Revisões e atrasos em obras públicas após cortes de R$ 50 bilhões no orçamento da União deste ano, anunciados no final de fevereiro pelo governo federal, aliados às pressões inflacionárias e alta nos custos, levaram o setor de máquinas e equipamentos para construção civil a repensar suas metas e postergar investimentos. Após o corte, obras e serviços que estavam previstos no orçamento federal de 2007 a 2009, mas que não foram iniciados até 30 de abril deste ano, foram cancelados pelo governo. As empresas que produziram vislumbrando um cenário mais aquecido, com avanço de pelo menos 10%, se deparam agora com estoques acima do normal.
O diretor geral da Auxter Máquinas e Equipamentos, representante da britânica JCB no Brasil, Célio Neto Ribeiro, diz que a desaceleração no ritmo de vendas no primeiro trimestre foi clara e que hoje a companhia se encontra estocada porque se preparou para uma expansão que não veio como o esperado. Para se ter uma ideia do cenário enfrentado pelo setor ao longo do primeiro semestre, a fábrica da JCB no País que estava trabalhando em dois turnos, agora opera apenas com um.
Embora a expectativa seja de melhora no segundo semestre, a companhia reduziu a projeção de vendas neste ano de 850 para 700 máquinas. Para o executivo, os números são reflexo da interrupção abrupta das obras, combinada a alta nos custos. No mês de maio, a inflação na construção civil (INCC-DI), setor que emprega quase 3 milhões de trabalhadores, atingiu 2,94% - maior patamar desde junho de 1995.
Ribeiro ressalta ainda que a pressão inflacionária tem atingido o setor com mais força porque os preços - que estão estabilizados desde 2008 - não têm acompanhado a evolução dos custos. O executivo entende que a desoneração da cadeia produtiva traria alívio para esse cenário. "Estamos negociando com uma fabricante de tratores coreana para vender seus produtos no Brasil há seis meses e tenho a sensação de que quanto mais nos aprofundamos nas negociações, mais desmotivados eles ficam diante da carga tributária que temos aqui", reclama o executivo.
A Petrotec, fabricante de equipamentos para construção civil que são utilizados no início das obras, prevê uma redução líquida de 20% nas vendas da empresa neste ano em relação a 2010. "Enquanto temos reduzido valores de venda, os salários e o preço dos insumos (como aço) continuam subindo", observa César Mari, diretor da companhia. Ele atribui parte desse resultado à concorrência desleal de produtos chineses no País. "Com o câmbio atual não temos como competir. O governo brasileiro deveria agir com mais rigor para tentar barrar a entrada desses produtos", defende o executivo.
Uma sinalização de melhora para o cenário foi dada recentemente diante da disposição do governo em reduzir a carga fiscal. Os ministérios envolvidos na integração da nova política industrial chegaram a um consenso no início de junho sobre iniciativas para desonerar a compra de máquinas e equipamentos. Entre elas estão a redução do prazo de depreciação das máquinas de cinco anos para 12 meses e a recuperação imediata do PIS/Cofins pagos por quem as adquire. Com o nome provisório de Política de Desenvolvimento da Competitividade (PDC), o programa deve ser divulgado pela presidente Dilma Rousseff até meados de julho.
Eurimilson João Daniel, vice presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema) e sócio diretor da Escad Rental, dize que, apesar de o crescimento esperado não ter não se concretizado, o setor não o perdeu de vista. "Em linhas gerais definimos 80% dos investimentos para o ano já no primeiro semestre. Em 2011 eu diria que a Escad fechou apenas 50%. O restante deve se confirmar ao longo dos próximos meses, dependendo do ritmo dos negócios." Neste ano, a empresa espera investir o mesmo volume aportado no ano passado, R$ 20 milhões, para a compra de máquinas.
Só quem tem reforço de caixa está conseguindo manter seus planos. A Mills Estruturas e Serviços de Engenharia, que levantou R$ 411 milhões no mercado com a abertura de capital, em abril deste ano, pretende investir R$ 1,1 bilhão no País no triênio 2010-2012. Desse montante, R$ 349 milhões já foram aportados no ano passado e o grupo espera alocar R$ 432,7 milhões neste ano.
Além dos recursos obtidos com a oferta de ações (IPO, na sigla em inglês), a empresa também aprovou uma emissão de até R$ 270 milhões em debêntures simples, não conversíveis em ações. Apesar das boas perspectivas, a Mills reconhece que os atrasos nas obras de grande porte tiveram impacto nos negócios da divisão de Construção durante o último trimestre do ano passado e o primeiro semestre deste ano.
Segundo Daniel, da Sobratema, no início do ano a expectativa era um crescimento médio de pelo menos 10% para o setor de máquinas e equipamentos em 2011. A projeção leva em conta as vendas internas, inclusive de produtos importados. "Hoje, acredito que se mantivermos o mesmo patamar de vendas do ano passado já será um bom resultado", diz.
No ano passado, as vendas do setor cresceram 70% e totalizaram 70.530 equipamentos. Desse montante, 24 mil são produtos da linha amarela (escavadeiras hidráulicas, retroescavadeiras, tratores, etc) e quase 9.600 da linha complementar (manipuladores telescópicos, gruas, guindastes, plataformas, compressores portáteis, etc).
Em 2015, pelos cálculos da Sobratema o setor deve superar a meta de 100 mil equipamentos vendidos.
O executivo lembra que antes da performance histórica de 2010, foram dois anos consecutivos de crescimento acima de 40% (2007 e 2008), seguidos de uma retração de 25% em 2009, em razão da crise financeira internacional.
Infomet / Agência Estado
Publicação: 27/06/2011