Sesc Bom Retiro: Lazer compacto

Nova unidade do Sesc em São Paulo, no Bairro do Bom Retiro, desafiou dimensões, lençol freático e edifícios históricos do entorno

O acesso principal ao Sesc Bom Retiro se dá pela Alameda Nothmann, em região de prédios tombados e altura limitada para novos edifícios

Era preciso atender ao programa estabelecido pelo Sesc para sua nova unidade Bom Retiro, em terreno exíguo, num bairro tradicional de São Paulo, cheio de prédios históricos e ocupação muito sedimentada.

O grande desafio inicial, para o arquiteto e projetista Leon Diksztejn, era contornar algumas restrições legais, como as limitações próximas e estreitas da vizinhança, o subsolo com um lençol freático que impedia ir muito abaixo do nível da Alameda Nothmann e a impossibilidade de levantar um prédio alto demais, pela existência de outros tombados - como é o caso da Estação Júlio Prestes/Sala São Paulo, a poucos metros.

"Pode-se considerar o Sesc Bom Retiro como um jogo de quebra-cabeça, onde se encaixam perfeitamente as diferentes soluções espaciais encontradas para cada uma das limitações de projeto. Só que isso ocorre de tal forma que qualquer pequena alteração em uma de suas peças muda todo o jogo", conta Leon.

Foi preciso usar a área máxima do terreno retangular, permitida por lei, para que todo o programa de uso se encaixasse no projeto arquitetônicoAssim surgiu a ideia de uma grande caixa que faria caber o programa de uso proposto pelo Sesc em um terreno pequeno, para edifício de quatro pavimentos acima do nível da rua, com dois subsolos. E foi preciso ocupar a área máxima permitida pela legislação do terreno retangular: "Essa caixa recebeu um vazio central de luz que vai até o último pavimento", aponta. Trata-se de uma praça, entrada principal da unidade, com acesso a partir da Nothmann. "Nossa leitura foi, então, encaixar o programa ao redor dessa praça. Ela é o elemento em torno do qual as coisas acontecem."

A lógica programática se concretiza ao longo de caminhos - rampas inclinadas - que circunscrevem a praça, com algumas escadas de acesso para apoio da circulação. Esta, por sua vez, não só conduz o usuário de um andar para o outro, como também o faz transitar entre as várias funções incorporadas pelo edifício: teatro-auditório com 308 lugares, quadra poliesportiva coberta, piscina semiolímpica, salas para atividades físicas, clínica odontológica, espaço infantil, áreas de convivência, de leitura, de exposições, de internet livre, além de comedoria, loja, central de atendimento e 162 vagas de estacionamento.

"Buscamos contiguidade, fazendo brinquedoteca ligada à biblioteca que, por sua vez, ficou ligada à internet livre. Na cobertura próxima à piscina suspensa ficam os vestiários."

Para entender a distribuição do programa, a fachada principal (aproximadamente 90 m de comprimento) pode ser dividida em três corpos, a partir do ponto de vista de quem a olha da rua: um central, correspondente ao vazio da praça; o direito, que é o setor de teatro, e o corpo da esquerda, chamado desportivo.

Apesar do estreito recuo em relação aos vizinhos, a luz natural consegue chegar aos subsolos de estacionamentos, abaixo do nível da Alameda NothmannO corpo esquerdo tem, no segundo subsolo, estacionamentos; no primeiro, equipamentos de apoio (reservatórios e áreas técnicas operacionais); ao nível da rua, está uma quadra poliesportiva e, sobre ela, a piscina, com uma cobertura retrátil, para que os usuários aproveitem os dias de sol. Ainda assim, encontra-se um pavimento técnico acima do nível da piscina.

Ao centro, o primeiro subsolo tem área de apoio à comedoria. Ao nível da praça, fica sua entrada para visitantes, ao fundo. "Sobre a comedoria estão foyer e piano bar, que se debruçam sobre a praça", anuncia Diksztejn. O piano bar é equipado para aulas de culinária, e sobre ele ficam ainda brinquedoteca (terceiro andar) e suporte médico para piscina (quarto andar). Placas de aquecedores solares ocupam a área correspondente desse pedaço da cobertura.

O lado direito só tem um subsolo. A praça se abre para um teatro, com caixa de palco de 12 m de altura. "Uma rampa conduz o visitante da praça à cota zero do auditório - nível da primeira fila de poltronas, abaixo do palco", explica o projetista. Um acesso superior liga o teatro ao foyer.

