promef. De todo o aço comprado até hoje para atender ao programa, cerca de 40% foram adquiridos no Brasil e 60% no exterior. A estratégia é usada apenas para as compras destinadas aos estaleiros.
No caso das máquinas e equipamentos, um segmento pulverizado, os fabricantes acabam pagando, no mercado nacional, um preço 10% a 15% superior ao importado, segundo informação do catálogo de navipeças da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial(ABDI).
Para Jorge Boeira, coordenador da área de energia da ABDI, a qualidade e disponibilidade de insumos siderúrgicos estratégicos afetam a competitividade dos fornecedores desses equipamentos. "Ao lado da escala, é um dos principais entraves para o desenvolvimento da cadeia de navipeças", afirma.
O quadro, no entanto, tende a mudar. No caso dos estaleiros, a Usiminas fornece 40% do volume demandado para os navios da Transpetro. Mas a Gerdau está entrando no mercado de aços planos, dominado pela Usiminas e CSN. A empresa vai produzir o material na unidade da Gerdau-Açominas, em Ouro Branco (MG). No momento, a companhia produz esse tipo de aço em suas subsidiárias nos Estados Unidos e exporta para o Brasil. O projeto visa atender à demanda crescente por aço na indústria naval, no setor de petróleo, na construção civil e na fabricação de equipamentos pesados. A entrada de mais um produtor deverá reduzir a pressão sobre os preços.
No Estaleiro Atlântico Sul (EAS), de Ipojuca (PE), foram utilizadas até o momento 24 mil toneladas de aço para a fabricação de seu primeiro navio, o petroleiro João Cândido, encomendado pela Transpetro - e adquiridas 96 mil toneladas para a produção de mais quatro navios. Depois de lançado ao mar em maio de 2010, o João Cândido, que seria o primeiro navio do Promef, precisou voltar ao dique seco do EAS para reparos, que devem ser concluídos em outubro deste ano.
O aço tem peso em torno de 20% no custo de produção do EAS, enquanto a mão de obra corresponde a cerca de 30%. As encomendas da Transpetro ao estaleiro somam 14 petroleiros do tipo Suezmax e oito do tipo Aframax (também destinados ao transporte de óleo cru e derivados, com capacidade de 800 mil barris).
No caso desses navios, o aço é negociado pela Transpetro. Para as demais embarcações, o estaleiro negocia com fornecedores brasileiros e internacionais as condições mais atrativas de custo, prazo e logística. Além do aço, o Atlântico Sul utiliza materiais para solda, tinta, tubos e conexões, cabos elétricos e gases industriais.
Para o estaleiro Sermetal, do Rio de Janeiro, que vai concluir em 2011 a primeira draga a ser produzida no país, o aço é também matéria-prima importante. Draga é um tipo de embarcação usado para aprofundar encostas, canais e leitos de rio. A que está sendo fabricada pelo Sermetal foi encomendada pela Camargo Corrêa e consumirá 1,2 mil toneladas de aço especial importado, a maior parte da Bélgica. São necessárias chapas mais grossas para resistir ao esforço da operação.
Segundo Pedro Henrique Correia, coordenador de projeto do Sermetal, a quantidade de aço utilizada numa draga é proporcionalmente maior do que a empregada em um navio. Dotado de escavadeira como parte integrante de sua estrutura, o projeto é pioneiro no país, onde normalmente as dragas não passam de balsas adaptadas.
Já na fabricação de plataformas, o aço não é tão decisivo. Mais importante é a parte de processamento, geração de energia, injeção de água e gás. Segundo Miguelangelo Thomé, diretor geral da Quip, só os módulos de geração de energia cus tam acima de US$ 90 milhões. A Quip está instalada no polo naval de Rio Grande (RS), construiu a plataforma P-53, inaugurada em 2008, e trabalha na P-55 e na P-63.
A P-55 é semissubmersível, com capacidade de produção de 180 mil barris diários e destinada ao Campo de Roncador, na Bacia de Campos (RJ). Com capacidade de 140 mil barris de petróleo por dia, a P-63 vai operar no campo de Papa Terra, também na Bacia de Campos, e será semelhante à P-53, do tipo flutuante (FPSO -Floating, Production, Storage & Offloading), com capacidade de produzir, processar e armazenar o petróleo e fazer sua transferência - e do gás natural - para a terra, via dutos ou petroleiros. (AC)
Infomet / Valor
Publicação: 04/10/2011