A necessidade de construir um edifício acessível definiu o grande número de rampas. "Onde elas não existem, é possível pegar os elevadores. Temos ainda acesso especial, pela rampa de saída, para equipamentos de filmagem, grandes instrumentos musicais e outras necessidades de auditório."

Metálica articulada

De todas as limitações que o terreno exíguo impunha às várias funções simultâneas, a busca de uma posição para a piscina foi a que exigiu os maiores malabarismos. E quem teve de se equilibrar, desta vez, foram os projetistas de estruturas.

"Tínhamos que ter a quadra poliesportiva e, ao mesmo tempo, uma piscina com solário. Pela lógica da distribuição predial do programa, era impossível tê-la sobre o corpo direito ou na porção central, onde a praça orienta a circulação do edifício. No térreo, o sol ficaria comprometido pela construção circundante. Sobrava o corpo esquerdo do retângulo, e a única solução, então, foi suspender a piscina sobre a quadra", justifica Leon.

Como uma caixa, o edifício tem um vazio central de luz que ascende até o quarto e último pavimento; o programa é distribuído ao redor dessa praçaPor outro lado, também não era possível imaginar uma quadra poliesportiva interrompida por pilares de concreto. "A necessidade do extenso vão livre e de um sistema estrutural que suportasse cargas da piscina apontou para a opção metálica", diz.

Segundo Cesar Pereira Lopes, engenheiro civil calculista para o Sesc Bom Retiro, a decisão por grandes pórticos em aço não destoou da realidade arquitetônica do bairro, de tradição metálica. "A própria Estação da Luz, próxima, é exemplo, além de pontilhões por onde passa a linha do trem", conta. "Isso também levou o arquiteto a optar por um sistema de estrutura mista."

Toda a fundação, passando pelos dois níveis de subsolo até a altura da praça, foi feita em concreto. "Da praça para cima, a estrutura é mista", confirma o engenheiro. "O vão central de 33 m que sustenta a piscina é, por sua vez, totalmente metálico, em superestrutura composta de dois grandes pórticos biarticulados e finos (3 m de altura), em aço A72 (grau 50), que servem como apoio da piscina suspensa e, ao mesmo tempo, como cobertura para a quadra poliesportiva."

Montagem da estrutura metálica para cobertura transparente (vidro) sobre a praça centralAs articulações dos pórticos não introduzem momento em sua base, aplicando apenas cargas verticais que vão direto para as fundações. "A grande vantagem foi termos uma estrutura muito mais leve e de material mais resistente; os esforços horizontais, por sua vez, foram absorvidos por tirantes embutidos dentro de vigas na laje (piso da quadra).

Não só têm função estrutural, como são também a grande atração arquitetônica do Sesc: os pórticos ficam visíveis por baixo, a partir da quadra, e pelo pavimento superior, para quem os observa da piscina. A grande massa d'água suspensa encontra-se dentro de uma caixa de concreto moldada "in loco", que parece se apoiar sobre as vigas de aço, fixada apenas pela ação de sua própria força-peso.

Para que possa ser utilizada também nos dias mais frios, ou de chuva, a piscina recebeu cobertura retrátil, em vidro e telha, com sistema simples e motorizado de abertura.

"Outra questão de peso nesse projeto é o aquecimento de água para uso nos vestiários e na piscina, além do reaproveitamento de água da chuva", relembra o arquiteto que assina o projeto.

Na temperatura certa

O projetista de sistemas elétricos e hidráulicos, Sergio Kater, explica que águas pluviais são exclusivamente utilizadas em bacias sanitárias: "Tivemos receio de direcionar o uso para limpeza ou irrigação automática porque, ocorrendo a existência de torneiras, e mesmo tendo informado funcionários sobre o uso não potável dessa água, não teríamos como controlar, todo o tempo, os possíveis usuá­rios", avalia.

A estrutura metálica apoia a piscina suspensa, ao mesmo tempo em que dá cobertura à quadra poliesportiva - sem a presença de pilares por um vão de mais de 30 mA água é captada pelo telhado ou partes da cobertura onde o trânsito de pessoas não é possível. Logo, a água que passa por superfícies de piso não é encaminhada para reúso. Depois de coletada, passa por filtragem antes de chegar a um reservatório inferior (primeiro subsolo), de fibra de vidro. De lá, a água é bombeada para um reservatório superior de concreto (quarto andar), ligado a bacias sanitárias. Quando não há quantidade suficiente de chuvas que preencham o reservatório superior, ele pode ser completado com água da rua. Nesse sistema, toda a tubulação foi feita em PVC.

Os pórticos metálicos, expostos, são a atração arquitetônica do edifício, e acompanham a tradição construtiva do bairro, com edifícios como a Estação Júlio Prestes e as pontes para passagem das linhas do trem


"E temos ainda o aquecimento solar para água dos chuveiros e da piscina", anuncia Sergio. No caso dos chuveiros, um sistema elétrico dá apoio. "O diferencial é que não há saídas distintas para águas quente e fria com o misturador acoplado. Ela já chega ao vestiário misturada, na temperatura ótima para uso." O sistema possui comando único e sensor que capta a temperatura ambiente enviando informações a um controlador central, que por sua vez determina a temperatura de saída da água no chuveiro.

Já na piscina é o gás quem dá apoio. O desenvolvimento do projeto exigiu estudos de viabilidade de matrizes energéticas distintas: "A alternativa mais barata, no entanto, se definirá de acordo com a relação entre tarifas e o consumo predial final. Mesmo assim, a decisão pelo sistema de apoio a gás considerou o fato de que a piscina já funciona como um grande reservatório de água, perdendo, em média, de um a dois graus Celsius por dia. Nesse caso, de todas as possibilidades, o aquecimento a gás será o de resposta mais rápida às necessidades de manutenção térmica".

Revestimentos

Dentro do que é premissa básica na especificação de revestimentos para as unidades do Sesc, optou-se por materiais resistentes, duráveis e de limpeza simples. A fachada tem corpo cromático em alumínio composto, além de revestimentos cerâmicos. Os pisos térreos e toda a circulação são executados em granito, e a praça recebeu piso drenante e antiderrapante da Tecnogran. "Onde há madeira, ela é certificada; e sempre que possível, procuramos usar o OSB - como ocorre nas paredes do auditório", finaliza Leon.

Ficha Técnica

arquitetura: Diksztejn Arquitetos; esquadrias: Nelson Firmino da Silva; acústica e conforto térmico: Ambiental; ambientação (administração): Arqueômetro; supervisão predial: Bettoni Automação e Segurança; ambientação (internet livre e atendimento integrado): Blochsó Arquitetura e Urbanismo; estrutura de concreto e de aço: Escritório Técnico César Pereira Lopes; fundações: Consultrix; sonorização: Crysalis; transporte vertical: Empro; luminotécnica: Esther Stiller; ambientação (áreas esportivas): Febra F. Brandão Arquitetura; cenotécnica: JC Serroni; ar condicionado: JMT; elétrica, hidráulica, sprinkler: KML; piso de concreto e drenagem: LPE; paisagismo: Luciano Fiaschi; cozinha: Fernando Machado de Campos; lógica: Marciano Engenharia; levantamento topográfico: Mesure Engenharia; laudo (vizinhos): MGP Engenharia; sinalização viária: Michel Sola; comunicação visual: Oz Design; cobertura retrátil: PCD; impermeabilização: Proassp; proteção passiva metálica: Tecsteel; odontologia: Terra Arquitetura; fôrmas e escoramentos para estrutura de concreto: Pashal; estrutura metálica (fabricação e montagem): Novatec; proteção passiva e pintura de estruturas metálicas: Unifrax; instalações elétricas e hidráulicas: Mendes Holler; instalação de ar condicionado: ENG; equipamentos e cabeamentos de lógica e supervisão predial: Expernet Telematica; tratamento e recuperação de concreto: Engeveda; revestimento de fachada: Alubond; revestimento cerâmico de fachada: Portobello; cobertura zipada: Bemo; mármores e granitos: DPC Projetos; revestimento de áreas molháveis e piscina: Gail; pisos esportivos: Lisonda; pisos elevados: Tate; esquadrias de alumínio (fornecimento e instalação): Perfbox; esquadrias de madeira (fornecimento e instalação): Projetto Nacional; esquadrias metálicas: Glafcon; forro clip-in: Hunter Douglas; poltronas de auditório: Giroflex; luminárias: Lumini; equipamentos de cenotecnia (fornecimento e instalação): TMV Engenharia.

Fonte:

Revista Téchne

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